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    <title>.:.   Fabricio Carpinejar   .:.


Com providencial ajuda de Charles Pilger, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog est&aacute; em um novo endere&ccedil;o. Atualizem.
Com providencial ajuda de Charles Pilger, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog est&aacute; em um novo endere&ccedil;o. Atualizem.]]&gt;
Com providencial ajuda de Charles Pilger, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog est&aacute; em um novo endere&ccedil;o. Atualizem.]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html#39325002
http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html
1/10/2007 10:39:42 AM



A MEGERAPintura de Salvador DaliFabr&iacute;cio CarpinejarH&aacute; um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. S&oacute; ela me d&aacute; vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela. Corrigindo, a megera n&atilde;o &eacute; uma mulher, &eacute; a falta de mulher. Tampouco &eacute; um homem, &eacute; a aus&ecirc;ncia de sexualidade. A megera n&atilde;o &eacute; mal-amada, ela n&atilde;o ama. A megera dir&aacute; que voc&ecirc; abandonou os filhos quando na verdade se separou dela. Ela n&atilde;o sair&aacute; do passado porque n&atilde;o tem futuro. Far&aacute; com que seu filho o odeie, n&atilde;o suporta odi&aacute;-lo sozinha. &Eacute; incompetente at&eacute; para odiar.  Produzir&aacute; na crian&ccedil;a uma bomba-rel&oacute;gio contra o pai, a explodir na adolesc&ecirc;ncia. A megera educa seus filhos para n&atilde;o ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela. Tentar&aacute; atingi-lo sempre usando as crian&ccedil;as contra voc&ecirc;.  Sua mal&iacute;cia &eacute; revestida de ingenuidade infantil. Depois de meses sem not&iacute;cias, telefonar&aacute; para ofend&ecirc;-lo de pai ausente, quando &eacute; ela que n&atilde;o deixa a crian&ccedil;a conviver sem culpa. A megera &eacute; a Idade M&eacute;dia. A megera costuma falar mal de voc&ecirc; de prop&oacute;sito na frente do filho. Incitar&aacute; com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armar&aacute; um barraco alegando que seu filho foi espancado. Ela pode bater no filho de cinto, mas n&atilde;o permite que ningu&eacute;m rivalize com sua raiva.&Eacute; f&aacute;cil reconhecer uma megera: ela n&atilde;o mente, ela exagera. &Eacute; incompetente at&eacute; para mentir. Ela n&atilde;o se depila, ela se corta.Sofre por n&atilde;o fazer sofrer. Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. &Eacute; a v&iacute;tima de sua pr&oacute;pria ambi&ccedil;&atilde;o. Depois n&atilde;o consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser m&atilde;e em tempo integral. A megera n&atilde;o &eacute; m&atilde;e em tempo integral, &eacute; ex-esposa em tempo integral. O triste &eacute; que os filhos n&atilde;o podem se separar da megera, como o pai. A megera ter&aacute; sua fam&iacute;lia para fingir que ela n&atilde;o &eacute; uma megera. A megera &eacute; incapaz de falar &quot;tudo bem?&quot;, logo pergunta &quot;O que foi?&quot; A megera entrar&aacute; na Justi&ccedil;a para avisar que voc&ecirc; &eacute; rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma v&iacute;rgula para a megera, ela n&atilde;o &eacute; confi&aacute;vel nem num enterro. A megera est&aacute; se lixando para felicidade dos filhos, para a compreens&atilde;o entre os irm&atilde;os de outros casamentos. A megera n&atilde;o conseguiu ser feliz, &eacute; seu prop&oacute;sito n&atilde;o deixar ningu&eacute;m mais ser.Pelo bem dos filhos, a megera esquecer&aacute; os escr&uacute;pulos. Ela quer aparecer na foto quando n&atilde;o foi convidada. A megera &eacute; a bomba-rel&oacute;gio que deveria ter explodido na adolesc&ecirc;ncia. A megera colocar&aacute; seu filho no psic&oacute;logo, mas esquecer&aacute; de ir ao psic&oacute;logo. A megera estar&aacute; sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex. Ela transforma a separa&ccedil;&atilde;o numa briga de condom&iacute;nio. A megera pedir&aacute; para que fique com os filhos quando est&aacute; interessada em viajar. Ser&aacute; educada somente quando n&atilde;o tiver op&ccedil;&atilde;o. Ela encontrar&aacute; um jeito de n&atilde;o permitir que seu filho viaje contigo.  A megera &eacute; o fracasso do amor.  
A MEGERAPintura de Salvador DaliFabr&iacute;cio CarpinejarH&aacute; um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. S&oacute; ela me d&aacute; vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela. Corrigindo, a megera n&atilde;o &eacute; uma mulher, &eacute; a falta de mulher. Tampouco &eacute; um homem, &eacute; a aus&ecirc;ncia de sexualidade. A megera n&atilde;o &eacute; mal-amada, ela n&atilde;o ama. A megera dir&aacute; que voc&ecirc; abandonou os filhos quando na verdade se separou dela. Ela n&atilde;o sair&aacute; do passado porque n&atilde;o tem futuro. Far&aacute; com que seu filho o odeie, n&atilde;o suporta odi&aacute;-lo sozinha. &Eacute; incompetente at&eacute; para odiar.  Produzir&aacute; na crian&ccedil;a uma bomba-rel&oacute;gio contra o pai, a explodir na adolesc&ecirc;ncia. A megera educa seus filhos para n&atilde;o ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela. Tentar&aacute; atingi-lo sempre usando as crian&ccedil;as contra voc&ecirc;.  Sua mal&iacute;cia &eacute; revestida de ingenuidade infantil. Depois de meses sem not&iacute;cias, telefonar&aacute; para ofend&ecirc;-lo de pai ausente, quando &eacute; ela que n&atilde;o deixa a crian&ccedil;a conviver sem culpa. A megera &eacute; a Idade M&eacute;dia. A megera costuma falar mal de voc&ecirc; de prop&oacute;sito na frente do filho. Incitar&aacute; com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armar&aacute; um barraco alegando que seu filho foi espancado. Ela pode bater no filho de cinto, mas n&atilde;o permite que ningu&eacute;m rivalize com sua raiva.&Eacute; f&aacute;cil reconhecer uma megera: ela n&atilde;o mente, ela exagera. &Eacute; incompetente at&eacute; para mentir. Ela n&atilde;o se depila, ela se corta.Sofre por n&atilde;o fazer sofrer. Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. &Eacute; a v&iacute;tima de sua pr&oacute;pria ambi&ccedil;&atilde;o. Depois n&atilde;o consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser m&atilde;e em tempo integral. A megera n&atilde;o &eacute; m&atilde;e em tempo integral, &eacute; ex-esposa em tempo integral. O triste &eacute; que os filhos n&atilde;o podem se separar da megera, como o pai. A megera ter&aacute; sua fam&iacute;lia para fingir que ela n&atilde;o &eacute; uma megera. A megera &eacute; incapaz de falar &quot;tudo bem?&quot;, logo pergunta &quot;O que foi?&quot; A megera entrar&aacute; na Justi&ccedil;a para avisar que voc&ecirc; &eacute; rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma v&iacute;rgula para a megera, ela n&atilde;o &eacute; confi&aacute;vel nem num enterro. A megera est&aacute; se lixando para felicidade dos filhos, para a compreens&atilde;o entre os irm&atilde;os de outros casamentos. A megera n&atilde;o conseguiu ser feliz, &eacute; seu prop&oacute;sito n&atilde;o deixar ningu&eacute;m mais ser.Pelo bem dos filhos, a megera esquecer&aacute; os escr&uacute;pulos. Ela quer aparecer na foto quando n&atilde;o foi convidada. A megera &eacute; a bomba-rel&oacute;gio que deveria ter explodido na adolesc&ecirc;ncia. A megera colocar&aacute; seu filho no psic&oacute;logo, mas esquecer&aacute; de ir ao psic&oacute;logo. A megera estar&aacute; sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex. Ela transforma a separa&ccedil;&atilde;o numa briga de condom&iacute;nio. A megera pedir&aacute; para que fique com os filhos quando est&aacute; interessada em viajar. Ser&aacute; educada somente quando n&atilde;o tiver op&ccedil;&atilde;o. Ela encontrar&aacute; um jeito de n&atilde;o permitir que seu filho viaje contigo.  A megera &eacute; o fracasso do amor.  ]]&gt;
A MEGERAPintura de Salvador DaliFabr&iacute;cio CarpinejarH&aacute; um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. S&oacute; ela me d&aacute; vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela. Corrigindo, a megera n&atilde;o &eacute; uma mulher, &eacute; a falta de mulher. Tampouco &eacute; um homem, &eacute; a aus&ecirc;ncia de sexualidade. A megera n&atilde;o &eacute; mal-amada, ela n&atilde;o ama. A megera dir&aacute; que voc&ecirc; abandonou os filhos quando na verdade se separou dela. Ela n&atilde;o sair&aacute; do passado porque n&atilde;o tem futuro. Far&aacute; com que seu filho o odeie, n&atilde;o suporta odi&aacute;-lo sozinha. &Eacute; incompetente at&eacute; para odiar.  Produzir&aacute; na crian&ccedil;a uma bomba-rel&oacute;gio contra o pai, a explodir na adolesc&ecirc;ncia. A megera educa seus filhos para n&atilde;o ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela. Tentar&aacute; atingi-lo sempre usando as crian&ccedil;as contra voc&ecirc;.  Sua mal&iacute;cia &eacute; revestida de ingenuidade infantil. Depois de meses sem not&iacute;cias, telefonar&aacute; para ofend&ecirc;-lo de pai ausente, quando &eacute; ela que n&atilde;o deixa a crian&ccedil;a conviver sem culpa. A megera &eacute; a Idade M&eacute;dia. A megera costuma falar mal de voc&ecirc; de prop&oacute;sito na frente do filho. Incitar&aacute; com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armar&aacute; um barraco alegando que seu filho foi espancado. Ela pode bater no filho de cinto, mas n&atilde;o permite que ningu&eacute;m rivalize com sua raiva.&Eacute; f&aacute;cil reconhecer uma megera: ela n&atilde;o mente, ela exagera. &Eacute; incompetente at&eacute; para mentir. Ela n&atilde;o se depila, ela se corta.Sofre por n&atilde;o fazer sofrer. Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. &Eacute; a v&iacute;tima de sua pr&oacute;pria ambi&ccedil;&atilde;o. Depois n&atilde;o consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser m&atilde;e em tempo integral. A megera n&atilde;o &eacute; m&atilde;e em tempo integral, &eacute; ex-esposa em tempo integral. O triste &eacute; que os filhos n&atilde;o podem se separar da megera, como o pai. A megera ter&aacute; sua fam&iacute;lia para fingir que ela n&atilde;o &eacute; uma megera. A megera &eacute; incapaz de falar &quot;tudo bem?&quot;, logo pergunta &quot;O que foi?&quot; A megera entrar&aacute; na Justi&ccedil;a para avisar que voc&ecirc; &eacute; rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma v&iacute;rgula para a megera, ela n&atilde;o &eacute; confi&aacute;vel nem num enterro. A megera est&aacute; se lixando para felicidade dos filhos, para a compreens&atilde;o entre os irm&atilde;os de outros casamentos. A megera n&atilde;o conseguiu ser feliz, &eacute; seu prop&oacute;sito n&atilde;o deixar ningu&eacute;m mais ser.Pelo bem dos filhos, a megera esquecer&aacute; os escr&uacute;pulos. Ela quer aparecer na foto quando n&atilde;o foi convidada. A megera &eacute; a bomba-rel&oacute;gio que deveria ter explodido na adolesc&ecirc;ncia. A megera colocar&aacute; seu filho no psic&oacute;logo, mas esquecer&aacute; de ir ao psic&oacute;logo. A megera estar&aacute; sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex. Ela transforma a separa&ccedil;&atilde;o numa briga de condom&iacute;nio. A megera pedir&aacute; para que fique com os filhos quando est&aacute; interessada em viajar. Ser&aacute; educada somente quando n&atilde;o tiver op&ccedil;&atilde;o. Ela encontrar&aacute; um jeito de n&atilde;o permitir que seu filho viaje contigo.  A megera &eacute; o fracasso do amor.  ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html#39318964
http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html
1/8/2007 02:20:54 PM



FIL&Oacute;SOFA VIVIANE MOS&Eacute; LAVA AS PALAVRASEscritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras Fabr&iacute;cio Carpinejar*Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a puls&atilde;o emotiva com o excesso biogr&aacute;fico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir n&atilde;o faz poesia. Quem sente &eacute; poesia, n&atilde;o poeta. O poeta &eacute; o que n&atilde;o sente e se esfor&ccedil;a para sentir. A emo&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apanha a realidade, apanha da realidade.A poesia n&atilde;o &eacute; a pr&oacute;pria vida, por&eacute;m a vida em choque com a vida dos outros. Sua aus&ecirc;ncia devolvida na aus&ecirc;ncia pr&oacute;xima. O alheamento &eacute; intimidade; a observa&ccedil;&atilde;o, resid&ecirc;ncia. Sabe disso muito bem a fil&oacute;sofa e psicanalista Viviane Mos&eacute;, natural do Esp&iacute;rito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular ap&oacute;s apresentar o quadro Ser ou n&atilde;o Ser, do Fant&aacute;stico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com dom&iacute;nio para o outro. Realiza um translado l&iacute;rico de viv&ecirc;ncia. Um empr&eacute;stimo de casa, corpo e lugar. Sua ambi&ccedil;&atilde;o &eacute; estar fora de si. Nos &uacute;ltimos dois anos, publicou: a bela antologia Receita pra Lavar Palavra Suja (Arte Clara, 2004, 91 p&aacute;gs.) e o lan&ccedil;amento Desato, a registrar suas performances po&eacute;ticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro. O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:&quot;Desejei com toda for&ccedil;a ser a mo&ccedil;a do supermercado.Aquela que fala do namorado com tanta ternura.Mesmo das brigas ando tendo inveja.Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crian&ccedil;as,Sempre querendo, querendo, querendo.&quot;(Receita pra Lavar Palavra Suja, p&aacute;g. 3)&quot;Como eu queria escrever a hist&oacute;ria de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e &oacute;culos, olhando a menina mo&ccedil;a que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a esta&ccedil;&atilde;o e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pens&atilde;o. Mar&iacute;lia talvez fosse o nome dela. Mar&iacute;lia de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Mar&iacute;lia, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar.&quot;(Receita pra Lavar Palavra Suja, p&aacute;g. 44)Viviane &eacute; uma surpresa, uma voz toda imbu&iacute;da de curiosidade. Percebe que a for&ccedil;a do poema est&aacute; na suposi&ccedil;&atilde;o. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religi&atilde;o e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urg&ecirc;ncia pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imagina&ccedil;&atilde;o est&aacute; &agrave; vontade para completar o que falta conhecer. N&atilde;o depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invis&iacute;vel. Os dois livros apresentam uma obra em forma&ccedil;&atilde;o, ainda transpirando as influ&ecirc;ncias. Ad&eacute;lia Prado est&aacute; no tom eminentemente confessional, na percep&ccedil;&atilde;o aguda do olfato e da atmosfera dom&eacute;stica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual m&iacute;nimo do interior, marcas do repert&oacute;rio da autora mineira (lendo Desato I, imposs&iacute;vel n&atilde;o lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presen&ccedil;a nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa did&aacute;tica da inf&acirc;ncia. Outra correla&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea &eacute; Arnaldo Antunes e a dic&ccedil;&atilde;o infantil e perguntadeira de Coisas.Em Desato, Viviane Mos&eacute; expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que n&atilde;o precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o prop&oacute;sito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observa&ccedil;&atilde;o. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da polui&ccedil;&atilde;o do uso corrente, numa proposta semelhante &agrave; pr&eacute;-hist&oacute;ria das palavras de Barros. Volta &agrave; nomea&ccedil;&atilde;o fundadora do mundo. Explica o que &eacute; um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplifica&ccedil;&atilde;o e, em outras vezes, arrebata pelo esp&iacute;rito fr&aacute;gil e sens&iacute;vel das compara&ccedil;&otilde;es: &quot;Minha m&atilde;e gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar.&quot;Seu discurso l&iacute;rico &eacute; arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: &quot;Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas d&atilde;o certo n&oacute;s damos certo n&oacute;s acertamos./ de nen&eacute;m a festas n&oacute;s acertamos.&quot; A repeti&ccedil;&atilde;o e as frases clonadas geram linhas de pouco valor liter&aacute;rio, tal &quot;Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em p&oacute; na &aacute;gua&quot;. Ilumina quando investe na contempla&ccedil;&atilde;o de seus costumes: &quot;S&oacute; sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo.&quot; Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: &quot;Faz&iacute;amos sexo quase o tempo todo. Quando n&atilde;o/ Faz&iacute;amos p&atilde;o integral e iogurte ou cuid&aacute;vamos das abelhas.&quot; A escritora utiliza o m&eacute;todo filos&oacute;fico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. &quot;Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo.&quot; A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetra&ccedil;&atilde;o investigativa e po&eacute;tica, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes at&eacute; ent&atilde;o despercebidos. O ac&uacute;mulo n&atilde;o permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. T&atilde;o claro, que resulta distorcido. O que importa &eacute; a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como &quot;minha pessoa &eacute; muito mais fraca do que meus p&eacute;s&quot;. Viviane Mos&eacute; &eacute; uma grande poeta. N&atilde;o precisa mais explicar sua poesia. * Fabr&iacute;cio Carpinejar &eacute; poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Come&ccedil;ar (Bertrand Brasil, 2006)SERVI&Ccedil;ODesato Viviane Mos&eacute;, Record, 89 p&aacute;gs., R$ 24,90 (Publicado em O ESTADO DE S.PAULO, CADERNO CULTURA, p&aacute;g. 5, Domingo, 7/01/2007)
FIL&Oacute;SOFA VIVIANE MOS&Eacute; LAVA AS PALAVRASEscritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras Fabr&iacute;cio Carpinejar*Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a puls&atilde;o emotiva com o excesso biogr&aacute;fico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir n&atilde;o faz poesia. Quem sente &eacute; poesia, n&atilde;o poeta. O poeta &eacute; o que n&atilde;o sente e se esfor&ccedil;a para sentir. A emo&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apanha a realidade, apanha da realidade.A poesia n&atilde;o &eacute; a pr&oacute;pria vida, por&eacute;m a vida em choque com a vida dos outros. Sua aus&ecirc;ncia devolvida na aus&ecirc;ncia pr&oacute;xima. O alheamento &eacute; intimidade; a observa&ccedil;&atilde;o, resid&ecirc;ncia. Sabe disso muito bem a fil&oacute;sofa e psicanalista Viviane Mos&eacute;, natural do Esp&iacute;rito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular ap&oacute;s apresentar o quadro Ser ou n&atilde;o Ser, do Fant&aacute;stico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com dom&iacute;nio para o outro. Realiza um translado l&iacute;rico de viv&ecirc;ncia. Um empr&eacute;stimo de casa, corpo e lugar. Sua ambi&ccedil;&atilde;o &eacute; estar fora de si. Nos &uacute;ltimos dois anos, publicou: a bela antologia Receita pra Lavar Palavra Suja (Arte Clara, 2004, 91 p&aacute;gs.) e o lan&ccedil;amento Desato, a registrar suas performances po&eacute;ticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro. O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:&quot;Desejei com toda for&ccedil;a ser a mo&ccedil;a do supermercado.Aquela que fala do namorado com tanta ternura.Mesmo das brigas ando tendo inveja.Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crian&ccedil;as,Sempre querendo, querendo, querendo.&quot;(Receita pra Lavar Palavra Suja, p&aacute;g. 3)&quot;Como eu queria escrever a hist&oacute;ria de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e &oacute;culos, olhando a menina mo&ccedil;a que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a esta&ccedil;&atilde;o e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pens&atilde;o. Mar&iacute;lia talvez fosse o nome dela. Mar&iacute;lia de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Mar&iacute;lia, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar.&quot;(Receita pra Lavar Palavra Suja, p&aacute;g. 44)Viviane &eacute; uma surpresa, uma voz toda imbu&iacute;da de curiosidade. Percebe que a for&ccedil;a do poema est&aacute; na suposi&ccedil;&atilde;o. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religi&atilde;o e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urg&ecirc;ncia pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imagina&ccedil;&atilde;o est&aacute; &agrave; vontade para completar o que falta conhecer. N&atilde;o depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invis&iacute;vel. Os dois livros apresentam uma obra em forma&ccedil;&atilde;o, ainda transpirando as influ&ecirc;ncias. Ad&eacute;lia Prado est&aacute; no tom eminentemente confessional, na percep&ccedil;&atilde;o aguda do olfato e da atmosfera dom&eacute;stica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual m&iacute;nimo do interior, marcas do repert&oacute;rio da autora mineira (lendo Desato I, imposs&iacute;vel n&atilde;o lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presen&ccedil;a nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa did&aacute;tica da inf&acirc;ncia. Outra correla&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea &eacute; Arnaldo Antunes e a dic&ccedil;&atilde;o infantil e perguntadeira de Coisas.Em Desato, Viviane Mos&eacute; expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que n&atilde;o precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o prop&oacute;sito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observa&ccedil;&atilde;o. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da polui&ccedil;&atilde;o do uso corrente, numa proposta semelhante &agrave; pr&eacute;-hist&oacute;ria das palavras de Barros. Volta &agrave; nomea&ccedil;&atilde;o fundadora do mundo. Explica o que &eacute; um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplifica&ccedil;&atilde;o e, em outras vezes, arrebata pelo esp&iacute;rito fr&aacute;gil e sens&iacute;vel das compara&ccedil;&otilde;es: &quot;Minha m&atilde;e gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar.&quot;Seu discurso l&iacute;rico &eacute; arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: &quot;Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas d&atilde;o certo n&oacute;s damos certo n&oacute;s acertamos./ de nen&eacute;m a festas n&oacute;s acertamos.&quot; A repeti&ccedil;&atilde;o e as frases clonadas geram linhas de pouco valor liter&aacute;rio, tal &quot;Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em p&oacute; na &aacute;gua&quot;. Ilumina quando investe na contempla&ccedil;&atilde;o de seus costumes: &quot;S&oacute; sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo.&quot; Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: &quot;Faz&iacute;amos sexo quase o tempo todo. Quando n&atilde;o/ Faz&iacute;amos p&atilde;o integral e iogurte ou cuid&aacute;vamos das abelhas.&quot; A escritora utiliza o m&eacute;todo filos&oacute;fico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. &quot;Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo.&quot; A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetra&ccedil;&atilde;o investigativa e po&eacute;tica, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes at&eacute; ent&atilde;o despercebidos. O ac&uacute;mulo n&atilde;o permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. T&atilde;o claro, que resulta distorcido. O que importa &eacute; a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como &quot;minha pessoa &eacute; muito mais fraca do que meus p&eacute;s&quot;. Viviane Mos&eacute; &eacute; uma grande poeta. N&atilde;o precisa mais explicar sua poesia. * Fabr&iacute;cio Carpinejar &eacute; poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Come&ccedil;ar (Bertrand Brasil, 2006)SERVI&Ccedil;ODesato Viviane Mos&eacute;, Record, 89 p&aacute;gs., R$ 24,90 (Publicado em O ESTADO DE S.PAULO, CADERNO CULTURA, p&aacute;g. 5, Domingo, 7/01/2007)]]&gt;
FIL&Oacute;SOFA VIVIANE MOS&Eacute; LAVA AS PALAVRASEscritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras Fabr&iacute;cio Carpinejar*Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a puls&atilde;o emotiva com o excesso biogr&aacute;fico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir n&atilde;o faz poesia. Quem sente &eacute; poesia, n&atilde;o poeta. O poeta &eacute; o que n&atilde;o sente e se esfor&ccedil;a para sentir. A emo&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apanha a realidade, apanha da realidade.A poesia n&atilde;o &eacute; a pr&oacute;pria vida, por&eacute;m a vida em choque com a vida dos outros. Sua aus&ecirc;ncia devolvida na aus&ecirc;ncia pr&oacute;xima. O alheamento &eacute; intimidade; a observa&ccedil;&atilde;o, resid&ecirc;ncia. Sabe disso muito bem a fil&oacute;sofa e psicanalista Viviane Mos&eacute;, natural do Esp&iacute;rito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular ap&oacute;s apresentar o quadro Ser ou n&atilde;o Ser, do Fant&aacute;stico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com dom&iacute;nio para o outro. Realiza um translado l&iacute;rico de viv&ecirc;ncia. Um empr&eacute;stimo de casa, corpo e lugar. Sua ambi&ccedil;&atilde;o &eacute; estar fora de si. Nos &uacute;ltimos dois anos, publicou: a bela antologia Receita pra Lavar Palavra Suja (Arte Clara, 2004, 91 p&aacute;gs.) e o lan&ccedil;amento Desato, a registrar suas performances po&eacute;ticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro. O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:&quot;Desejei com toda for&ccedil;a ser a mo&ccedil;a do supermercado.Aquela que fala do namorado com tanta ternura.Mesmo das brigas ando tendo inveja.Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crian&ccedil;as,Sempre querendo, querendo, querendo.&quot;(Receita pra Lavar Palavra Suja, p&aacute;g. 3)&quot;Como eu queria escrever a hist&oacute;ria de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e &oacute;culos, olhando a menina mo&ccedil;a que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a esta&ccedil;&atilde;o e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pens&atilde;o. Mar&iacute;lia talvez fosse o nome dela. Mar&iacute;lia de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Mar&iacute;lia, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar.&quot;(Receita pra Lavar Palavra Suja, p&aacute;g. 44)Viviane &eacute; uma surpresa, uma voz toda imbu&iacute;da de curiosidade. Percebe que a for&ccedil;a do poema est&aacute; na suposi&ccedil;&atilde;o. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religi&atilde;o e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urg&ecirc;ncia pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imagina&ccedil;&atilde;o est&aacute; &agrave; vontade para completar o que falta conhecer. N&atilde;o depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invis&iacute;vel. Os dois livros apresentam uma obra em forma&ccedil;&atilde;o, ainda transpirando as influ&ecirc;ncias. Ad&eacute;lia Prado est&aacute; no tom eminentemente confessional, na percep&ccedil;&atilde;o aguda do olfato e da atmosfera dom&eacute;stica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual m&iacute;nimo do interior, marcas do repert&oacute;rio da autora mineira (lendo Desato I, imposs&iacute;vel n&atilde;o lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presen&ccedil;a nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa did&aacute;tica da inf&acirc;ncia. Outra correla&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea &eacute; Arnaldo Antunes e a dic&ccedil;&atilde;o infantil e perguntadeira de Coisas.Em Desato, Viviane Mos&eacute; expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que n&atilde;o precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o prop&oacute;sito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observa&ccedil;&atilde;o. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da polui&ccedil;&atilde;o do uso corrente, numa proposta semelhante &agrave; pr&eacute;-hist&oacute;ria das palavras de Barros. Volta &agrave; nomea&ccedil;&atilde;o fundadora do mundo. Explica o que &eacute; um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplifica&ccedil;&atilde;o e, em outras vezes, arrebata pelo esp&iacute;rito fr&aacute;gil e sens&iacute;vel das compara&ccedil;&otilde;es: &quot;Minha m&atilde;e gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar.&quot;Seu discurso l&iacute;rico &eacute; arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: &quot;Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas d&atilde;o certo n&oacute;s damos certo n&oacute;s acertamos./ de nen&eacute;m a festas n&oacute;s acertamos.&quot; A repeti&ccedil;&atilde;o e as frases clonadas geram linhas de pouco valor liter&aacute;rio, tal &quot;Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em p&oacute; na &aacute;gua&quot;. Ilumina quando investe na contempla&ccedil;&atilde;o de seus costumes: &quot;S&oacute; sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo.&quot; Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: &quot;Faz&iacute;amos sexo quase o tempo todo. Quando n&atilde;o/ Faz&iacute;amos p&atilde;o integral e iogurte ou cuid&aacute;vamos das abelhas.&quot; A escritora utiliza o m&eacute;todo filos&oacute;fico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. &quot;Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo.&quot; A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetra&ccedil;&atilde;o investigativa e po&eacute;tica, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes at&eacute; ent&atilde;o despercebidos. O ac&uacute;mulo n&atilde;o permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. T&atilde;o claro, que resulta distorcido. O que importa &eacute; a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como &quot;minha pessoa &eacute; muito mais fraca do que meus p&eacute;s&quot;. Viviane Mos&eacute; &eacute; uma grande poeta. N&atilde;o precisa mais explicar sua poesia. * Fabr&iacute;cio Carpinejar &eacute; poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Come&ccedil;ar (Bertrand Brasil, 2006)SERVI&Ccedil;ODesato Viviane Mos&eacute;, Record, 89 p&aacute;gs., R$ 24,90 (Publicado em O ESTADO DE S.PAULO, CADERNO CULTURA, p&aacute;g. 5, Domingo, 7/01/2007)]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html#39316805
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1/7/2007 07:04:29 PM



A INF&Acirc;NCIA POR PERTOPintura de Paul KleeFabr&iacute;cio CarpinejarH&aacute; homens que primeiro olham a bunda; outros ca&ccedil;am os seios e as pernas. N&atilde;o que eu n&atilde;o olhe, eu olho s&oacute; depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher &eacute; a inf&acirc;ncia. A inf&acirc;ncia estar&aacute; nas m&atilde;os que seguram as saias, n&atilde;o nas saias. Estar&aacute; no jeito que co&ccedil;a os olhos, n&atilde;o nos olhos. Estar&aacute; na forma como penteia os cabelos, n&atilde;o nos cabelos. &Eacute; um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melanc&oacute;lico que recolhe as pequenas desapari&ccedil;&otilde;es da bolsa. A beleza de uma mulher est&aacute; na inf&acirc;ncia que teve ou n&atilde;o teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para n&atilde;o sofrer. Naquilo que deixou passar e n&atilde;o significa que esqueceu. O tempo de uma mulher n&atilde;o &eacute; o que est&aacute; &agrave; frente, mas o que n&atilde;o aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte. Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irm&atilde;os, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estr&eacute;ia no palco nas apresenta&ccedil;&otilde;es do final do ano. O que me agrada n&atilde;o &eacute; o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de mo&ccedil;a, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-&iacute;ris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas in&uacute;teis me tranq&uuml;ilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de n&atilde;o chegar a parte alguma.  N&atilde;o quero o que ela j&aacute; conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos &eacute; mais dif&iacute;cil do que criar desejos. N&atilde;o ambiciono que uma mulher diga que come&ccedil;ou a viver comigo. Que diga tudo o que n&atilde;o viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. N&atilde;o se conquista uma mulher, &eacute; preciso merec&ecirc;-la. Receber um livro n&atilde;o &eacute; l&ecirc;-lo. Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. N&atilde;o &eacute; respeitar, &eacute; merecer. O que envolve observar com os ouvidos, n&atilde;o impor o ritmo, n&atilde;o deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras n&atilde;o sejam filhos indesejados. Ou que o sil&ecirc;ncio n&atilde;o seja filho casual da distra&ccedil;&atilde;o. Que n&atilde;o sejamos &oacute;bvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como p&aacute;ssaros que improvisam telhados num pr&eacute;dio abandonado. E n&atilde;o &eacute; olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da inf&acirc;ncia. 
A INF&Acirc;NCIA POR PERTOPintura de Paul KleeFabr&iacute;cio CarpinejarH&aacute; homens que primeiro olham a bunda; outros ca&ccedil;am os seios e as pernas. N&atilde;o que eu n&atilde;o olhe, eu olho s&oacute; depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher &eacute; a inf&acirc;ncia. A inf&acirc;ncia estar&aacute; nas m&atilde;os que seguram as saias, n&atilde;o nas saias. Estar&aacute; no jeito que co&ccedil;a os olhos, n&atilde;o nos olhos. Estar&aacute; na forma como penteia os cabelos, n&atilde;o nos cabelos. &Eacute; um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melanc&oacute;lico que recolhe as pequenas desapari&ccedil;&otilde;es da bolsa. A beleza de uma mulher est&aacute; na inf&acirc;ncia que teve ou n&atilde;o teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para n&atilde;o sofrer. Naquilo que deixou passar e n&atilde;o significa que esqueceu. O tempo de uma mulher n&atilde;o &eacute; o que est&aacute; &agrave; frente, mas o que n&atilde;o aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte. Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irm&atilde;os, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estr&eacute;ia no palco nas apresenta&ccedil;&otilde;es do final do ano. O que me agrada n&atilde;o &eacute; o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de mo&ccedil;a, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-&iacute;ris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas in&uacute;teis me tranq&uuml;ilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de n&atilde;o chegar a parte alguma.  N&atilde;o quero o que ela j&aacute; conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos &eacute; mais dif&iacute;cil do que criar desejos. N&atilde;o ambiciono que uma mulher diga que come&ccedil;ou a viver comigo. Que diga tudo o que n&atilde;o viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. N&atilde;o se conquista uma mulher, &eacute; preciso merec&ecirc;-la. Receber um livro n&atilde;o &eacute; l&ecirc;-lo. Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. N&atilde;o &eacute; respeitar, &eacute; merecer. O que envolve observar com os ouvidos, n&atilde;o impor o ritmo, n&atilde;o deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras n&atilde;o sejam filhos indesejados. Ou que o sil&ecirc;ncio n&atilde;o seja filho casual da distra&ccedil;&atilde;o. Que n&atilde;o sejamos &oacute;bvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como p&aacute;ssaros que improvisam telhados num pr&eacute;dio abandonado. E n&atilde;o &eacute; olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da inf&acirc;ncia. ]]&gt;
A INF&Acirc;NCIA POR PERTOPintura de Paul KleeFabr&iacute;cio CarpinejarH&aacute; homens que primeiro olham a bunda; outros ca&ccedil;am os seios e as pernas. N&atilde;o que eu n&atilde;o olhe, eu olho s&oacute; depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher &eacute; a inf&acirc;ncia. A inf&acirc;ncia estar&aacute; nas m&atilde;os que seguram as saias, n&atilde;o nas saias. Estar&aacute; no jeito que co&ccedil;a os olhos, n&atilde;o nos olhos. Estar&aacute; na forma como penteia os cabelos, n&atilde;o nos cabelos. &Eacute; um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melanc&oacute;lico que recolhe as pequenas desapari&ccedil;&otilde;es da bolsa. A beleza de uma mulher est&aacute; na inf&acirc;ncia que teve ou n&atilde;o teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para n&atilde;o sofrer. Naquilo que deixou passar e n&atilde;o significa que esqueceu. O tempo de uma mulher n&atilde;o &eacute; o que est&aacute; &agrave; frente, mas o que n&atilde;o aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte. Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irm&atilde;os, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estr&eacute;ia no palco nas apresenta&ccedil;&otilde;es do final do ano. O que me agrada n&atilde;o &eacute; o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de mo&ccedil;a, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-&iacute;ris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas in&uacute;teis me tranq&uuml;ilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de n&atilde;o chegar a parte alguma.  N&atilde;o quero o que ela j&aacute; conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos &eacute; mais dif&iacute;cil do que criar desejos. N&atilde;o ambiciono que uma mulher diga que come&ccedil;ou a viver comigo. Que diga tudo o que n&atilde;o viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. N&atilde;o se conquista uma mulher, &eacute; preciso merec&ecirc;-la. Receber um livro n&atilde;o &eacute; l&ecirc;-lo. Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. N&atilde;o &eacute; respeitar, &eacute; merecer. O que envolve observar com os ouvidos, n&atilde;o impor o ritmo, n&atilde;o deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras n&atilde;o sejam filhos indesejados. Ou que o sil&ecirc;ncio n&atilde;o seja filho casual da distra&ccedil;&atilde;o. Que n&atilde;o sejamos &oacute;bvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como p&aacute;ssaros que improvisam telhados num pr&eacute;dio abandonado. E n&atilde;o &eacute; olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da inf&acirc;ncia. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html#39307413
http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html
1/3/2007 08:48:15 PM



QUE 2007 SEJA O ANO DOS &quot;MALAS&quot;Gravura de GiacomettiFabr&iacute;cio CarpinejarFiquei nos &uacute;ltimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer liga&ccedil;&otilde;es. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revela&ccedil;&atilde;o. Revela&ccedil;&atilde;o porque j&aacute; me vi na mesma situa&ccedil;&atilde;o outras vezes quando me apaixonava, e n&atilde;o podia ligar para n&atilde;o soar como um chato ou como um dependente.  Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher tamb&eacute;m fazia o mesmo. Duas respostas aguardando n&atilde;o formam uma pergunta. Nem um casal. N&atilde;o compreendo porque o apaixonado n&atilde;o pode dizer que est&aacute; apaixonado. Se ele declara, &eacute; taxado de precipitado e estraga o mist&eacute;rio. Que mist&eacute;rio? Todos os seus conhecidos sabem que ele &eacute; apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? &Eacute; uma conven&ccedil;&atilde;o que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele j&aacute; come&ccedil;a mentindo o que sente? O que h&aacute; de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca? Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para n&atilde;o ser um &quot;mala&quot;, algu&eacute;m que n&atilde;o se toca e teima. N&atilde;o retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posi&ccedil;&atilde;o. Talvez o &quot;mala&quot; seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paix&atilde;o, n&atilde;o vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai at&eacute; o fim, descobriu que a cerveja &eacute; mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do in&iacute;cio - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que n&atilde;o continua n&atilde;o &eacute; perfeito.   O &quot;mala&quot; &eacute; a consagra&ccedil;&atilde;o do inconseq&uuml;ente. Deve sofrer, por&eacute;m tem realidade para sofrer, n&atilde;o &eacute; como o sedutor que sofre do invis&iacute;vel. O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O &quot;mala&quot; n&atilde;o est&aacute; preocupado com sua reputa&ccedil;&atilde;o, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome. As mulheres est&atilde;o acostumadas com o que &eacute; dif&iacute;cil. Se for imposs&iacute;vel, melhor. Infelizmente, n&atilde;o acolhem com generosidade o &quot;mala&quot;. Observam a figura com ares de repulsa. At&eacute; repugn&acirc;ncia. O &quot;mala&quot; &eacute; a contradi&ccedil;&atilde;o feminina, o que ela deseja no decorrer da rela&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o em seu princ&iacute;pio. O &quot;mala&quot; pode ser mala depois, desde que simule resist&ecirc;ncia nas primeiras semanas. S&oacute; que o &quot;mala&quot; n&atilde;o finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. N&atilde;o est&aacute; disfar&ccedil;ado de homem s&eacute;rio. &Eacute; um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil. E &eacute; justo da insist&ecirc;ncia intr&eacute;pida do &quot;mala&quot; que o amor precisa para ser carregado de volta &agrave; sinceridade. 
QUE 2007 SEJA O ANO DOS &quot;MALAS&quot;Gravura de GiacomettiFabr&iacute;cio CarpinejarFiquei nos &uacute;ltimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer liga&ccedil;&otilde;es. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revela&ccedil;&atilde;o. Revela&ccedil;&atilde;o porque j&aacute; me vi na mesma situa&ccedil;&atilde;o outras vezes quando me apaixonava, e n&atilde;o podia ligar para n&atilde;o soar como um chato ou como um dependente.  Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher tamb&eacute;m fazia o mesmo. Duas respostas aguardando n&atilde;o formam uma pergunta. Nem um casal. N&atilde;o compreendo porque o apaixonado n&atilde;o pode dizer que est&aacute; apaixonado. Se ele declara, &eacute; taxado de precipitado e estraga o mist&eacute;rio. Que mist&eacute;rio? Todos os seus conhecidos sabem que ele &eacute; apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? &Eacute; uma conven&ccedil;&atilde;o que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele j&aacute; come&ccedil;a mentindo o que sente? O que h&aacute; de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca? Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para n&atilde;o ser um &quot;mala&quot;, algu&eacute;m que n&atilde;o se toca e teima. N&atilde;o retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posi&ccedil;&atilde;o. Talvez o &quot;mala&quot; seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paix&atilde;o, n&atilde;o vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai at&eacute; o fim, descobriu que a cerveja &eacute; mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do in&iacute;cio - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que n&atilde;o continua n&atilde;o &eacute; perfeito.   O &quot;mala&quot; &eacute; a consagra&ccedil;&atilde;o do inconseq&uuml;ente. Deve sofrer, por&eacute;m tem realidade para sofrer, n&atilde;o &eacute; como o sedutor que sofre do invis&iacute;vel. O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O &quot;mala&quot; n&atilde;o est&aacute; preocupado com sua reputa&ccedil;&atilde;o, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome. As mulheres est&atilde;o acostumadas com o que &eacute; dif&iacute;cil. Se for imposs&iacute;vel, melhor. Infelizmente, n&atilde;o acolhem com generosidade o &quot;mala&quot;. Observam a figura com ares de repulsa. At&eacute; repugn&acirc;ncia. O &quot;mala&quot; &eacute; a contradi&ccedil;&atilde;o feminina, o que ela deseja no decorrer da rela&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o em seu princ&iacute;pio. O &quot;mala&quot; pode ser mala depois, desde que simule resist&ecirc;ncia nas primeiras semanas. S&oacute; que o &quot;mala&quot; n&atilde;o finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. N&atilde;o est&aacute; disfar&ccedil;ado de homem s&eacute;rio. &Eacute; um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil. E &eacute; justo da insist&ecirc;ncia intr&eacute;pida do &quot;mala&quot; que o amor precisa para ser carregado de volta &agrave; sinceridade. ]]&gt;
QUE 2007 SEJA O ANO DOS &quot;MALAS&quot;Gravura de GiacomettiFabr&iacute;cio CarpinejarFiquei nos &uacute;ltimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer liga&ccedil;&otilde;es. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revela&ccedil;&atilde;o. Revela&ccedil;&atilde;o porque j&aacute; me vi na mesma situa&ccedil;&atilde;o outras vezes quando me apaixonava, e n&atilde;o podia ligar para n&atilde;o soar como um chato ou como um dependente.  Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher tamb&eacute;m fazia o mesmo. Duas respostas aguardando n&atilde;o formam uma pergunta. Nem um casal. N&atilde;o compreendo porque o apaixonado n&atilde;o pode dizer que est&aacute; apaixonado. Se ele declara, &eacute; taxado de precipitado e estraga o mist&eacute;rio. Que mist&eacute;rio? Todos os seus conhecidos sabem que ele &eacute; apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? &Eacute; uma conven&ccedil;&atilde;o que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele j&aacute; come&ccedil;a mentindo o que sente? O que h&aacute; de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca? Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para n&atilde;o ser um &quot;mala&quot;, algu&eacute;m que n&atilde;o se toca e teima. N&atilde;o retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posi&ccedil;&atilde;o. Talvez o &quot;mala&quot; seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paix&atilde;o, n&atilde;o vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai at&eacute; o fim, descobriu que a cerveja &eacute; mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do in&iacute;cio - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que n&atilde;o continua n&atilde;o &eacute; perfeito.   O &quot;mala&quot; &eacute; a consagra&ccedil;&atilde;o do inconseq&uuml;ente. Deve sofrer, por&eacute;m tem realidade para sofrer, n&atilde;o &eacute; como o sedutor que sofre do invis&iacute;vel. O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O &quot;mala&quot; n&atilde;o est&aacute; preocupado com sua reputa&ccedil;&atilde;o, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome. As mulheres est&atilde;o acostumadas com o que &eacute; dif&iacute;cil. Se for imposs&iacute;vel, melhor. Infelizmente, n&atilde;o acolhem com generosidade o &quot;mala&quot;. Observam a figura com ares de repulsa. At&eacute; repugn&acirc;ncia. O &quot;mala&quot; &eacute; a contradi&ccedil;&atilde;o feminina, o que ela deseja no decorrer da rela&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o em seu princ&iacute;pio. O &quot;mala&quot; pode ser mala depois, desde que simule resist&ecirc;ncia nas primeiras semanas. S&oacute; que o &quot;mala&quot; n&atilde;o finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. N&atilde;o est&aacute; disfar&ccedil;ado de homem s&eacute;rio. &Eacute; um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil. E &eacute; justo da insist&ecirc;ncia intr&eacute;pida do &quot;mala&quot; que o amor precisa para ser carregado de volta &agrave; sinceridade. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39295829
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12/29/2006 08:36:31 PM



MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOSPintura de Allen Jones Fabr&iacute;cio CarpinejarN&atilde;o &eacute; a minha idade que determina que envelhe&ccedil;o; &eacute; a idade de meus filhos. Costumo absolver minha eros&atilde;o, dar um desconto &agrave;s rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, n&atilde;o me amea&ccedil;ar com compara&ccedil;&otilde;es do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos? Treze anos? Calma, n&atilde;o consegui absorver. Quando ela tinha 12, n&atilde;o parecia t&atilde;o longe, ainda era poss&iacute;vel brincar de gangorra e engan&aacute;-la com desculpas. N&atilde;o mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que n&atilde;o gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, n&atilde;o mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos s&atilde;o os meus olhos dentro dos seus. Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repeti&ccedil;&atilde;o, estou me habituando. &Eacute; um choque. Antes brigava pela festa de anivers&aacute;rio, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. N&atilde;o a agrada mais o estardalha&ccedil;o de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela n&atilde;o quer comemorar, ela se conforma.  De uma forma e de outra, terminou sua inf&acirc;ncia. Da adolesc&ecirc;ncia vai para a vida adulta, sem volta. N&atilde;o vou mais peg&aacute;-la no colo. Terei que tomar cuidado em n&atilde;o tocar em seus seios na hora de abra&ccedil;ar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, n&atilde;o a olharei de cima. Ela me repreender&aacute; mais do que concordar&aacute; comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor est&aacute; cheio de cuidados e pudores. &Eacute; um amor mais rec&ocirc;ndito.Ela ser&aacute; grosseira ao telefone e nem ir&aacute; reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a liga&ccedil;&atilde;o de um guri, telefonarei na hora. Far&aacute; o poss&iacute;vel para que desapare&ccedil;a r&aacute;pido. Monossil&aacute;bica, pronunciar&aacute; bala ou palha diante de minhas sugest&otilde;es. Usar&aacute; fones nos ouvidos e vai recorrer &agrave; m&iacute;mica para expressar sua opini&atilde;o. Dir&aacute; que n&atilde;o a entendo mais vezes do que o necess&aacute;rio. E n&atilde;o a entenderei mesmo. Chegou o momento de minha ins&ocirc;nia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, at&eacute; que ela volte das festas. Pais s&atilde;o son&acirc;mbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. N&atilde;o receberei mais cart&otilde;es e desenhos com a promessa de amizade eterna. &Eacute; recomend&aacute;vel guardar um estoque de sua inf&acirc;ncia para visitar e n&atilde;o se desesperar com a falta de not&iacute;cias. Deixarei de ser seu &iacute;dolo. Serei mais humano e fal&iacute;vel. Ela s&oacute; me elogiar&aacute; quando n&atilde;o estiver junto, para n&atilde;o me influenciar. Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para pra&ccedil;a, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade.  Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e est&aacute; debaixo da cama, com alguns anos que n&atilde;o percebi passar em seu rosto. O tempo n&atilde;o voa, a voz voa. Minha filha agora me p&otilde;e a envelhecer. 
MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOSPintura de Allen Jones Fabr&iacute;cio CarpinejarN&atilde;o &eacute; a minha idade que determina que envelhe&ccedil;o; &eacute; a idade de meus filhos. Costumo absolver minha eros&atilde;o, dar um desconto &agrave;s rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, n&atilde;o me amea&ccedil;ar com compara&ccedil;&otilde;es do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos? Treze anos? Calma, n&atilde;o consegui absorver. Quando ela tinha 12, n&atilde;o parecia t&atilde;o longe, ainda era poss&iacute;vel brincar de gangorra e engan&aacute;-la com desculpas. N&atilde;o mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que n&atilde;o gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, n&atilde;o mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos s&atilde;o os meus olhos dentro dos seus. Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repeti&ccedil;&atilde;o, estou me habituando. &Eacute; um choque. Antes brigava pela festa de anivers&aacute;rio, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. N&atilde;o a agrada mais o estardalha&ccedil;o de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela n&atilde;o quer comemorar, ela se conforma.  De uma forma e de outra, terminou sua inf&acirc;ncia. Da adolesc&ecirc;ncia vai para a vida adulta, sem volta. N&atilde;o vou mais peg&aacute;-la no colo. Terei que tomar cuidado em n&atilde;o tocar em seus seios na hora de abra&ccedil;ar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, n&atilde;o a olharei de cima. Ela me repreender&aacute; mais do que concordar&aacute; comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor est&aacute; cheio de cuidados e pudores. &Eacute; um amor mais rec&ocirc;ndito.Ela ser&aacute; grosseira ao telefone e nem ir&aacute; reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a liga&ccedil;&atilde;o de um guri, telefonarei na hora. Far&aacute; o poss&iacute;vel para que desapare&ccedil;a r&aacute;pido. Monossil&aacute;bica, pronunciar&aacute; bala ou palha diante de minhas sugest&otilde;es. Usar&aacute; fones nos ouvidos e vai recorrer &agrave; m&iacute;mica para expressar sua opini&atilde;o. Dir&aacute; que n&atilde;o a entendo mais vezes do que o necess&aacute;rio. E n&atilde;o a entenderei mesmo. Chegou o momento de minha ins&ocirc;nia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, at&eacute; que ela volte das festas. Pais s&atilde;o son&acirc;mbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. N&atilde;o receberei mais cart&otilde;es e desenhos com a promessa de amizade eterna. &Eacute; recomend&aacute;vel guardar um estoque de sua inf&acirc;ncia para visitar e n&atilde;o se desesperar com a falta de not&iacute;cias. Deixarei de ser seu &iacute;dolo. Serei mais humano e fal&iacute;vel. Ela s&oacute; me elogiar&aacute; quando n&atilde;o estiver junto, para n&atilde;o me influenciar. Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para pra&ccedil;a, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade.  Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e est&aacute; debaixo da cama, com alguns anos que n&atilde;o percebi passar em seu rosto. O tempo n&atilde;o voa, a voz voa. Minha filha agora me p&otilde;e a envelhecer. ]]&gt;
MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOSPintura de Allen Jones Fabr&iacute;cio CarpinejarN&atilde;o &eacute; a minha idade que determina que envelhe&ccedil;o; &eacute; a idade de meus filhos. Costumo absolver minha eros&atilde;o, dar um desconto &agrave;s rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, n&atilde;o me amea&ccedil;ar com compara&ccedil;&otilde;es do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos? Treze anos? Calma, n&atilde;o consegui absorver. Quando ela tinha 12, n&atilde;o parecia t&atilde;o longe, ainda era poss&iacute;vel brincar de gangorra e engan&aacute;-la com desculpas. N&atilde;o mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que n&atilde;o gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, n&atilde;o mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos s&atilde;o os meus olhos dentro dos seus. Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repeti&ccedil;&atilde;o, estou me habituando. &Eacute; um choque. Antes brigava pela festa de anivers&aacute;rio, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. N&atilde;o a agrada mais o estardalha&ccedil;o de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela n&atilde;o quer comemorar, ela se conforma.  De uma forma e de outra, terminou sua inf&acirc;ncia. Da adolesc&ecirc;ncia vai para a vida adulta, sem volta. N&atilde;o vou mais peg&aacute;-la no colo. Terei que tomar cuidado em n&atilde;o tocar em seus seios na hora de abra&ccedil;ar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, n&atilde;o a olharei de cima. Ela me repreender&aacute; mais do que concordar&aacute; comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor est&aacute; cheio de cuidados e pudores. &Eacute; um amor mais rec&ocirc;ndito.Ela ser&aacute; grosseira ao telefone e nem ir&aacute; reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a liga&ccedil;&atilde;o de um guri, telefonarei na hora. Far&aacute; o poss&iacute;vel para que desapare&ccedil;a r&aacute;pido. Monossil&aacute;bica, pronunciar&aacute; bala ou palha diante de minhas sugest&otilde;es. Usar&aacute; fones nos ouvidos e vai recorrer &agrave; m&iacute;mica para expressar sua opini&atilde;o. Dir&aacute; que n&atilde;o a entendo mais vezes do que o necess&aacute;rio. E n&atilde;o a entenderei mesmo. Chegou o momento de minha ins&ocirc;nia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, at&eacute; que ela volte das festas. Pais s&atilde;o son&acirc;mbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. N&atilde;o receberei mais cart&otilde;es e desenhos com a promessa de amizade eterna. &Eacute; recomend&aacute;vel guardar um estoque de sua inf&acirc;ncia para visitar e n&atilde;o se desesperar com a falta de not&iacute;cias. Deixarei de ser seu &iacute;dolo. Serei mais humano e fal&iacute;vel. Ela s&oacute; me elogiar&aacute; quando n&atilde;o estiver junto, para n&atilde;o me influenciar. Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para pra&ccedil;a, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade.  Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e est&aacute; debaixo da cama, com alguns anos que n&atilde;o percebi passar em seu rosto. O tempo n&atilde;o voa, a voz voa. Minha filha agora me p&otilde;e a envelhecer. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39286530
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12/26/2006 11:03:24 AM



BRA&Ccedil;ADA DE ABELHASFabr&iacute;cio CarpinejarFoto de Evelson de Freitas/AEPrecisava levar uma rosa para a professora.Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia n&atilde;o. Menos eu, que amava desperfumando.Uma rosa que fosse sapato de abelha, barco de p&aacute;ssaro, cadar&ccedil;o de espinho. Podia ser rosa apenas.Com o talo do tamanho de uma gravata,que n&atilde;o ultrapassasse o cinto.Uma rosa ainda aspergida, luzindo,joelho escapando da saia. Arriscado tom&aacute;-la dos jardins e quintais. Havia sempre um conhecido na janela. Um amigo de parente. Um cachorro latindo.Percorria o cemit&eacute;rio antes da escola,para ganhar dois quarteir&otilde;es de vento.As ruas tortas e as camassem a pressa dos hospitais.Os acenos entre as letras. O acentode pedra para o lado errado. As datas fotografando o tempo deitado. Em nome de minha professora, roubei v&aacute;rias rosas das l&aacute;pides.Lar&aacute;pio, mudava de t&uacute;mulo.O cora&ccedil;&atilde;o morrendo de vergonha.Arrumava a folhagem do vaso para despistar, como quem preenche a falta de um livro distribuindo os que ficaram. Todo ano que passa, estou devendo uma rosa nova a um morto. (Poema especial de Natal publicado no Estado de S. Paulo, Caderno 2, 25/12/06)
BRA&Ccedil;ADA DE ABELHASFabr&iacute;cio CarpinejarFoto de Evelson de Freitas/AEPrecisava levar uma rosa para a professora.Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia n&atilde;o. Menos eu, que amava desperfumando.Uma rosa que fosse sapato de abelha, barco de p&aacute;ssaro, cadar&ccedil;o de espinho. Podia ser rosa apenas.Com o talo do tamanho de uma gravata,que n&atilde;o ultrapassasse o cinto.Uma rosa ainda aspergida, luzindo,joelho escapando da saia. Arriscado tom&aacute;-la dos jardins e quintais. Havia sempre um conhecido na janela. Um amigo de parente. Um cachorro latindo.Percorria o cemit&eacute;rio antes da escola,para ganhar dois quarteir&otilde;es de vento.As ruas tortas e as camassem a pressa dos hospitais.Os acenos entre as letras. O acentode pedra para o lado errado. As datas fotografando o tempo deitado. Em nome de minha professora, roubei v&aacute;rias rosas das l&aacute;pides.Lar&aacute;pio, mudava de t&uacute;mulo.O cora&ccedil;&atilde;o morrendo de vergonha.Arrumava a folhagem do vaso para despistar, como quem preenche a falta de um livro distribuindo os que ficaram. Todo ano que passa, estou devendo uma rosa nova a um morto. (Poema especial de Natal publicado no Estado de S. Paulo, Caderno 2, 25/12/06)]]&gt;
BRA&Ccedil;ADA DE ABELHASFabr&iacute;cio CarpinejarFoto de Evelson de Freitas/AEPrecisava levar uma rosa para a professora.Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia n&atilde;o. Menos eu, que amava desperfumando.Uma rosa que fosse sapato de abelha, barco de p&aacute;ssaro, cadar&ccedil;o de espinho. Podia ser rosa apenas.Com o talo do tamanho de uma gravata,que n&atilde;o ultrapassasse o cinto.Uma rosa ainda aspergida, luzindo,joelho escapando da saia. Arriscado tom&aacute;-la dos jardins e quintais. Havia sempre um conhecido na janela. Um amigo de parente. Um cachorro latindo.Percorria o cemit&eacute;rio antes da escola,para ganhar dois quarteir&otilde;es de vento.As ruas tortas e as camassem a pressa dos hospitais.Os acenos entre as letras. O acentode pedra para o lado errado. As datas fotografando o tempo deitado. Em nome de minha professora, roubei v&aacute;rias rosas das l&aacute;pides.Lar&aacute;pio, mudava de t&uacute;mulo.O cora&ccedil;&atilde;o morrendo de vergonha.Arrumava a folhagem do vaso para despistar, como quem preenche a falta de um livro distribuindo os que ficaram. Todo ano que passa, estou devendo uma rosa nova a um morto. (Poema especial de Natal publicado no Estado de S. Paulo, Caderno 2, 25/12/06)]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39284495
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12/25/2006 09:31:26 AM



MAIS ROSTO Pinturas de Paul Klee&quot;Suas m&atilde;os iam e vinham v&aacute;rias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos.&quot;Fabr&iacute;cio CarpinejarEu tenho cabelo curto. Curto &eacute; uma forma educada de dizer que n&atilde;o tenho mais cabelo. Tenho a lembran&ccedil;a do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. S&oacute; de costas. Quando crian&ccedil;a, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, ser&aacute; que esqueceram de voltar?As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateaman&iacute;aco sem saber. Era o &uacute;nico loiro de casa, o que gerava ci&uacute;me entre os irm&atilde;os. Assim como algu&eacute;m de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos at&eacute; que resistiram um bom tempo, mas ca&iacute;ram de inveja na maturidade. Quando adolescente, n&atilde;o pensei em economizar o dom. Usei cabelo at&eacute; cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da &eacute;poca: cordas de um viol&atilde;o atr&aacute;s e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho. N&atilde;o precisava esfor&ccedil;o para definir meu destino capilar: bastava consultar os &aacute;lbuns de retratos da fam&iacute;lia. Do lado materno, o av&ocirc; Le&ocirc;nida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irm&atilde;os Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da It&aacute;lia.Por mais que eu tenha encontrado motivos para n&atilde;o entrar em depress&atilde;o, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televis&atilde;o, num dia normal depois do servi&ccedil;o, cocei a cabe&ccedil;a de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto. Sa&iacute; do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa s&eacute;ria, dif&iacute;cil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doen&ccedil;a letal.- Ana, estou sem cabelo... Voc&ecirc; est&aacute; casada com um careca. - E da&iacute;?, ela respondeu, com alegre indiferen&ccedil;a.Achei que n&atilde;o entendeu a gravidade da situa&ccedil;&atilde;o e repeti:- Voc&ecirc; est&aacute; casada com um careca, &eacute; propaganda enganosa, pode me devolver.- Que nada, disse. Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, n&atilde;o adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pesco&ccedil;o e beijou minha testa, justo na &aacute;rea extinta. - &Eacute; melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.
MAIS ROSTO Pinturas de Paul Klee&quot;Suas m&atilde;os iam e vinham v&aacute;rias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos.&quot;Fabr&iacute;cio CarpinejarEu tenho cabelo curto. Curto &eacute; uma forma educada de dizer que n&atilde;o tenho mais cabelo. Tenho a lembran&ccedil;a do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. S&oacute; de costas. Quando crian&ccedil;a, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, ser&aacute; que esqueceram de voltar?As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateaman&iacute;aco sem saber. Era o &uacute;nico loiro de casa, o que gerava ci&uacute;me entre os irm&atilde;os. Assim como algu&eacute;m de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos at&eacute; que resistiram um bom tempo, mas ca&iacute;ram de inveja na maturidade. Quando adolescente, n&atilde;o pensei em economizar o dom. Usei cabelo at&eacute; cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da &eacute;poca: cordas de um viol&atilde;o atr&aacute;s e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho. N&atilde;o precisava esfor&ccedil;o para definir meu destino capilar: bastava consultar os &aacute;lbuns de retratos da fam&iacute;lia. Do lado materno, o av&ocirc; Le&ocirc;nida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irm&atilde;os Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da It&aacute;lia.Por mais que eu tenha encontrado motivos para n&atilde;o entrar em depress&atilde;o, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televis&atilde;o, num dia normal depois do servi&ccedil;o, cocei a cabe&ccedil;a de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto. Sa&iacute; do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa s&eacute;ria, dif&iacute;cil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doen&ccedil;a letal.- Ana, estou sem cabelo... Voc&ecirc; est&aacute; casada com um careca. - E da&iacute;?, ela respondeu, com alegre indiferen&ccedil;a.Achei que n&atilde;o entendeu a gravidade da situa&ccedil;&atilde;o e repeti:- Voc&ecirc; est&aacute; casada com um careca, &eacute; propaganda enganosa, pode me devolver.- Que nada, disse. Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, n&atilde;o adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pesco&ccedil;o e beijou minha testa, justo na &aacute;rea extinta. - &Eacute; melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.]]&gt;
MAIS ROSTO Pinturas de Paul Klee&quot;Suas m&atilde;os iam e vinham v&aacute;rias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos.&quot;Fabr&iacute;cio CarpinejarEu tenho cabelo curto. Curto &eacute; uma forma educada de dizer que n&atilde;o tenho mais cabelo. Tenho a lembran&ccedil;a do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. S&oacute; de costas. Quando crian&ccedil;a, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, ser&aacute; que esqueceram de voltar?As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateaman&iacute;aco sem saber. Era o &uacute;nico loiro de casa, o que gerava ci&uacute;me entre os irm&atilde;os. Assim como algu&eacute;m de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos at&eacute; que resistiram um bom tempo, mas ca&iacute;ram de inveja na maturidade. Quando adolescente, n&atilde;o pensei em economizar o dom. Usei cabelo at&eacute; cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da &eacute;poca: cordas de um viol&atilde;o atr&aacute;s e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho. N&atilde;o precisava esfor&ccedil;o para definir meu destino capilar: bastava consultar os &aacute;lbuns de retratos da fam&iacute;lia. Do lado materno, o av&ocirc; Le&ocirc;nida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irm&atilde;os Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da It&aacute;lia.Por mais que eu tenha encontrado motivos para n&atilde;o entrar em depress&atilde;o, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televis&atilde;o, num dia normal depois do servi&ccedil;o, cocei a cabe&ccedil;a de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto. Sa&iacute; do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa s&eacute;ria, dif&iacute;cil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doen&ccedil;a letal.- Ana, estou sem cabelo... Voc&ecirc; est&aacute; casada com um careca. - E da&iacute;?, ela respondeu, com alegre indiferen&ccedil;a.Achei que n&atilde;o entendeu a gravidade da situa&ccedil;&atilde;o e repeti:- Voc&ecirc; est&aacute; casada com um careca, &eacute; propaganda enganosa, pode me devolver.- Que nada, disse. Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, n&atilde;o adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pesco&ccedil;o e beijou minha testa, justo na &aacute;rea extinta. - &Eacute; melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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12/21/2006 11:14:03 PM



IH...ELE N&Atilde;O EST&Aacute; PREPARADO PARA COMPROMISSOS S&Eacute;RIOSArte de Marc ChagallDo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Para n&atilde;o perder teu tempo, nem o meu: como algu&eacute;m apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que n&atilde;o consegue ter compromissos s&eacute;rios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a hist&oacute;ria? Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade est&aacute; muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos &uacute;ltimos tempos. Beijos, Caroline&quot;Oi, Caroline&Eacute; raro o homem terminar uma rela&ccedil;&atilde;o por intensidade do amor. Como quantificar: &eacute; forte, &eacute; m&eacute;dio, &eacute; fraco? N&atilde;o h&aacute; baf&ocirc;metro para o beijo a definir que a vida a dois est&aacute; embriagada. Das duas uma, est&aacute; ou n&atilde;o apaixonado. Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que n&atilde;o gosta como antes, que precisa se dedicar &agrave; carreira e que n&atilde;o consegue ter compromissos s&eacute;rios. Ou ele j&aacute; cometeu a infidelidade ou est&aacute; envolvido com uma menina. N&atilde;o se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com algu&eacute;m que conhece, do seu c&iacute;rculo de amizades. N&atilde;o iria esperar um ano para tomar essa decis&atilde;o, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. &Eacute; &oacute;bvio que n&atilde;o adianta questionar, que ele n&atilde;o ir&aacute; falar. &Eacute; um escorpi&atilde;o brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e n&atilde;o suporta cr&iacute;ticas e discuss&otilde;es de fundo. Para deix&aacute;-la ainda mais apaixonada, optou pela &quot;eleg&acirc;ncia masculina&quot; da revis&atilde;o e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes &eacute; assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher. Revela que deseja sair com c&oacute;pia da chave, caso queira voltar. Se a nova rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vingar, regressar&aacute; correndo dizendo que n&atilde;o vive sem sua presen&ccedil;a e que pensou melhor a rela&ccedil;&atilde;o. Para ele, n&atilde;o houve extremismo. N&atilde;o mandou apenas not&iacute;cias dos seus &uacute;ltimos dias. Sua confiss&atilde;o expressa uma encruzilhada. N&atilde;o duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, &eacute; ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consci&ecirc;ncia.Envie carta com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br
IH...ELE N&Atilde;O EST&Aacute; PREPARADO PARA COMPROMISSOS S&Eacute;RIOSArte de Marc ChagallDo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Para n&atilde;o perder teu tempo, nem o meu: como algu&eacute;m apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que n&atilde;o consegue ter compromissos s&eacute;rios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a hist&oacute;ria? Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade est&aacute; muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos &uacute;ltimos tempos. Beijos, Caroline&quot;Oi, Caroline&Eacute; raro o homem terminar uma rela&ccedil;&atilde;o por intensidade do amor. Como quantificar: &eacute; forte, &eacute; m&eacute;dio, &eacute; fraco? N&atilde;o h&aacute; baf&ocirc;metro para o beijo a definir que a vida a dois est&aacute; embriagada. Das duas uma, est&aacute; ou n&atilde;o apaixonado. Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que n&atilde;o gosta como antes, que precisa se dedicar &agrave; carreira e que n&atilde;o consegue ter compromissos s&eacute;rios. Ou ele j&aacute; cometeu a infidelidade ou est&aacute; envolvido com uma menina. N&atilde;o se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com algu&eacute;m que conhece, do seu c&iacute;rculo de amizades. N&atilde;o iria esperar um ano para tomar essa decis&atilde;o, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. &Eacute; &oacute;bvio que n&atilde;o adianta questionar, que ele n&atilde;o ir&aacute; falar. &Eacute; um escorpi&atilde;o brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e n&atilde;o suporta cr&iacute;ticas e discuss&otilde;es de fundo. Para deix&aacute;-la ainda mais apaixonada, optou pela &quot;eleg&acirc;ncia masculina&quot; da revis&atilde;o e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes &eacute; assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher. Revela que deseja sair com c&oacute;pia da chave, caso queira voltar. Se a nova rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vingar, regressar&aacute; correndo dizendo que n&atilde;o vive sem sua presen&ccedil;a e que pensou melhor a rela&ccedil;&atilde;o. Para ele, n&atilde;o houve extremismo. N&atilde;o mandou apenas not&iacute;cias dos seus &uacute;ltimos dias. Sua confiss&atilde;o expressa uma encruzilhada. N&atilde;o duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, &eacute; ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consci&ecirc;ncia.Envie carta com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br]]&gt;
IH...ELE N&Atilde;O EST&Aacute; PREPARADO PARA COMPROMISSOS S&Eacute;RIOSArte de Marc ChagallDo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Para n&atilde;o perder teu tempo, nem o meu: como algu&eacute;m apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que n&atilde;o consegue ter compromissos s&eacute;rios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a hist&oacute;ria? Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade est&aacute; muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos &uacute;ltimos tempos. Beijos, Caroline&quot;Oi, Caroline&Eacute; raro o homem terminar uma rela&ccedil;&atilde;o por intensidade do amor. Como quantificar: &eacute; forte, &eacute; m&eacute;dio, &eacute; fraco? N&atilde;o h&aacute; baf&ocirc;metro para o beijo a definir que a vida a dois est&aacute; embriagada. Das duas uma, est&aacute; ou n&atilde;o apaixonado. Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que n&atilde;o gosta como antes, que precisa se dedicar &agrave; carreira e que n&atilde;o consegue ter compromissos s&eacute;rios. Ou ele j&aacute; cometeu a infidelidade ou est&aacute; envolvido com uma menina. N&atilde;o se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com algu&eacute;m que conhece, do seu c&iacute;rculo de amizades. N&atilde;o iria esperar um ano para tomar essa decis&atilde;o, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. &Eacute; &oacute;bvio que n&atilde;o adianta questionar, que ele n&atilde;o ir&aacute; falar. &Eacute; um escorpi&atilde;o brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e n&atilde;o suporta cr&iacute;ticas e discuss&otilde;es de fundo. Para deix&aacute;-la ainda mais apaixonada, optou pela &quot;eleg&acirc;ncia masculina&quot; da revis&atilde;o e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes &eacute; assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher. Revela que deseja sair com c&oacute;pia da chave, caso queira voltar. Se a nova rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vingar, regressar&aacute; correndo dizendo que n&atilde;o vive sem sua presen&ccedil;a e que pensou melhor a rela&ccedil;&atilde;o. Para ele, n&atilde;o houve extremismo. N&atilde;o mandou apenas not&iacute;cias dos seus &uacute;ltimos dias. Sua confiss&atilde;o expressa uma encruzilhada. N&atilde;o duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, &eacute; ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consci&ecirc;ncia.Envie carta com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br]]&gt;
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12/19/2006 12:23:11 PM



SAIDEIRANesta ter&ccedil;a (19/12), participo da &uacute;ltima edi&ccedil;&atilde;o de 2006 do SARAU EL&Eacute;TRICO. O enredo &eacute; inf&acirc;ncia, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de port&atilde;o, porta aberta. Ao meu lado como convidado, Rodrigo Rosa, ilustrador do meu livro infantil Filhote de Cruz-credo (Girafinha). Lu&iacute;s Augusto Fischer, Cl&aacute;udio Moreno e K&aacute;tia Suman comandam a conversa. Canja musical de Vanessa Longoni.O encontro acontece &agrave;s 21h, no bar Ocidente (Rua Jo&atilde;o Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8  
SAIDEIRANesta ter&ccedil;a (19/12), participo da &uacute;ltima edi&ccedil;&atilde;o de 2006 do SARAU EL&Eacute;TRICO. O enredo &eacute; inf&acirc;ncia, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de port&atilde;o, porta aberta. Ao meu lado como convidado, Rodrigo Rosa, ilustrador do meu livro infantil Filhote de Cruz-credo (Girafinha). Lu&iacute;s Augusto Fischer, Cl&aacute;udio Moreno e K&aacute;tia Suman comandam a conversa. Canja musical de Vanessa Longoni.O encontro acontece &agrave;s 21h, no bar Ocidente (Rua Jo&atilde;o Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8  ]]&gt;
SAIDEIRANesta ter&ccedil;a (19/12), participo da &uacute;ltima edi&ccedil;&atilde;o de 2006 do SARAU EL&Eacute;TRICO. O enredo &eacute; inf&acirc;ncia, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de port&atilde;o, porta aberta. Ao meu lado como convidado, Rodrigo Rosa, ilustrador do meu livro infantil Filhote de Cruz-credo (Girafinha). Lu&iacute;s Augusto Fischer, Cl&aacute;udio Moreno e K&aacute;tia Suman comandam a conversa. Canja musical de Vanessa Longoni.O encontro acontece &agrave;s 21h, no bar Ocidente (Rua Jo&atilde;o Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8  ]]&gt;
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12/18/2006 06:48:02 PM



CAMPE&Atilde;O DO MUNDO Fabr&iacute;cio Carpinejar Nasci numa fam&iacute;lia de gremistas. Meu pai convenceu os irm&atilde;os Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Gr&ecirc;mio como chantagem. Nunca usei: tecido de tr&ecirc;s listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou l&aacute; amarelando com a chuva.  Cresci numa fam&iacute;lia de gremistas. Com irm&atilde;os soprando corneta, eu n&atilde;o torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como s&oacute; havia uma tev&ecirc; em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em &uacute;ltimo caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata. Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por n&atilde;o conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. N&atilde;o era quest&atilde;o de cor, era quest&atilde;o de temperamento. N&atilde;o segurava a garganta com a entrada da multid&atilde;o no est&aacute;dio, os bord&otilde;es alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada. Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. N&atilde;o havia ningu&eacute;m para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida advers&aacute;ria. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, v&aacute;rias vezes meu time ganhar. Absoluto sil&ecirc;ncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Gr&ecirc;mio.  Ser colorado era uma desesperan&ccedil;a. Uma resist&ecirc;ncia. As estrelas haviam sido preenchidas na gera&ccedil;&atilde;o anterior. Passei toda a d&eacute;cada de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Gr&ecirc;mio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, n&atilde;o parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do caf&eacute; de manh&atilde;. Sofri humilha&ccedil;&atilde;o, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafet&atilde;o de sua m&atilde;e. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campe&atilde;o do Mundo. Olhava com desd&eacute;m, o despreparo para esconder a inveja. Fui tricampe&atilde;o brasileiro durante a pr&eacute;-inf&acirc;ncia, ou seja, em coma - n&atilde;o contava. Perdi v&aacute;rios campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento. No &uacute;ltimo domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, n&atilde;o telefonei para meus irm&atilde;os. N&atilde;o xinguei os gremistas, n&atilde;o desaforei, n&atilde;o desabafei. Chorei mais solu&ccedil;os do que &aacute;gua. Estava redimido, n&atilde;o precisava provar nada. Ningu&eacute;m ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vit&oacute;ria por ele. Para ele. Uma vit&oacute;ria sem vingan&ccedil;a. Por merecimento.
CAMPE&Atilde;O DO MUNDO Fabr&iacute;cio Carpinejar Nasci numa fam&iacute;lia de gremistas. Meu pai convenceu os irm&atilde;os Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Gr&ecirc;mio como chantagem. Nunca usei: tecido de tr&ecirc;s listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou l&aacute; amarelando com a chuva.  Cresci numa fam&iacute;lia de gremistas. Com irm&atilde;os soprando corneta, eu n&atilde;o torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como s&oacute; havia uma tev&ecirc; em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em &uacute;ltimo caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata. Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por n&atilde;o conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. N&atilde;o era quest&atilde;o de cor, era quest&atilde;o de temperamento. N&atilde;o segurava a garganta com a entrada da multid&atilde;o no est&aacute;dio, os bord&otilde;es alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada. Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. N&atilde;o havia ningu&eacute;m para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida advers&aacute;ria. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, v&aacute;rias vezes meu time ganhar. Absoluto sil&ecirc;ncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Gr&ecirc;mio.  Ser colorado era uma desesperan&ccedil;a. Uma resist&ecirc;ncia. As estrelas haviam sido preenchidas na gera&ccedil;&atilde;o anterior. Passei toda a d&eacute;cada de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Gr&ecirc;mio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, n&atilde;o parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do caf&eacute; de manh&atilde;. Sofri humilha&ccedil;&atilde;o, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafet&atilde;o de sua m&atilde;e. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campe&atilde;o do Mundo. Olhava com desd&eacute;m, o despreparo para esconder a inveja. Fui tricampe&atilde;o brasileiro durante a pr&eacute;-inf&acirc;ncia, ou seja, em coma - n&atilde;o contava. Perdi v&aacute;rios campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento. No &uacute;ltimo domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, n&atilde;o telefonei para meus irm&atilde;os. N&atilde;o xinguei os gremistas, n&atilde;o desaforei, n&atilde;o desabafei. Chorei mais solu&ccedil;os do que &aacute;gua. Estava redimido, n&atilde;o precisava provar nada. Ningu&eacute;m ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vit&oacute;ria por ele. Para ele. Uma vit&oacute;ria sem vingan&ccedil;a. Por merecimento.]]&gt;
CAMPE&Atilde;O DO MUNDO Fabr&iacute;cio Carpinejar Nasci numa fam&iacute;lia de gremistas. Meu pai convenceu os irm&atilde;os Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Gr&ecirc;mio como chantagem. Nunca usei: tecido de tr&ecirc;s listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou l&aacute; amarelando com a chuva.  Cresci numa fam&iacute;lia de gremistas. Com irm&atilde;os soprando corneta, eu n&atilde;o torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como s&oacute; havia uma tev&ecirc; em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em &uacute;ltimo caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata. Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por n&atilde;o conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. N&atilde;o era quest&atilde;o de cor, era quest&atilde;o de temperamento. N&atilde;o segurava a garganta com a entrada da multid&atilde;o no est&aacute;dio, os bord&otilde;es alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada. Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. N&atilde;o havia ningu&eacute;m para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida advers&aacute;ria. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, v&aacute;rias vezes meu time ganhar. Absoluto sil&ecirc;ncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Gr&ecirc;mio.  Ser colorado era uma desesperan&ccedil;a. Uma resist&ecirc;ncia. As estrelas haviam sido preenchidas na gera&ccedil;&atilde;o anterior. Passei toda a d&eacute;cada de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Gr&ecirc;mio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, n&atilde;o parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do caf&eacute; de manh&atilde;. Sofri humilha&ccedil;&atilde;o, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafet&atilde;o de sua m&atilde;e. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campe&atilde;o do Mundo. Olhava com desd&eacute;m, o despreparo para esconder a inveja. Fui tricampe&atilde;o brasileiro durante a pr&eacute;-inf&acirc;ncia, ou seja, em coma - n&atilde;o contava. Perdi v&aacute;rios campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento. No &uacute;ltimo domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, n&atilde;o telefonei para meus irm&atilde;os. N&atilde;o xinguei os gremistas, n&atilde;o desaforei, n&atilde;o desabafei. Chorei mais solu&ccedil;os do que &aacute;gua. Estava redimido, n&atilde;o precisava provar nada. Ningu&eacute;m ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vit&oacute;ria por ele. Para ele. Uma vit&oacute;ria sem vingan&ccedil;a. Por merecimento.]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39268922
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html
12/18/2006 04:23:08 PM



UM PATINHO MUITO FEIOCarpinejar lan&ccedil;a &quot;Filhote de Cruz-Credo&quot; PATR&Iacute;CIA ROCHARodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabr&iacute;cio Carpinejar  Foto: Rodrigo Rosa, reprodu&ccedil;&atilde;o/ZH  Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos n&atilde;o se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de matura&ccedil;&atilde;o, em que mal sa&iacute;a da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabr&iacute;cio Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia tro&ccedil;a da sua apar&ecirc;ncia: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, n&atilde;o tem o que fazer. Fabr&iacute;cio aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da inf&acirc;ncia em uma hist&oacute;ria bem-humorada para todo mundo que d&aacute; e recebe apelidos: o livro Filhote de Cruz-Credo, que ele lan&ccedil;a amanh&atilde;, em Porto Alegre. - Apelido tem que ser como doen&ccedil;a de inf&acirc;ncia. D&aacute; uma vez e depois passa - ensina. A doen&ccedil;a de Fabr&iacute;cio come&ccedil;ou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que n&atilde;o parecia t&atilde;o bonitinho quanto o pai e a m&atilde;e diziam. Na escola, veio a certeza: at&eacute; a guria de quem gostava aderia aos apelidos. - N&atilde;o posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido &eacute; uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido n&atilde;o deve ficar quieto esperando o advogado. Ele &eacute; o pr&oacute;prio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos tamb&eacute;m, acolhi melhor os meus. Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abrevia&ccedil;&atilde;o de Fabito, que era como Fabr&iacute;cio se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de inf&acirc;ncia que diz: - Panqueca! Fabr&iacute;cio gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua hist&oacute;ria, que terminou em poesia, cr&ocirc;nicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustra&ccedil;&otilde;es de Rodrigo Rosa. - Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza n&atilde;o est&aacute; em mim, busquei-a no outro.Trecho&quot;Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei. Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo. - Quer mesmo saber? - Sim, quero. - U&eacute;, n&atilde;o reparou que sua cara &eacute; toda amassada?&quot;O QUE: lan&ccedil;amento e sess&atilde;o de aut&oacute;grafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabr&iacute;cio Carpinejar, com ilustra&ccedil;&otilde;es de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 p&aacute;ginas QUANDO: neste s&aacute;bado (16/12), &agrave;s 17hONDE: na Livraria do Arvoredo (F&eacute;lix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)QUANTO: pre&ccedil;o sugerido de R$ 27  (ZERO HORA, SEGUNDO CADERNO, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edi&ccedil;&atilde;o n&ordm; 15089)   
UM PATINHO MUITO FEIOCarpinejar lan&ccedil;a &quot;Filhote de Cruz-Credo&quot; PATR&Iacute;CIA ROCHARodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabr&iacute;cio Carpinejar  Foto: Rodrigo Rosa, reprodu&ccedil;&atilde;o/ZH  Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos n&atilde;o se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de matura&ccedil;&atilde;o, em que mal sa&iacute;a da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabr&iacute;cio Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia tro&ccedil;a da sua apar&ecirc;ncia: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, n&atilde;o tem o que fazer. Fabr&iacute;cio aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da inf&acirc;ncia em uma hist&oacute;ria bem-humorada para todo mundo que d&aacute; e recebe apelidos: o livro Filhote de Cruz-Credo, que ele lan&ccedil;a amanh&atilde;, em Porto Alegre. - Apelido tem que ser como doen&ccedil;a de inf&acirc;ncia. D&aacute; uma vez e depois passa - ensina. A doen&ccedil;a de Fabr&iacute;cio come&ccedil;ou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que n&atilde;o parecia t&atilde;o bonitinho quanto o pai e a m&atilde;e diziam. Na escola, veio a certeza: at&eacute; a guria de quem gostava aderia aos apelidos. - N&atilde;o posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido &eacute; uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido n&atilde;o deve ficar quieto esperando o advogado. Ele &eacute; o pr&oacute;prio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos tamb&eacute;m, acolhi melhor os meus. Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abrevia&ccedil;&atilde;o de Fabito, que era como Fabr&iacute;cio se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de inf&acirc;ncia que diz: - Panqueca! Fabr&iacute;cio gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua hist&oacute;ria, que terminou em poesia, cr&ocirc;nicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustra&ccedil;&otilde;es de Rodrigo Rosa. - Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza n&atilde;o est&aacute; em mim, busquei-a no outro.Trecho&quot;Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei. Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo. - Quer mesmo saber? - Sim, quero. - U&eacute;, n&atilde;o reparou que sua cara &eacute; toda amassada?&quot;O QUE: lan&ccedil;amento e sess&atilde;o de aut&oacute;grafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabr&iacute;cio Carpinejar, com ilustra&ccedil;&otilde;es de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 p&aacute;ginas QUANDO: neste s&aacute;bado (16/12), &agrave;s 17hONDE: na Livraria do Arvoredo (F&eacute;lix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)QUANTO: pre&ccedil;o sugerido de R$ 27  (ZERO HORA, SEGUNDO CADERNO, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edi&ccedil;&atilde;o n&ordm; 15089)   ]]&gt;
UM PATINHO MUITO FEIOCarpinejar lan&ccedil;a &quot;Filhote de Cruz-Credo&quot; PATR&Iacute;CIA ROCHARodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabr&iacute;cio Carpinejar  Foto: Rodrigo Rosa, reprodu&ccedil;&atilde;o/ZH  Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos n&atilde;o se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de matura&ccedil;&atilde;o, em que mal sa&iacute;a da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabr&iacute;cio Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia tro&ccedil;a da sua apar&ecirc;ncia: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, n&atilde;o tem o que fazer. Fabr&iacute;cio aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da inf&acirc;ncia em uma hist&oacute;ria bem-humorada para todo mundo que d&aacute; e recebe apelidos: o livro Filhote de Cruz-Credo, que ele lan&ccedil;a amanh&atilde;, em Porto Alegre. - Apelido tem que ser como doen&ccedil;a de inf&acirc;ncia. D&aacute; uma vez e depois passa - ensina. A doen&ccedil;a de Fabr&iacute;cio come&ccedil;ou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que n&atilde;o parecia t&atilde;o bonitinho quanto o pai e a m&atilde;e diziam. Na escola, veio a certeza: at&eacute; a guria de quem gostava aderia aos apelidos. - N&atilde;o posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido &eacute; uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido n&atilde;o deve ficar quieto esperando o advogado. Ele &eacute; o pr&oacute;prio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos tamb&eacute;m, acolhi melhor os meus. Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abrevia&ccedil;&atilde;o de Fabito, que era como Fabr&iacute;cio se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de inf&acirc;ncia que diz: - Panqueca! Fabr&iacute;cio gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua hist&oacute;ria, que terminou em poesia, cr&ocirc;nicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustra&ccedil;&otilde;es de Rodrigo Rosa. - Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza n&atilde;o est&aacute; em mim, busquei-a no outro.Trecho&quot;Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei. Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo. - Quer mesmo saber? - Sim, quero. - U&eacute;, n&atilde;o reparou que sua cara &eacute; toda amassada?&quot;O QUE: lan&ccedil;amento e sess&atilde;o de aut&oacute;grafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabr&iacute;cio Carpinejar, com ilustra&ccedil;&otilde;es de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 p&aacute;ginas QUANDO: neste s&aacute;bado (16/12), &agrave;s 17hONDE: na Livraria do Arvoredo (F&eacute;lix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)QUANTO: pre&ccedil;o sugerido de R$ 27  (ZERO HORA, SEGUNDO CADERNO, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edi&ccedil;&atilde;o n&ordm; 15089)   ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39260822
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12/15/2006 08:28:53 AM



FALTA DE TEMPOPintura de Marc ChagallFabr&iacute;cio CarpinejarNunca temos tempo. Para ser e at&eacute; para n&atilde;o ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha rea&ccedil;&atilde;o. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um m&ecirc;s inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seq&uuml;estro. Deixei a &acirc;nsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento. Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distra&ccedil;&otilde;es. O tempo de f&eacute;rias n&atilde;o conta, &eacute; um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho free lancer do que a uma espont&acirc;nea inquieta&ccedil;&atilde;o. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com anteced&ecirc;ncia, procurar algu&eacute;m para controlar a casa, manter a &aacute;gua das plantas, isso que n&atilde;o possuo cachorro...N&atilde;o temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo &eacute; espa&ccedil;o, estar perto para conseguir voltar. N&atilde;o tenho tempo para responder mensagens, n&atilde;o tenho tempo para ir &agrave; pra&ccedil;a. Divers&atilde;o termina r&aacute;pido. Minha boca &eacute; um rel&oacute;gio de corda. Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem n&atilde;o aprendeu a dizer n&atilde;o. Eu desmarco, n&atilde;o nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perd&otilde;es absurdos. Qualquer contempor&acirc;neo tem vidas paralelas. E mortes paralelas tamb&eacute;m. Existe um &uacute;nico ant&iacute;doto para a falta de tempo. Um &uacute;nico. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no pr&oacute;prio tempo. Tudo &eacute; adiado. A dispers&atilde;o nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As c&oacute;rneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas &eacute; uma necessidade. Os vincos s&atilde;o desafiados com inusitada paci&ecirc;ncia. Depilamos a agenda. Compromissos s&eacute;rios pulam de casas e hor&aacute;rios. Antes imut&aacute;veis, as reuni&otilde;es trocam de v&ocirc;o de modo nervoso. O trabalho passa violentamente r&aacute;pido. N&atilde;o h&aacute; o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as rela&ccedil;&otilde;es passadas, a seguran&ccedil;a de prever. Cada um assume uma condi&ccedil;&atilde;o noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imagina&ccedil;&atilde;o p&aacute;ra a escrita em um s&oacute; nome.  Aconselho a quem n&atilde;o tem tempo: apaixone-se. Perca a cabe&ccedil;a na guilhotina. Entregue seus p&eacute;s para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. N&atilde;o pense que vai dar errado. O que pode dar errado j&aacute; aconteceu antes. Dentro do tempo. 
FALTA DE TEMPOPintura de Marc ChagallFabr&iacute;cio CarpinejarNunca temos tempo. Para ser e at&eacute; para n&atilde;o ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha rea&ccedil;&atilde;o. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um m&ecirc;s inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seq&uuml;estro. Deixei a &acirc;nsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento. Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distra&ccedil;&otilde;es. O tempo de f&eacute;rias n&atilde;o conta, &eacute; um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho free lancer do que a uma espont&acirc;nea inquieta&ccedil;&atilde;o. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com anteced&ecirc;ncia, procurar algu&eacute;m para controlar a casa, manter a &aacute;gua das plantas, isso que n&atilde;o possuo cachorro...N&atilde;o temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo &eacute; espa&ccedil;o, estar perto para conseguir voltar. N&atilde;o tenho tempo para responder mensagens, n&atilde;o tenho tempo para ir &agrave; pra&ccedil;a. Divers&atilde;o termina r&aacute;pido. Minha boca &eacute; um rel&oacute;gio de corda. Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem n&atilde;o aprendeu a dizer n&atilde;o. Eu desmarco, n&atilde;o nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perd&otilde;es absurdos. Qualquer contempor&acirc;neo tem vidas paralelas. E mortes paralelas tamb&eacute;m. Existe um &uacute;nico ant&iacute;doto para a falta de tempo. Um &uacute;nico. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no pr&oacute;prio tempo. Tudo &eacute; adiado. A dispers&atilde;o nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As c&oacute;rneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas &eacute; uma necessidade. Os vincos s&atilde;o desafiados com inusitada paci&ecirc;ncia. Depilamos a agenda. Compromissos s&eacute;rios pulam de casas e hor&aacute;rios. Antes imut&aacute;veis, as reuni&otilde;es trocam de v&ocirc;o de modo nervoso. O trabalho passa violentamente r&aacute;pido. N&atilde;o h&aacute; o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as rela&ccedil;&otilde;es passadas, a seguran&ccedil;a de prever. Cada um assume uma condi&ccedil;&atilde;o noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imagina&ccedil;&atilde;o p&aacute;ra a escrita em um s&oacute; nome.  Aconselho a quem n&atilde;o tem tempo: apaixone-se. Perca a cabe&ccedil;a na guilhotina. Entregue seus p&eacute;s para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. N&atilde;o pense que vai dar errado. O que pode dar errado j&aacute; aconteceu antes. Dentro do tempo. ]]&gt;
FALTA DE TEMPOPintura de Marc ChagallFabr&iacute;cio CarpinejarNunca temos tempo. Para ser e at&eacute; para n&atilde;o ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha rea&ccedil;&atilde;o. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um m&ecirc;s inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seq&uuml;estro. Deixei a &acirc;nsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento. Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distra&ccedil;&otilde;es. O tempo de f&eacute;rias n&atilde;o conta, &eacute; um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho free lancer do que a uma espont&acirc;nea inquieta&ccedil;&atilde;o. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com anteced&ecirc;ncia, procurar algu&eacute;m para controlar a casa, manter a &aacute;gua das plantas, isso que n&atilde;o possuo cachorro...N&atilde;o temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo &eacute; espa&ccedil;o, estar perto para conseguir voltar. N&atilde;o tenho tempo para responder mensagens, n&atilde;o tenho tempo para ir &agrave; pra&ccedil;a. Divers&atilde;o termina r&aacute;pido. Minha boca &eacute; um rel&oacute;gio de corda. Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem n&atilde;o aprendeu a dizer n&atilde;o. Eu desmarco, n&atilde;o nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perd&otilde;es absurdos. Qualquer contempor&acirc;neo tem vidas paralelas. E mortes paralelas tamb&eacute;m. Existe um &uacute;nico ant&iacute;doto para a falta de tempo. Um &uacute;nico. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no pr&oacute;prio tempo. Tudo &eacute; adiado. A dispers&atilde;o nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As c&oacute;rneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas &eacute; uma necessidade. Os vincos s&atilde;o desafiados com inusitada paci&ecirc;ncia. Depilamos a agenda. Compromissos s&eacute;rios pulam de casas e hor&aacute;rios. Antes imut&aacute;veis, as reuni&otilde;es trocam de v&ocirc;o de modo nervoso. O trabalho passa violentamente r&aacute;pido. N&atilde;o h&aacute; o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as rela&ccedil;&otilde;es passadas, a seguran&ccedil;a de prever. Cada um assume uma condi&ccedil;&atilde;o noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imagina&ccedil;&atilde;o p&aacute;ra a escrita em um s&oacute; nome.  Aconselho a quem n&atilde;o tem tempo: apaixone-se. Perca a cabe&ccedil;a na guilhotina. Entregue seus p&eacute;s para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. N&atilde;o pense que vai dar errado. O que pode dar errado j&aacute; aconteceu antes. Dentro do tempo. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39257945
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html
12/14/2006 08:24:57 AM



PROBLEMAS NO BLOGO provedor Globo.Com est&aacute; com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os coment&aacute;rios. Pe&ccedil;o desculpas pelo transtorno. J&aacute; pedi conserto. A equipe do blogger n&atilde;o parece ser muito r&aacute;pida. Ou o problema &eacute; mais grave do que eu imaginava. 
PROBLEMAS NO BLOGO provedor Globo.Com est&aacute; com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os coment&aacute;rios. Pe&ccedil;o desculpas pelo transtorno. J&aacute; pedi conserto. A equipe do blogger n&atilde;o parece ser muito r&aacute;pida. Ou o problema &eacute; mais grave do que eu imaginava. ]]&gt;
PROBLEMAS NO BLOGO provedor Globo.Com est&aacute; com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os coment&aacute;rios. Pe&ccedil;o desculpas pelo transtorno. J&aacute; pedi conserto. A equipe do blogger n&atilde;o parece ser muito r&aacute;pida. Ou o problema &eacute; mais grave do que eu imaginava. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39256501
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html
12/13/2006 12:16:41 PM



PAPAI-MAM&Atilde;E J&Aacute; TIVERAM FILHOSArte de Allen Jones Fabr&iacute;cio CarpinejarJ&aacute; me recomendaram muito n&atilde;o conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mist&eacute;rio. &Eacute; uma regra do Dom Juan. N&atilde;o caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique pregui&ccedil;a sob o disfarce de confian&ccedil;a. Na hora em que alguma mulher pede: &quot;nem precisamos falar&quot;. Ou quando afirma que &quot;o sil&ecirc;ncio diz tudo&quot;, abro um par&ecirc;ntese. (Por favor, o sil&ecirc;ncio n&atilde;o diz absolutamente nada. &Eacute; unicamente sil&ecirc;ncio. N&atilde;o &eacute; tradutor de quem n&atilde;o fala). &Eacute; uma esp&eacute;cie de covardia aben&ccedil;oada, uma forma de cada um viver para seu lado e n&atilde;o afian&ccedil;ar a solid&atilde;o. N&atilde;o acho que a voz estrague o clima, que o di&aacute;logo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta &eacute; assassinar a rela&ccedil;&atilde;o. Qual &eacute; o problema de se expor, identificar suas taras, ir al&eacute;m da respira&ccedil;&atilde;o e recome&ccedil;ar? Deixar rolar serve para bola de futebol. N&atilde;o para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.  Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audi&ecirc;ncia p&uacute;blica de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compare&ccedil;a na pr&oacute;xima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restri&ccedil;&otilde;es combinam com rem&eacute;dio, n&atilde;o com a sa&uacute;de. Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprova&ccedil;&atilde;o equivocada. Parece que a transa foi t&atilde;o ruim que n&atilde;o permite coment&aacute;rios. Ou que alcan&ccedil;ou sua condi&ccedil;&atilde;o sublime, que perdeu a l&iacute;ngua.  Um tabu crer que o sexo foi feito para a concord&acirc;ncia, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo n&atilde;o &eacute; uma conclus&atilde;o fechada. N&atilde;o &eacute; um julgamento individual. &Eacute; uma senten&ccedil;a a dois, um j&uacute;ri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.  Sexo n&atilde;o combina com o sil&ecirc;ncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavr&atilde;o. &Eacute; mais teatro do que livro. N&atilde;o para ser lido quietinho. Pede a express&atilde;o c&ecirc;nica. No sexo, somos atores do pr&oacute;prio desejo. Uns canastr&otilde;es, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca. Vou viver pela boca.
PAPAI-MAM&Atilde;E J&Aacute; TIVERAM FILHOSArte de Allen Jones Fabr&iacute;cio CarpinejarJ&aacute; me recomendaram muito n&atilde;o conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mist&eacute;rio. &Eacute; uma regra do Dom Juan. N&atilde;o caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique pregui&ccedil;a sob o disfarce de confian&ccedil;a. Na hora em que alguma mulher pede: &quot;nem precisamos falar&quot;. Ou quando afirma que &quot;o sil&ecirc;ncio diz tudo&quot;, abro um par&ecirc;ntese. (Por favor, o sil&ecirc;ncio n&atilde;o diz absolutamente nada. &Eacute; unicamente sil&ecirc;ncio. N&atilde;o &eacute; tradutor de quem n&atilde;o fala). &Eacute; uma esp&eacute;cie de covardia aben&ccedil;oada, uma forma de cada um viver para seu lado e n&atilde;o afian&ccedil;ar a solid&atilde;o. N&atilde;o acho que a voz estrague o clima, que o di&aacute;logo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta &eacute; assassinar a rela&ccedil;&atilde;o. Qual &eacute; o problema de se expor, identificar suas taras, ir al&eacute;m da respira&ccedil;&atilde;o e recome&ccedil;ar? Deixar rolar serve para bola de futebol. N&atilde;o para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.  Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audi&ecirc;ncia p&uacute;blica de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compare&ccedil;a na pr&oacute;xima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restri&ccedil;&otilde;es combinam com rem&eacute;dio, n&atilde;o com a sa&uacute;de. Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprova&ccedil;&atilde;o equivocada. Parece que a transa foi t&atilde;o ruim que n&atilde;o permite coment&aacute;rios. Ou que alcan&ccedil;ou sua condi&ccedil;&atilde;o sublime, que perdeu a l&iacute;ngua.  Um tabu crer que o sexo foi feito para a concord&acirc;ncia, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo n&atilde;o &eacute; uma conclus&atilde;o fechada. N&atilde;o &eacute; um julgamento individual. &Eacute; uma senten&ccedil;a a dois, um j&uacute;ri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.  Sexo n&atilde;o combina com o sil&ecirc;ncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavr&atilde;o. &Eacute; mais teatro do que livro. N&atilde;o para ser lido quietinho. Pede a express&atilde;o c&ecirc;nica. No sexo, somos atores do pr&oacute;prio desejo. Uns canastr&otilde;es, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca. Vou viver pela boca.]]&gt;
PAPAI-MAM&Atilde;E J&Aacute; TIVERAM FILHOSArte de Allen Jones Fabr&iacute;cio CarpinejarJ&aacute; me recomendaram muito n&atilde;o conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mist&eacute;rio. &Eacute; uma regra do Dom Juan. N&atilde;o caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique pregui&ccedil;a sob o disfarce de confian&ccedil;a. Na hora em que alguma mulher pede: &quot;nem precisamos falar&quot;. Ou quando afirma que &quot;o sil&ecirc;ncio diz tudo&quot;, abro um par&ecirc;ntese. (Por favor, o sil&ecirc;ncio n&atilde;o diz absolutamente nada. &Eacute; unicamente sil&ecirc;ncio. N&atilde;o &eacute; tradutor de quem n&atilde;o fala). &Eacute; uma esp&eacute;cie de covardia aben&ccedil;oada, uma forma de cada um viver para seu lado e n&atilde;o afian&ccedil;ar a solid&atilde;o. N&atilde;o acho que a voz estrague o clima, que o di&aacute;logo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta &eacute; assassinar a rela&ccedil;&atilde;o. Qual &eacute; o problema de se expor, identificar suas taras, ir al&eacute;m da respira&ccedil;&atilde;o e recome&ccedil;ar? Deixar rolar serve para bola de futebol. N&atilde;o para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.  Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audi&ecirc;ncia p&uacute;blica de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compare&ccedil;a na pr&oacute;xima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restri&ccedil;&otilde;es combinam com rem&eacute;dio, n&atilde;o com a sa&uacute;de. Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprova&ccedil;&atilde;o equivocada. Parece que a transa foi t&atilde;o ruim que n&atilde;o permite coment&aacute;rios. Ou que alcan&ccedil;ou sua condi&ccedil;&atilde;o sublime, que perdeu a l&iacute;ngua.  Um tabu crer que o sexo foi feito para a concord&acirc;ncia, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo n&atilde;o &eacute; uma conclus&atilde;o fechada. N&atilde;o &eacute; um julgamento individual. &Eacute; uma senten&ccedil;a a dois, um j&uacute;ri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.  Sexo n&atilde;o combina com o sil&ecirc;ncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavr&atilde;o. &Eacute; mais teatro do que livro. N&atilde;o para ser lido quietinho. Pede a express&atilde;o c&ecirc;nica. No sexo, somos atores do pr&oacute;prio desejo. Uns canastr&otilde;es, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca. Vou viver pela boca.]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39251269
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html
12/11/2006 12:36:15 AM



MEU PIJAMA MONOCROM&Aacute;TICOPintura de Sigmar PolkeFabr&iacute;cio CarpinejarCom os filhos, queremos ressuscitar nossa inf&acirc;ncia. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e n&atilde;o encontrei um conjunto que servisse. N&atilde;o era problema de n&uacute;mero, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.N&atilde;o achei um pijama como antigamente. Pijama inconfund&iacute;vel, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o t&iacute;tulo falso de pijama.Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que n&atilde;o se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu arm&aacute;rio. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?  Cad&ecirc; o conjunto monocrom&aacute;tico que ningu&eacute;m duvidava antes de sua natureza son&acirc;mbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o caf&eacute; da manh&atilde;. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como &uacute;nico parente poss&iacute;vel &agrave; malfadada ceroula, cal&ccedil;a colada que a m&atilde;e me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.Pijama que combinava com os cabelos em p&eacute; e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.O pijama representava um segundo len&ccedil;ol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.Agora os pijamas s&atilde;o trajes para sair, vestu&aacute;rio freq&uuml;ente na pra&ccedil;a, na piscina, na lanchonete, sem causar um ru&iacute;do de estranhamento.Na minha &eacute;poca, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e r&aacute;pidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.Hoje pijamas s&atilde;o pe&ccedil;as comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e est&atilde;o prontos para sair. N&atilde;o precisam se arrumar. J&aacute; dormem vestidos de escola. N&atilde;o t&ecirc;m folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e s&atilde;o intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. At&eacute; os p&aacute;ssaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.  Sou favor&aacute;vel ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nost&aacute;lgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual &eacute; bem mais atraente. Sei que &eacute;. Questiono o sacrif&iacute;cio do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hiberna&ccedil;&atilde;o da casa no corpo. Coluna de novembro/2006 do Clube da Calcinha
MEU PIJAMA MONOCROM&Aacute;TICOPintura de Sigmar PolkeFabr&iacute;cio CarpinejarCom os filhos, queremos ressuscitar nossa inf&acirc;ncia. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e n&atilde;o encontrei um conjunto que servisse. N&atilde;o era problema de n&uacute;mero, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.N&atilde;o achei um pijama como antigamente. Pijama inconfund&iacute;vel, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o t&iacute;tulo falso de pijama.Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que n&atilde;o se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu arm&aacute;rio. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?  Cad&ecirc; o conjunto monocrom&aacute;tico que ningu&eacute;m duvidava antes de sua natureza son&acirc;mbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o caf&eacute; da manh&atilde;. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como &uacute;nico parente poss&iacute;vel &agrave; malfadada ceroula, cal&ccedil;a colada que a m&atilde;e me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.Pijama que combinava com os cabelos em p&eacute; e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.O pijama representava um segundo len&ccedil;ol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.Agora os pijamas s&atilde;o trajes para sair, vestu&aacute;rio freq&uuml;ente na pra&ccedil;a, na piscina, na lanchonete, sem causar um ru&iacute;do de estranhamento.Na minha &eacute;poca, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e r&aacute;pidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.Hoje pijamas s&atilde;o pe&ccedil;as comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e est&atilde;o prontos para sair. N&atilde;o precisam se arrumar. J&aacute; dormem vestidos de escola. N&atilde;o t&ecirc;m folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e s&atilde;o intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. At&eacute; os p&aacute;ssaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.  Sou favor&aacute;vel ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nost&aacute;lgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual &eacute; bem mais atraente. Sei que &eacute;. Questiono o sacrif&iacute;cio do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hiberna&ccedil;&atilde;o da casa no corpo. Coluna de novembro/2006 do Clube da Calcinha]]&gt;
MEU PIJAMA MONOCROM&Aacute;TICOPintura de Sigmar PolkeFabr&iacute;cio CarpinejarCom os filhos, queremos ressuscitar nossa inf&acirc;ncia. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e n&atilde;o encontrei um conjunto que servisse. N&atilde;o era problema de n&uacute;mero, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.N&atilde;o achei um pijama como antigamente. Pijama inconfund&iacute;vel, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o t&iacute;tulo falso de pijama.Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que n&atilde;o se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu arm&aacute;rio. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?  Cad&ecirc; o conjunto monocrom&aacute;tico que ningu&eacute;m duvidava antes de sua natureza son&acirc;mbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o caf&eacute; da manh&atilde;. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como &uacute;nico parente poss&iacute;vel &agrave; malfadada ceroula, cal&ccedil;a colada que a m&atilde;e me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.Pijama que combinava com os cabelos em p&eacute; e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.O pijama representava um segundo len&ccedil;ol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.Agora os pijamas s&atilde;o trajes para sair, vestu&aacute;rio freq&uuml;ente na pra&ccedil;a, na piscina, na lanchonete, sem causar um ru&iacute;do de estranhamento.Na minha &eacute;poca, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e r&aacute;pidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.Hoje pijamas s&atilde;o pe&ccedil;as comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e est&atilde;o prontos para sair. N&atilde;o precisam se arrumar. J&aacute; dormem vestidos de escola. N&atilde;o t&ecirc;m folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e s&atilde;o intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. At&eacute; os p&aacute;ssaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.  Sou favor&aacute;vel ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nost&aacute;lgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual &eacute; bem mais atraente. Sei que &eacute;. Questiono o sacrif&iacute;cio do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hiberna&ccedil;&atilde;o da casa no corpo. Coluna de novembro/2006 do Clube da Calcinha]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39234181
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html
12/4/2006 07:38:10 AM



CANALHA ROM&Acirc;NTICO EM SOROCABAO Sesc de Sorocaba (SP) &eacute; palco do show &quot;Canalha Rom&acirc;ntico&quot; nesta ter&ccedil;a-feira, 5/12, a partir das 20h. Narrando as agruras e del&iacute;cias de um casamento, o espet&aacute;culo consolida minha parceria com o m&uacute;sico paulista Fernando Chu&iacute;. Apresentaremos letras in&eacute;ditas como &quot;Telhados&quot; e &quot;O Homem Precisa&quot;.  O p&uacute;blico poder&aacute; conferir onze m&uacute;sicas de Chu&iacute;, parte do rec&eacute;m-lan&ccedil;ado CD &quot;Nunca vi Mandacaru&quot;. Farei a leitura de dez cr&ocirc;nicas, cinco delas do meu mais recente livro &quot;O amor esquece de come&ccedil;ar&quot; (Bertrand Brasil) e cinco de &quot;O homem quando chora&quot;, com publica&ccedil;&atilde;o prevista para 2007.SERVI&Ccedil;O:O qu&ecirc;: Canalha Rom&acirc;ntico- espet&aacute;culo com a participa&ccedil;&atilde;o do m&uacute;sico Fernado Chu&iacute; e do escritor Fabr&iacute;cio CarpinejarQuando: dia 5/12 (ter&ccedil;a-feira), 20hOnde: Sesc Sorocaba  (Av. Washington Luis, 446, Jardim Em&iacute;lia, tel: (15) 33329933).Entrada franca
CANALHA ROM&Acirc;NTICO EM SOROCABAO Sesc de Sorocaba (SP) &eacute; palco do show &quot;Canalha Rom&acirc;ntico&quot; nesta ter&ccedil;a-feira, 5/12, a partir das 20h. Narrando as agruras e del&iacute;cias de um casamento, o espet&aacute;culo consolida minha parceria com o m&uacute;sico paulista Fernando Chu&iacute;. Apresentaremos letras in&eacute;ditas como &quot;Telhados&quot; e &quot;O Homem Precisa&quot;.  O p&uacute;blico poder&aacute; conferir onze m&uacute;sicas de Chu&iacute;, parte do rec&eacute;m-lan&ccedil;ado CD &quot;Nunca vi Mandacaru&quot;. Farei a leitura de dez cr&ocirc;nicas, cinco delas do meu mais recente livro &quot;O amor esquece de come&ccedil;ar&quot; (Bertrand Brasil) e cinco de &quot;O homem quando chora&quot;, com publica&ccedil;&atilde;o prevista para 2007.SERVI&Ccedil;O:O qu&ecirc;: Canalha Rom&acirc;ntico- espet&aacute;culo com a participa&ccedil;&atilde;o do m&uacute;sico Fernado Chu&iacute; e do escritor Fabr&iacute;cio CarpinejarQuando: dia 5/12 (ter&ccedil;a-feira), 20hOnde: Sesc Sorocaba  (Av. Washington Luis, 446, Jardim Em&iacute;lia, tel: (15) 33329933).Entrada franca]]&gt;
CANALHA ROM&Acirc;NTICO EM SOROCABAO Sesc de Sorocaba (SP) &eacute; palco do show &quot;Canalha Rom&acirc;ntico&quot; nesta ter&ccedil;a-feira, 5/12, a partir das 20h. Narrando as agruras e del&iacute;cias de um casamento, o espet&aacute;culo consolida minha parceria com o m&uacute;sico paulista Fernando Chu&iacute;. Apresentaremos letras in&eacute;ditas como &quot;Telhados&quot; e &quot;O Homem Precisa&quot;.  O p&uacute;blico poder&aacute; conferir onze m&uacute;sicas de Chu&iacute;, parte do rec&eacute;m-lan&ccedil;ado CD &quot;Nunca vi Mandacaru&quot;. Farei a leitura de dez cr&ocirc;nicas, cinco delas do meu mais recente livro &quot;O amor esquece de come&ccedil;ar&quot; (Bertrand Brasil) e cinco de &quot;O homem quando chora&quot;, com publica&ccedil;&atilde;o prevista para 2007.SERVI&Ccedil;O:O qu&ecirc;: Canalha Rom&acirc;ntico- espet&aacute;culo com a participa&ccedil;&atilde;o do m&uacute;sico Fernado Chu&iacute; e do escritor Fabr&iacute;cio CarpinejarQuando: dia 5/12 (ter&ccedil;a-feira), 20hOnde: Sesc Sorocaba  (Av. Washington Luis, 446, Jardim Em&iacute;lia, tel: (15) 33329933).Entrada franca]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39234177
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12/4/2006 07:35:20 AM



Zero Hora, Caderno Vida, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edi&ccedil;&atilde;o n&ordm; 15076&quot;A vida n&atilde;o recompensa o fumante. E o cigarro n&atilde;o recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que n&atilde;o pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora.&quot;POR FAVOR, PARE AGORACarpinejar n&atilde;o quis enfrentar a luta contra o v&iacute;cio sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante LEANDRO RODRIGUES Foto(s): Adriana Franciosi/ZHO poeta Fabr&iacute;cio Carpinejar acredita que durante este ver&atilde;o vencer&aacute; a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana   Com frases como essa, em um e-mail enviado no come&ccedil;o de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabr&iacute;cio Carpinejar, a tomar uma decis&atilde;o: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: &eacute; irrevers&iacute;vel, o cigarro est&aacute; com os dias contados. - At&eacute; agora, o m&aacute;ximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, n&atilde;o segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para n&atilde;o recair. Vou conseguir isso nas f&eacute;rias de ver&atilde;o, com o apoio e a fiscaliza&ccedil;&atilde;o da Mariana - diz o poeta. Carpinejar n&atilde;o quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a dif&iacute;cil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da aus&ecirc;ncia do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade n&atilde;o tardou a surgir. - Abordei isso no blog para n&atilde;o me sentir t&atilde;o s&oacute; nessa luta. Criei uma novela da minha experi&ecirc;ncia. E tamb&eacute;m para mostrar a quem n&atilde;o fuma que n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil, isso &eacute; um v&iacute;cio. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma. Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, ap&oacute;s 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolu&ccedil;&atilde;o da s&iacute;ndrome da abstin&ecirc;ncia da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As m&atilde;os come&ccedil;avam a tremer, e os del&iacute;rios o acometeram &agrave; noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fuma&ccedil;a. Pneumologistas asseguram que esses efeitos n&atilde;o s&atilde;o exagero ou &quot;fiasco&quot; dele. Eles alertam que o cigarro &eacute; muito potente. Uma m&aacute;quina perfeita para viciar: pequeno, barato, de f&aacute;cil acionamento e r&aacute;pido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absor&ccedil;&atilde;o da nicotina pelo c&eacute;rebro. - Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstin&ecirc;ncia nos primeiros dias, mas &eacute; dif&iacute;cil. Nada oferece tanta nicotina em t&atilde;o pouco tempo - afirma Jos&eacute; Miguel Chatkin, coordenador do Ambulat&oacute;rio de Aux&iacute;lio ao Tabagista do Hospital S&atilde;o Lucas, da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Concei&ccedil;&atilde;o, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda m&eacute;dica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar. - Vamos ver o que ser&aacute; nesse ver&atilde;o, com as minhas f&eacute;rias. Se n&atilde;o der certo, vou procurar ajuda m&eacute;dica. O importante &eacute; que eu j&aacute; decidi, n&atilde;o vou recuar - promete. ( leandro.rodrigues@zerohora.com.br ) Tentativas O que voc&ecirc; pode fazer em casa antes de procurar um m&eacute;dico:* Marque o dia D para largar o cigarro, fa&ccedil;a dele um momento especial, marque algo diferente para fazer * Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A id&eacute;ia &eacute; quebrar as associa&ccedil;&otilde;es que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situa&ccedil;&otilde;es e ficando longe de fumantes * Voc&ecirc; poder&aacute; ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentra&ccedil;&atilde;o e ter dores de cabe&ccedil;a por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no m&aacute;ximo, duas semanas * Se sentir muita vontade, voc&ecirc; pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. N&atilde;o fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a aten&ccedil;&atilde;o. Saiba que essa vontade forte n&atilde;o dura mais do que cinco minutos * Que tal guardar o dinheiro que voc&ecirc; gastaria com o cigarro e cont&aacute;-lo no final de cada semana? Pode us&aacute;-lo para fazer algo diferente * Voltou a fumar? Saiba que isso n&atilde;o &eacute; fracasso e nem significa que voc&ecirc; n&atilde;o vai parar de fumar. Voc&ecirc; nunca volta &agrave; estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um m&eacute;dico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos Fonte: Instituto Nacional do C&acirc;ncerDAR UM BASTAFoto(s): Adriana Franciosi/ZH  A possibilidade de surgir um rem&eacute;dio que libere o fumante do v&iacute;cio est&aacute; fora de cogita&ccedil;&atilde;o no momento. &Eacute; a determina&ccedil;&atilde;o de abandonar o tabagismo, a consci&ecirc;ncia absoluta dos males do cigarro que far&aacute; a diferen&ccedil;a. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. N&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o m&aacute;gica. - A primeira coisa que fazemos &eacute; avaliar o grau de motiva&ccedil;&atilde;o para largar o cigarro e o grau de depend&ecirc;ncia. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez s&oacute; ou gradualmente, e quando vai come&ccedil;ar. A isso agregamos a medica&ccedil;&atilde;o - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira. Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasi&otilde;es onde o cigarro &eacute; aceso. H&aacute; &quot;gatilhos&quot; para cada pessoa que devem ser identificados. Uns n&atilde;o conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e a&iacute; por diante. Nessa fase de mudan&ccedil;a, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura come&ccedil;a a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos &eacute; feito durante tr&ecirc;s meses. Neste m&ecirc;s, na Fran&ccedil;a, ser&aacute; lan&ccedil;ado um medicamento que pode deixar para tr&aacute;s o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neur&ocirc;nio. Em caso de reca&iacute;da, o fumante n&atilde;o sentir&aacute; o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no c&eacute;rebro estar&atilde;o &quot;tampados&quot;. No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007. - A julgar pelos resultados dos ensaios cl&iacute;nicos, esse rem&eacute;dio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz Jos&eacute; Miguel Chatkin, coordenador do Ambulat&oacute;rio de Aux&iacute;lio ao Tabagista do Hospital S&atilde;o Lucas.Os benef&iacute;cios do chega * Ap&oacute;s 20 minutos: a press&atilde;o e a pulsa&ccedil;&atilde;o voltam ao normal * Ap&oacute;s duas horas: n&atilde;o h&aacute; mais nicotina circulando no sangue * Ap&oacute;s oito horas: o n&iacute;vel de oxig&ecirc;nio no sangue fica normal * Entre 12 e 24 horas: os pulm&otilde;es funcionam melhor * Ap&oacute;s dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida * Ap&oacute;s tr&ecirc;s semanas: a respira&ccedil;&atilde;o se torna mais f&aacute;cil, e a circula&ccedil;&atilde;o melhora * Ap&oacute;s um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade * Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto ser&aacute; igual ao de pessoas que nunca fumaram Fonte: Instituto Nacional do C&acirc;ncerFa&ccedil;a o teste sobre seu n&iacute;vel de depend&ecirc;ncia do cigarro 
Zero Hora, Caderno Vida, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edi&ccedil;&atilde;o n&ordm; 15076&quot;A vida n&atilde;o recompensa o fumante. E o cigarro n&atilde;o recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que n&atilde;o pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora.&quot;POR FAVOR, PARE AGORACarpinejar n&atilde;o quis enfrentar a luta contra o v&iacute;cio sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante LEANDRO RODRIGUES Foto(s): Adriana Franciosi/ZHO poeta Fabr&iacute;cio Carpinejar acredita que durante este ver&atilde;o vencer&aacute; a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana   Com frases como essa, em um e-mail enviado no come&ccedil;o de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabr&iacute;cio Carpinejar, a tomar uma decis&atilde;o: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: &eacute; irrevers&iacute;vel, o cigarro est&aacute; com os dias contados. - At&eacute; agora, o m&aacute;ximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, n&atilde;o segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para n&atilde;o recair. Vou conseguir isso nas f&eacute;rias de ver&atilde;o, com o apoio e a fiscaliza&ccedil;&atilde;o da Mariana - diz o poeta. Carpinejar n&atilde;o quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a dif&iacute;cil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da aus&ecirc;ncia do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade n&atilde;o tardou a surgir. - Abordei isso no blog para n&atilde;o me sentir t&atilde;o s&oacute; nessa luta. Criei uma novela da minha experi&ecirc;ncia. E tamb&eacute;m para mostrar a quem n&atilde;o fuma que n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil, isso &eacute; um v&iacute;cio. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma. Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, ap&oacute;s 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolu&ccedil;&atilde;o da s&iacute;ndrome da abstin&ecirc;ncia da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As m&atilde;os come&ccedil;avam a tremer, e os del&iacute;rios o acometeram &agrave; noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fuma&ccedil;a. Pneumologistas asseguram que esses efeitos n&atilde;o s&atilde;o exagero ou &quot;fiasco&quot; dele. Eles alertam que o cigarro &eacute; muito potente. Uma m&aacute;quina perfeita para viciar: pequeno, barato, de f&aacute;cil acionamento e r&aacute;pido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absor&ccedil;&atilde;o da nicotina pelo c&eacute;rebro. - Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstin&ecirc;ncia nos primeiros dias, mas &eacute; dif&iacute;cil. Nada oferece tanta nicotina em t&atilde;o pouco tempo - afirma Jos&eacute; Miguel Chatkin, coordenador do Ambulat&oacute;rio de Aux&iacute;lio ao Tabagista do Hospital S&atilde;o Lucas, da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Concei&ccedil;&atilde;o, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda m&eacute;dica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar. - Vamos ver o que ser&aacute; nesse ver&atilde;o, com as minhas f&eacute;rias. Se n&atilde;o der certo, vou procurar ajuda m&eacute;dica. O importante &eacute; que eu j&aacute; decidi, n&atilde;o vou recuar - promete. ( leandro.rodrigues@zerohora.com.br ) Tentativas O que voc&ecirc; pode fazer em casa antes de procurar um m&eacute;dico:* Marque o dia D para largar o cigarro, fa&ccedil;a dele um momento especial, marque algo diferente para fazer * Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A id&eacute;ia &eacute; quebrar as associa&ccedil;&otilde;es que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situa&ccedil;&otilde;es e ficando longe de fumantes * Voc&ecirc; poder&aacute; ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentra&ccedil;&atilde;o e ter dores de cabe&ccedil;a por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no m&aacute;ximo, duas semanas * Se sentir muita vontade, voc&ecirc; pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. N&atilde;o fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a aten&ccedil;&atilde;o. Saiba que essa vontade forte n&atilde;o dura mais do que cinco minutos * Que tal guardar o dinheiro que voc&ecirc; gastaria com o cigarro e cont&aacute;-lo no final de cada semana? Pode us&aacute;-lo para fazer algo diferente * Voltou a fumar? Saiba que isso n&atilde;o &eacute; fracasso e nem significa que voc&ecirc; n&atilde;o vai parar de fumar. Voc&ecirc; nunca volta &agrave; estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um m&eacute;dico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos Fonte: Instituto Nacional do C&acirc;ncerDAR UM BASTAFoto(s): Adriana Franciosi/ZH  A possibilidade de surgir um rem&eacute;dio que libere o fumante do v&iacute;cio est&aacute; fora de cogita&ccedil;&atilde;o no momento. &Eacute; a determina&ccedil;&atilde;o de abandonar o tabagismo, a consci&ecirc;ncia absoluta dos males do cigarro que far&aacute; a diferen&ccedil;a. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. N&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o m&aacute;gica. - A primeira coisa que fazemos &eacute; avaliar o grau de motiva&ccedil;&atilde;o para largar o cigarro e o grau de depend&ecirc;ncia. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez s&oacute; ou gradualmente, e quando vai come&ccedil;ar. A isso agregamos a medica&ccedil;&atilde;o - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira. Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasi&otilde;es onde o cigarro &eacute; aceso. H&aacute; &quot;gatilhos&quot; para cada pessoa que devem ser identificados. Uns n&atilde;o conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e a&iacute; por diante. Nessa fase de mudan&ccedil;a, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura come&ccedil;a a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos &eacute; feito durante tr&ecirc;s meses. Neste m&ecirc;s, na Fran&ccedil;a, ser&aacute; lan&ccedil;ado um medicamento que pode deixar para tr&aacute;s o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neur&ocirc;nio. Em caso de reca&iacute;da, o fumante n&atilde;o sentir&aacute; o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no c&eacute;rebro estar&atilde;o &quot;tampados&quot;. No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007. - A julgar pelos resultados dos ensaios cl&iacute;nicos, esse rem&eacute;dio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz Jos&eacute; Miguel Chatkin, coordenador do Ambulat&oacute;rio de Aux&iacute;lio ao Tabagista do Hospital S&atilde;o Lucas.Os benef&iacute;cios do chega * Ap&oacute;s 20 minutos: a press&atilde;o e a pulsa&ccedil;&atilde;o voltam ao normal * Ap&oacute;s duas horas: n&atilde;o h&aacute; mais nicotina circulando no sangue * Ap&oacute;s oito horas: o n&iacute;vel de oxig&ecirc;nio no sangue fica normal * Entre 12 e 24 horas: os pulm&otilde;es funcionam melhor * Ap&oacute;s dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida * Ap&oacute;s tr&ecirc;s semanas: a respira&ccedil;&atilde;o se torna mais f&aacute;cil, e a circula&ccedil;&atilde;o melhora * Ap&oacute;s um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade * Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto ser&aacute; igual ao de pessoas que nunca fumaram Fonte: Instituto Nacional do C&acirc;ncerFa&ccedil;a o teste sobre seu n&iacute;vel de depend&ecirc;ncia do cigarro ]]&gt;
Zero Hora, Caderno Vida, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edi&ccedil;&atilde;o n&ordm; 15076&quot;A vida n&atilde;o recompensa o fumante. E o cigarro n&atilde;o recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que n&atilde;o pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora.&quot;POR FAVOR, PARE AGORACarpinejar n&atilde;o quis enfrentar a luta contra o v&iacute;cio sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante LEANDRO RODRIGUES Foto(s): Adriana Franciosi/ZHO poeta Fabr&iacute;cio Carpinejar acredita que durante este ver&atilde;o vencer&aacute; a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana   Com frases como essa, em um e-mail enviado no come&ccedil;o de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabr&iacute;cio Carpinejar, a tomar uma decis&atilde;o: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: &eacute; irrevers&iacute;vel, o cigarro est&aacute; com os dias contados. - At&eacute; agora, o m&aacute;ximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, n&atilde;o segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para n&atilde;o recair. Vou conseguir isso nas f&eacute;rias de ver&atilde;o, com o apoio e a fiscaliza&ccedil;&atilde;o da Mariana - diz o poeta. Carpinejar n&atilde;o quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a dif&iacute;cil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da aus&ecirc;ncia do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade n&atilde;o tardou a surgir. - Abordei isso no blog para n&atilde;o me sentir t&atilde;o s&oacute; nessa luta. Criei uma novela da minha experi&ecirc;ncia. E tamb&eacute;m para mostrar a quem n&atilde;o fuma que n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil, isso &eacute; um v&iacute;cio. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma. Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, ap&oacute;s 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolu&ccedil;&atilde;o da s&iacute;ndrome da abstin&ecirc;ncia da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As m&atilde;os come&ccedil;avam a tremer, e os del&iacute;rios o acometeram &agrave; noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fuma&ccedil;a. Pneumologistas asseguram que esses efeitos n&atilde;o s&atilde;o exagero ou &quot;fiasco&quot; dele. Eles alertam que o cigarro &eacute; muito potente. Uma m&aacute;quina perfeita para viciar: pequeno, barato, de f&aacute;cil acionamento e r&aacute;pido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absor&ccedil;&atilde;o da nicotina pelo c&eacute;rebro. - Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstin&ecirc;ncia nos primeiros dias, mas &eacute; dif&iacute;cil. Nada oferece tanta nicotina em t&atilde;o pouco tempo - afirma Jos&eacute; Miguel Chatkin, coordenador do Ambulat&oacute;rio de Aux&iacute;lio ao Tabagista do Hospital S&atilde;o Lucas, da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Concei&ccedil;&atilde;o, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda m&eacute;dica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar. - Vamos ver o que ser&aacute; nesse ver&atilde;o, com as minhas f&eacute;rias. Se n&atilde;o der certo, vou procurar ajuda m&eacute;dica. O importante &eacute; que eu j&aacute; decidi, n&atilde;o vou recuar - promete. ( leandro.rodrigues@zerohora.com.br ) Tentativas O que voc&ecirc; pode fazer em casa antes de procurar um m&eacute;dico:* Marque o dia D para largar o cigarro, fa&ccedil;a dele um momento especial, marque algo diferente para fazer * Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A id&eacute;ia &eacute; quebrar as associa&ccedil;&otilde;es que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situa&ccedil;&otilde;es e ficando longe de fumantes * Voc&ecirc; poder&aacute; ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentra&ccedil;&atilde;o e ter dores de cabe&ccedil;a por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no m&aacute;ximo, duas semanas * Se sentir muita vontade, voc&ecirc; pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. N&atilde;o fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a aten&ccedil;&atilde;o. Saiba que essa vontade forte n&atilde;o dura mais do que cinco minutos * Que tal guardar o dinheiro que voc&ecirc; gastaria com o cigarro e cont&aacute;-lo no final de cada semana? Pode us&aacute;-lo para fazer algo diferente * Voltou a fumar? Saiba que isso n&atilde;o &eacute; fracasso e nem significa que voc&ecirc; n&atilde;o vai parar de fumar. Voc&ecirc; nunca volta &agrave; estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um m&eacute;dico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos Fonte: Instituto Nacional do C&acirc;ncerDAR UM BASTAFoto(s): Adriana Franciosi/ZH  A possibilidade de surgir um rem&eacute;dio que libere o fumante do v&iacute;cio est&aacute; fora de cogita&ccedil;&atilde;o no momento. &Eacute; a determina&ccedil;&atilde;o de abandonar o tabagismo, a consci&ecirc;ncia absoluta dos males do cigarro que far&aacute; a diferen&ccedil;a. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. N&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o m&aacute;gica. - A primeira coisa que fazemos &eacute; avaliar o grau de motiva&ccedil;&atilde;o para largar o cigarro e o grau de depend&ecirc;ncia. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez s&oacute; ou gradualmente, e quando vai come&ccedil;ar. A isso agregamos a medica&ccedil;&atilde;o - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira. Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasi&otilde;es onde o cigarro &eacute; aceso. H&aacute; &quot;gatilhos&quot; para cada pessoa que devem ser identificados. Uns n&atilde;o conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e a&iacute; por diante. Nessa fase de mudan&ccedil;a, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura come&ccedil;a a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos &eacute; feito durante tr&ecirc;s meses. Neste m&ecirc;s, na Fran&ccedil;a, ser&aacute; lan&ccedil;ado um medicamento que pode deixar para tr&aacute;s o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neur&ocirc;nio. Em caso de reca&iacute;da, o fumante n&atilde;o sentir&aacute; o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no c&eacute;rebro estar&atilde;o &quot;tampados&quot;. No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007. - A julgar pelos resultados dos ensaios cl&iacute;nicos, esse rem&eacute;dio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz Jos&eacute; Miguel Chatkin, coordenador do Ambulat&oacute;rio de Aux&iacute;lio ao Tabagista do Hospital S&atilde;o Lucas.Os benef&iacute;cios do chega * Ap&oacute;s 20 minutos: a press&atilde;o e a pulsa&ccedil;&atilde;o voltam ao normal * Ap&oacute;s duas horas: n&atilde;o h&aacute; mais nicotina circulando no sangue * Ap&oacute;s oito horas: o n&iacute;vel de oxig&ecirc;nio no sangue fica normal * Entre 12 e 24 horas: os pulm&otilde;es funcionam melhor * Ap&oacute;s dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida * Ap&oacute;s tr&ecirc;s semanas: a respira&ccedil;&atilde;o se torna mais f&aacute;cil, e a circula&ccedil;&atilde;o melhora * Ap&oacute;s um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade * Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto ser&aacute; igual ao de pessoas que nunca fumaram Fonte: Instituto Nacional do C&acirc;ncerFa&ccedil;a o teste sobre seu n&iacute;vel de depend&ecirc;ncia do cigarro ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39233411
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html
12/3/2006 10:12:10 PM



UM VELHO TANGO 78 ROTA&Ccedil;&Otilde;ES M&aacute;rcia Denser raspa o &aacute;lbum de uma fam&iacute;lia incestuosa em Caim - Sagrados La&ccedil;os Frouxos Fabr&iacute;cio Carpinejar*Especial para o EstadoS&oacute; uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: M&aacute;rcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da d&eacute;cada de 70 e in&iacute;cio de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (O Tango Fantasma e Diana Ca&ccedil;adora), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Ali&aacute;s, fazia sexo para pensar e n&atilde;o esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, t&atilde;o independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer f&iacute;sico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.M&aacute;rcia pagou alto o pre&ccedil;o de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ign&aacute;cio de Loyola Brand&atilde;o, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. N&atilde;o tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lan&ccedil;a Caim - Sagrados La&ccedil;os Frouxos.Diana Marini torna-se J&uacute;lia. Uma transforma&ccedil;&atilde;o que implica em serenidade, consist&ecirc;ncia psicol&oacute;gica, sem nunca perder o enfrentamento. O livro &eacute; constru&iacute;do como um di&aacute;logo teatral, dilacerado, entre J&uacute;lia e sua irm&atilde; Amanda, prestes a dar &agrave; luz. O nascimento do filho &eacute; antecedido por um ajuste de contas. N&atilde;o &eacute; a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da fam&iacute;lia para uma nova crian&ccedil;a imp&otilde;e a revis&atilde;o do &aacute;lbum de fam&iacute;lia. N&atilde;o h&aacute; pausa, respiro. N&atilde;o ag&uuml;entam a proximidade, muito menos ag&uuml;entam igualmente se distanciar. Com a separa&ccedil;&atilde;o, resta a culpa; com a conviv&ecirc;ncia, a raiva.Um verniz do cinema c&ecirc;nico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na express&atilde;o do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma tr&eacute;gua que n&atilde;o chega. As d&uacute;vidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Aflora&ccedil;&atilde;o, deflora&ccedil;&atilde;o. Movimentos cont&iacute;nuos de recuo, choques e disputas. Provoca&ccedil;&otilde;es, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perd&atilde;o, ningu&eacute;m sai ileso. Isso &eacute; o que demonstra Denser. As conversas s&atilde;o de ordem intelectual. N&atilde;o copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convic&ccedil;&otilde;es. Denser n&atilde;o empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo &agrave; parte, uma par&oacute;dia desafiadora de id&eacute;ias ou um pandem&ocirc;nio de desejos descontrolados. As hist&oacute;rias de quarto-cozinha s&atilde;o reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. S&atilde;o como g&ecirc;meas da vergonha (ou do medo). Desde o bisav&ocirc; Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irm&atilde;os, com filhos deficientes e tabus.A marca de Caim est&aacute; no l&aacute;bio leporino, &quot;sinal de nascen&ccedil;a&quot; dos integrantes da fam&iacute;lia. O l&aacute;bio &eacute; uma cicatriz antes de ser boca. Uma mem&oacute;ria coletiva sobrepujando a individual. Uma purga&ccedil;&atilde;o, uma condena&ccedil;&atilde;o perp&eacute;tua igual ao anti-her&oacute;i b&iacute;blico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.J&uacute;lia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. &Eacute; Diana Marini em forma no sarcasmo: &quot;Quando voc&ecirc; me fala em destino me d&aacute; vontade de sacar a pasta de dente.&quot; H&aacute; uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ci&uacute;me que sente da irm&atilde;. Julga as apar&ecirc;ncias de sua margem confort&aacute;vel e tro&ccedil;a da estabilidade e das institui&ccedil;&otilde;es por n&atilde;o se enxergar dentro delas.N&atilde;o existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os pap&eacute;is de v&iacute;timas e algozes. Oferecem vers&otilde;es, n&atilde;o verdades. Em cinco cap&iacute;tulos, M&aacute;rcia Denser cria uma atmosfera de paran&oacute;ia e desconfian&ccedil;a. Opini&otilde;es tendenciosas, mut&aacute;veis de acordo com o f&ocirc;lego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de J&uacute;lia e Amanda segue a sina e n&atilde;o modifica o futuro.Um dos m&eacute;ritos da obra &eacute; a sobreposi&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica. Al&eacute;m de diferentes relatos de outras &eacute;pocas, Denser se p&otilde;e muito na personagem. Transfere-se para confundir. Cita&ccedil;&otilde;es de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explica&ccedil;&otilde;es dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da pr&oacute;pria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identifica&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que quanto mais se parece com Denser menos &eacute; Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa liter&aacute;ria, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. &quot;Que prazer indescrit&iacute;vel imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e n&atilde;o eu a escrev&ecirc;-lo.&quot;Como um velho tango 78 rota&ccedil;&otilde;es, os ru&iacute;dos fazem parte da m&uacute;sica. Os ru&iacute;dos e as elipses s&atilde;o a m&uacute;sica desse perturbador romance. Afinal, n&atilde;o h&aacute; parto sem dor.* Fabr&iacute;cio Carpinejar &eacute; poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Come&ccedil;ar (Bertrand Brasil, 2006)(SERVI&Ccedil;O)Caim - Sagrados La&ccedil;os Frouxos, M&aacute;rcia Denser, Record, 144 p&aacute;gs., R$ 31,90 Publicado em O Estado de S&atilde;o Paulo, Caderno 2/Cultura, 3/12/06
UM VELHO TANGO 78 ROTA&Ccedil;&Otilde;ES M&aacute;rcia Denser raspa o &aacute;lbum de uma fam&iacute;lia incestuosa em Caim - Sagrados La&ccedil;os Frouxos Fabr&iacute;cio Carpinejar*Especial para o EstadoS&oacute; uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: M&aacute;rcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da d&eacute;cada de 70 e in&iacute;cio de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (O Tango Fantasma e Diana Ca&ccedil;adora), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Ali&aacute;s, fazia sexo para pensar e n&atilde;o esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, t&atilde;o independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer f&iacute;sico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.M&aacute;rcia pagou alto o pre&ccedil;o de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ign&aacute;cio de Loyola Brand&atilde;o, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. N&atilde;o tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lan&ccedil;a Caim - Sagrados La&ccedil;os Frouxos.Diana Marini torna-se J&uacute;lia. Uma transforma&ccedil;&atilde;o que implica em serenidade, consist&ecirc;ncia psicol&oacute;gica, sem nunca perder o enfrentamento. O livro &eacute; constru&iacute;do como um di&aacute;logo teatral, dilacerado, entre J&uacute;lia e sua irm&atilde; Amanda, prestes a dar &agrave; luz. O nascimento do filho &eacute; antecedido por um ajuste de contas. N&atilde;o &eacute; a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da fam&iacute;lia para uma nova crian&ccedil;a imp&otilde;e a revis&atilde;o do &aacute;lbum de fam&iacute;lia. N&atilde;o h&aacute; pausa, respiro. N&atilde;o ag&uuml;entam a proximidade, muito menos ag&uuml;entam igualmente se distanciar. Com a separa&ccedil;&atilde;o, resta a culpa; com a conviv&ecirc;ncia, a raiva.Um verniz do cinema c&ecirc;nico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na express&atilde;o do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma tr&eacute;gua que n&atilde;o chega. As d&uacute;vidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Aflora&ccedil;&atilde;o, deflora&ccedil;&atilde;o. Movimentos cont&iacute;nuos de recuo, choques e disputas. Provoca&ccedil;&otilde;es, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perd&atilde;o, ningu&eacute;m sai ileso. Isso &eacute; o que demonstra Denser. As conversas s&atilde;o de ordem intelectual. N&atilde;o copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convic&ccedil;&otilde;es. Denser n&atilde;o empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo &agrave; parte, uma par&oacute;dia desafiadora de id&eacute;ias ou um pandem&ocirc;nio de desejos descontrolados. As hist&oacute;rias de quarto-cozinha s&atilde;o reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. S&atilde;o como g&ecirc;meas da vergonha (ou do medo). Desde o bisav&ocirc; Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irm&atilde;os, com filhos deficientes e tabus.A marca de Caim est&aacute; no l&aacute;bio leporino, &quot;sinal de nascen&ccedil;a&quot; dos integrantes da fam&iacute;lia. O l&aacute;bio &eacute; uma cicatriz antes de ser boca. Uma mem&oacute;ria coletiva sobrepujando a individual. Uma purga&ccedil;&atilde;o, uma condena&ccedil;&atilde;o perp&eacute;tua igual ao anti-her&oacute;i b&iacute;blico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.J&uacute;lia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. &Eacute; Diana Marini em forma no sarcasmo: &quot;Quando voc&ecirc; me fala em destino me d&aacute; vontade de sacar a pasta de dente.&quot; H&aacute; uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ci&uacute;me que sente da irm&atilde;. Julga as apar&ecirc;ncias de sua margem confort&aacute;vel e tro&ccedil;a da estabilidade e das institui&ccedil;&otilde;es por n&atilde;o se enxergar dentro delas.N&atilde;o existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os pap&eacute;is de v&iacute;timas e algozes. Oferecem vers&otilde;es, n&atilde;o verdades. Em cinco cap&iacute;tulos, M&aacute;rcia Denser cria uma atmosfera de paran&oacute;ia e desconfian&ccedil;a. Opini&otilde;es tendenciosas, mut&aacute;veis de acordo com o f&ocirc;lego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de J&uacute;lia e Amanda segue a sina e n&atilde;o modifica o futuro.Um dos m&eacute;ritos da obra &eacute; a sobreposi&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica. Al&eacute;m de diferentes relatos de outras &eacute;pocas, Denser se p&otilde;e muito na personagem. Transfere-se para confundir. Cita&ccedil;&otilde;es de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explica&ccedil;&otilde;es dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da pr&oacute;pria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identifica&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que quanto mais se parece com Denser menos &eacute; Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa liter&aacute;ria, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. &quot;Que prazer indescrit&iacute;vel imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e n&atilde;o eu a escrev&ecirc;-lo.&quot;Como um velho tango 78 rota&ccedil;&otilde;es, os ru&iacute;dos fazem parte da m&uacute;sica. Os ru&iacute;dos e as elipses s&atilde;o a m&uacute;sica desse perturbador romance. Afinal, n&atilde;o h&aacute; parto sem dor.* Fabr&iacute;cio Carpinejar &eacute; poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Come&ccedil;ar (Bertrand Brasil, 2006)(SERVI&Ccedil;O)Caim - Sagrados La&ccedil;os Frouxos, M&aacute;rcia Denser, Record, 144 p&aacute;gs., R$ 31,90 Publicado em O Estado de S&atilde;o Paulo, Caderno 2/Cultura, 3/12/06]]&gt;
UM VELHO TANGO 78 ROTA&Ccedil;&Otilde;ES M&aacute;rcia Denser raspa o &aacute;lbum de uma fam&iacute;lia incestuosa em Caim - Sagrados La&ccedil;os Frouxos Fabr&iacute;cio Carpinejar*Especial para o EstadoS&oacute; uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: M&aacute;rcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da d&eacute;cada de 70 e in&iacute;cio de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (O Tango Fantasma e Diana Ca&ccedil;adora), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Ali&aacute;s, fazia sexo para pensar e n&atilde;o esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, t&atilde;o independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer f&iacute;sico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.M&aacute;rcia pagou alto o pre&ccedil;o de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ign&aacute;cio de Loyola Brand&atilde;o, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. N&atilde;o tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lan&ccedil;a Caim - Sagrados La&ccedil;os Frouxos.Diana Marini torna-se J&uacute;lia. Uma transforma&ccedil;&atilde;o que implica em serenidade, consist&ecirc;ncia psicol&oacute;gica, sem nunca perder o enfrentamento. O livro &eacute; constru&iacute;do como um di&aacute;logo teatral, dilacerado, entre J&uacute;lia e sua irm&atilde; Amanda, prestes a dar &agrave; luz. O nascimento do filho &eacute; antecedido por um ajuste de contas. N&atilde;o &eacute; a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da fam&iacute;lia para uma nova crian&ccedil;a imp&otilde;e a revis&atilde;o do &aacute;lbum de fam&iacute;lia. N&atilde;o h&aacute; pausa, respiro. N&atilde;o ag&uuml;entam a proximidade, muito menos ag&uuml;entam igualmente se distanciar. Com a separa&ccedil;&atilde;o, resta a culpa; com a conviv&ecirc;ncia, a raiva.Um verniz do cinema c&ecirc;nico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na express&atilde;o do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma tr&eacute;gua que n&atilde;o chega. As d&uacute;vidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Aflora&ccedil;&atilde;o, deflora&ccedil;&atilde;o. Movimentos cont&iacute;nuos de recuo, choques e disputas. Provoca&ccedil;&otilde;es, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perd&atilde;o, ningu&eacute;m sai ileso. Isso &eacute; o que demonstra Denser. As conversas s&atilde;o de ordem intelectual. N&atilde;o copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convic&ccedil;&otilde;es. Denser n&atilde;o empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo &agrave; parte, uma par&oacute;dia desafiadora de id&eacute;ias ou um pandem&ocirc;nio de desejos descontrolados. As hist&oacute;rias de quarto-cozinha s&atilde;o reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. S&atilde;o como g&ecirc;meas da vergonha (ou do medo). Desde o bisav&ocirc; Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irm&atilde;os, com filhos deficientes e tabus.A marca de Caim est&aacute; no l&aacute;bio leporino, &quot;sinal de nascen&ccedil;a&quot; dos integrantes da fam&iacute;lia. O l&aacute;bio &eacute; uma cicatriz antes de ser boca. Uma mem&oacute;ria coletiva sobrepujando a individual. Uma purga&ccedil;&atilde;o, uma condena&ccedil;&atilde;o perp&eacute;tua igual ao anti-her&oacute;i b&iacute;blico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.J&uacute;lia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. &Eacute; Diana Marini em forma no sarcasmo: &quot;Quando voc&ecirc; me fala em destino me d&aacute; vontade de sacar a pasta de dente.&quot; H&aacute; uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ci&uacute;me que sente da irm&atilde;. Julga as apar&ecirc;ncias de sua margem confort&aacute;vel e tro&ccedil;a da estabilidade e das institui&ccedil;&otilde;es por n&atilde;o se enxergar dentro delas.N&atilde;o existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os pap&eacute;is de v&iacute;timas e algozes. Oferecem vers&otilde;es, n&atilde;o verdades. Em cinco cap&iacute;tulos, M&aacute;rcia Denser cria uma atmosfera de paran&oacute;ia e desconfian&ccedil;a. Opini&otilde;es tendenciosas, mut&aacute;veis de acordo com o f&ocirc;lego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de J&uacute;lia e Amanda segue a sina e n&atilde;o modifica o futuro.Um dos m&eacute;ritos da obra &eacute; a sobreposi&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica. Al&eacute;m de diferentes relatos de outras &eacute;pocas, Denser se p&otilde;e muito na personagem. Transfere-se para confundir. Cita&ccedil;&otilde;es de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explica&ccedil;&otilde;es dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da pr&oacute;pria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identifica&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que quanto mais se parece com Denser menos &eacute; Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa liter&aacute;ria, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. &quot;Que prazer indescrit&iacute;vel imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e n&atilde;o eu a escrev&ecirc;-lo.&quot;Como um velho tango 78 rota&ccedil;&otilde;es, os ru&iacute;dos fazem parte da m&uacute;sica. Os ru&iacute;dos e as elipses s&atilde;o a m&uacute;sica desse perturbador romance. Afinal, n&atilde;o h&aacute; parto sem dor.* Fabr&iacute;cio Carpinejar &eacute; poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Come&ccedil;ar (Bertrand Brasil, 2006)(SERVI&Ccedil;O)Caim - Sagrados La&ccedil;os Frouxos, M&aacute;rcia Denser, Record, 144 p&aacute;gs., R$ 31,90 Publicado em O Estado de S&atilde;o Paulo, Caderno 2/Cultura, 3/12/06]]&gt;
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12/3/2006 09:52:48 PM



UMA AVE-MARIA Arte de Gerhard RichterFabr&iacute;cio CarpinejarQuando ligo para um amigo, cedo da manh&atilde; ou tarde da noite, e escuto sua dic&ccedil;&atilde;o anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. N&atilde;o consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e &eacute; tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da liga&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no af&atilde; de n&atilde;o incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor ju&iacute;zo, e n&atilde;o percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, ter&aacute; um pesadelo. Se acordar depois, ser&aacute; um pesadelo. Fa&ccedil;o de conta que n&atilde;o telefonei. Torno-me um trote, um telefonema an&ocirc;nimo. Sou uma crian&ccedil;a assustada com a pr&oacute;pria respira&ccedil;&atilde;o. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer. No final da aula, recebi a not&iacute;cia de que uma de minhas alunas de Poesia havia falecido. Teve uma parada card&iacute;aca aos 50 anos. Saud&aacute;vel, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os c&iacute;lios n&atilde;o seriam capazes de conter a inclina&ccedil;&atilde;o de riacho. Seu pesco&ccedil;o a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exerc&iacute;cios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela rec&eacute;m havia ingressado na oficina. Compareceu a tr&ecirc;s aulas. Estava ali ao alcance de meu bra&ccedil;o, de minhas pernas, de um giro da cabe&ccedil;a. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que n&atilde;o sabia como chegar. Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As m&atilde;os arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa est&aacute; limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela n&atilde;o esqueceu a bolsa, n&atilde;o esqueceu o caderno, n&atilde;o esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro at&eacute; a porta e tudo &eacute; ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. N&atilde;o tenho para quem devolver minhas anota&ccedil;&otilde;es ao lado de seus versos. N&atilde;o entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um ol&aacute;, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ip&ecirc; na cal&ccedil;ada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque n&atilde;o suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo j&aacute; era tarde. Estava me dedicando seus &uacute;ltimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros. Hoje tocou o telefone de madrugada. Algu&eacute;m me ouviu e desligou rapidamente.  
UMA AVE-MARIA Arte de Gerhard RichterFabr&iacute;cio CarpinejarQuando ligo para um amigo, cedo da manh&atilde; ou tarde da noite, e escuto sua dic&ccedil;&atilde;o anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. N&atilde;o consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e &eacute; tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da liga&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no af&atilde; de n&atilde;o incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor ju&iacute;zo, e n&atilde;o percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, ter&aacute; um pesadelo. Se acordar depois, ser&aacute; um pesadelo. Fa&ccedil;o de conta que n&atilde;o telefonei. Torno-me um trote, um telefonema an&ocirc;nimo. Sou uma crian&ccedil;a assustada com a pr&oacute;pria respira&ccedil;&atilde;o. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer. No final da aula, recebi a not&iacute;cia de que uma de minhas alunas de Poesia havia falecido. Teve uma parada card&iacute;aca aos 50 anos. Saud&aacute;vel, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os c&iacute;lios n&atilde;o seriam capazes de conter a inclina&ccedil;&atilde;o de riacho. Seu pesco&ccedil;o a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exerc&iacute;cios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela rec&eacute;m havia ingressado na oficina. Compareceu a tr&ecirc;s aulas. Estava ali ao alcance de meu bra&ccedil;o, de minhas pernas, de um giro da cabe&ccedil;a. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que n&atilde;o sabia como chegar. Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As m&atilde;os arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa est&aacute; limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela n&atilde;o esqueceu a bolsa, n&atilde;o esqueceu o caderno, n&atilde;o esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro at&eacute; a porta e tudo &eacute; ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. N&atilde;o tenho para quem devolver minhas anota&ccedil;&otilde;es ao lado de seus versos. N&atilde;o entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um ol&aacute;, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ip&ecirc; na cal&ccedil;ada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque n&atilde;o suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo j&aacute; era tarde. Estava me dedicando seus &uacute;ltimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros. Hoje tocou o telefone de madrugada. Algu&eacute;m me ouviu e desligou rapidamente.  ]]&gt;
UMA AVE-MARIA Arte de Gerhard RichterFabr&iacute;cio CarpinejarQuando ligo para um amigo, cedo da manh&atilde; ou tarde da noite, e escuto sua dic&ccedil;&atilde;o anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. N&atilde;o consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e &eacute; tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da liga&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no af&atilde; de n&atilde;o incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor ju&iacute;zo, e n&atilde;o percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, ter&aacute; um pesadelo. Se acordar depois, ser&aacute; um pesadelo. Fa&ccedil;o de conta que n&atilde;o telefonei. Torno-me um trote, um telefonema an&ocirc;nimo. Sou uma crian&ccedil;a assustada com a pr&oacute;pria respira&ccedil;&atilde;o. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer. No final da aula, recebi a not&iacute;cia de que uma de minhas alunas de Poesia havia falecido. Teve uma parada card&iacute;aca aos 50 anos. Saud&aacute;vel, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os c&iacute;lios n&atilde;o seriam capazes de conter a inclina&ccedil;&atilde;o de riacho. Seu pesco&ccedil;o a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exerc&iacute;cios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela rec&eacute;m havia ingressado na oficina. Compareceu a tr&ecirc;s aulas. Estava ali ao alcance de meu bra&ccedil;o, de minhas pernas, de um giro da cabe&ccedil;a. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que n&atilde;o sabia como chegar. Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As m&atilde;os arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa est&aacute; limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela n&atilde;o esqueceu a bolsa, n&atilde;o esqueceu o caderno, n&atilde;o esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro at&eacute; a porta e tudo &eacute; ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. N&atilde;o tenho para quem devolver minhas anota&ccedil;&otilde;es ao lado de seus versos. N&atilde;o entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um ol&aacute;, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ip&ecirc; na cal&ccedil;ada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque n&atilde;o suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo j&aacute; era tarde. Estava me dedicando seus &uacute;ltimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros. Hoje tocou o telefone de madrugada. Algu&eacute;m me ouviu e desligou rapidamente.  ]]&gt;
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11/30/2006 01:10:05 AM



&Uacute;LTIMO DIAHoje &eacute; o &uacute;ltimo dia (29/11) de inscri&ccedil;&otilde;es para o processo seletivo do curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios da Unisinos, HOR&Aacute;RIO NOTURNO. As provas v&atilde;o rolar no dia 2 de dezembro, das 9h30 &agrave;s 12h (reda&ccedil;&atilde;o) e das 14h30 &agrave;s 17h30 (quest&otilde;es discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realiza&ccedil;&atilde;o somente da reda&ccedil;&atilde;o. Inscreva-se aqui. 
&Uacute;LTIMO DIAHoje &eacute; o &uacute;ltimo dia (29/11) de inscri&ccedil;&otilde;es para o processo seletivo do curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios da Unisinos, HOR&Aacute;RIO NOTURNO. As provas v&atilde;o rolar no dia 2 de dezembro, das 9h30 &agrave;s 12h (reda&ccedil;&atilde;o) e das 14h30 &agrave;s 17h30 (quest&otilde;es discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realiza&ccedil;&atilde;o somente da reda&ccedil;&atilde;o. Inscreva-se aqui. ]]&gt;
&Uacute;LTIMO DIAHoje &eacute; o &uacute;ltimo dia (29/11) de inscri&ccedil;&otilde;es para o processo seletivo do curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios da Unisinos, HOR&Aacute;RIO NOTURNO. As provas v&atilde;o rolar no dia 2 de dezembro, das 9h30 &agrave;s 12h (reda&ccedil;&atilde;o) e das 14h30 &agrave;s 17h30 (quest&otilde;es discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realiza&ccedil;&atilde;o somente da reda&ccedil;&atilde;o. Inscreva-se aqui. ]]&gt;
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11/29/2006 11:29:45 AM



A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIMArte de Allen JonesDo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Prezado Fabr&iacute;cio, Seus pr&eacute;stimos me foram muit&iacute;ssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a quest&atilde;o que passo a expor.Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abra&ccedil;os dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.A ex-mulher dele tem criado in&uacute;meros problemas com os filhos. Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele est&atilde;o ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois n&atilde;o v&atilde;o &agrave; nossa casa, negam-se a me conhecer.Al&eacute;m disso, &eacute; incr&iacute;vel a rejei&ccedil;&atilde;o social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que n&atilde;o se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhec&iacute;amos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles n&atilde;o querem a presen&ccedil;a dele.Disso tudo parece que sou uma pessoa execr&aacute;vel, mas isso n&atilde;o &eacute; verdade. Eu trabalho duro, venho de uma fam&iacute;lia decente, cuido das minhas filhas. O &uacute;nico &quot;pecado&quot; que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam at&eacute; apre&ccedil;o e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.Al&eacute;m de tudo isso (falat&oacute;rio, problemas com filhos e rejei&ccedil;&atilde;o de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E n&atilde;o aceito, at&eacute; hoje, saber que ele, durante o per&iacute;odo em que j&aacute; est&aacute;vamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.Houve coisas, Fabr&iacute;cio, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.Eu n&atilde;o aceito isso, n&atilde;o sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confus&atilde;o que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, n&atilde;o tenho paz!Um abra&ccedil;o,Silvia&quot;Ol&aacute;, S&iacute;lvia!Revolto-me com m&atilde;es que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separa&ccedil;&atilde;o. Que abusam da inoc&ecirc;ncia das crian&ccedil;as para gerar ressentimento. Que n&atilde;o s&atilde;o capazes de separar a maternidade da filia&ccedil;&atilde;o, a paternidade da responsabilidade com os filhos.Vamos por partes, com calma. Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no in&iacute;cio do relacionamento, mas n&atilde;o significa que roubou o marido de ningu&eacute;m. Ele se deu a voc&ecirc;. Ele permitiu que voc&ecirc; entrasse na identidade dele. A sedu&ccedil;&atilde;o e a escolha foram m&uacute;tuas. Portanto, ele deve defend&ecirc;-la de toda e qualquer rejei&ccedil;&atilde;o.N&atilde;o lamentar apenas as cis&otilde;es, e sim mostrar aos filhos quem &eacute; a sua nova mulher, abrir espa&ccedil;o, salvaguard&aacute;-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, n&atilde;o o contr&aacute;rio. Posso garantir: n&atilde;o destruiu a fam&iacute;lia dele, ampliou a fam&iacute;lia. Existem suas crian&ccedil;as e as crian&ccedil;as dele. &Eacute; uma nova rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a e aproxima&ccedil;&atilde;o. Se os amigos se afastam, ele tamb&eacute;m precisa se afastar dos amigos e n&atilde;o ir a compromissos que excluam o casal. Isso &eacute; ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confian&ccedil;a e a possibilidade de conviv&ecirc;ncia. Ele n&atilde;o pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, por&eacute;m determinado e taxativo. Indigno &eacute; algu&eacute;m que n&atilde;o luta por seu amor, mesmo que as circunst&acirc;ncias sejam desfavor&aacute;veis. &Eacute; natural que se veja sufocada de culpa. Est&aacute; asfixiada de cobran&ccedil;as, sem encontrar sa&iacute;da para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confus&atilde;o n&atilde;o lhe dar&aacute; paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convic&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; ele que est&aacute; empregando o pretexto dos filhos para n&atilde;o sair de perto da ex-mulher? Fa&ccedil;o uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele n&atilde;o est&aacute; discordando. Ser&aacute; que o constrangimento n&atilde;o parte do seu marido? N&atilde;o pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos dem&ocirc;nios do passado. Pense bem: quando voc&ecirc; se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de fam&iacute;lia? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha n&atilde;o existe com voc&ecirc;. Ter&atilde;o que criar uma outra vida juntos.Envie carta com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br
A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIMArte de Allen JonesDo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Prezado Fabr&iacute;cio, Seus pr&eacute;stimos me foram muit&iacute;ssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a quest&atilde;o que passo a expor.Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abra&ccedil;os dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.A ex-mulher dele tem criado in&uacute;meros problemas com os filhos. Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele est&atilde;o ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois n&atilde;o v&atilde;o &agrave; nossa casa, negam-se a me conhecer.Al&eacute;m disso, &eacute; incr&iacute;vel a rejei&ccedil;&atilde;o social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que n&atilde;o se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhec&iacute;amos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles n&atilde;o querem a presen&ccedil;a dele.Disso tudo parece que sou uma pessoa execr&aacute;vel, mas isso n&atilde;o &eacute; verdade. Eu trabalho duro, venho de uma fam&iacute;lia decente, cuido das minhas filhas. O &uacute;nico &quot;pecado&quot; que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam at&eacute; apre&ccedil;o e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.Al&eacute;m de tudo isso (falat&oacute;rio, problemas com filhos e rejei&ccedil;&atilde;o de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E n&atilde;o aceito, at&eacute; hoje, saber que ele, durante o per&iacute;odo em que j&aacute; est&aacute;vamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.Houve coisas, Fabr&iacute;cio, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.Eu n&atilde;o aceito isso, n&atilde;o sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confus&atilde;o que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, n&atilde;o tenho paz!Um abra&ccedil;o,Silvia&quot;Ol&aacute;, S&iacute;lvia!Revolto-me com m&atilde;es que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separa&ccedil;&atilde;o. Que abusam da inoc&ecirc;ncia das crian&ccedil;as para gerar ressentimento. Que n&atilde;o s&atilde;o capazes de separar a maternidade da filia&ccedil;&atilde;o, a paternidade da responsabilidade com os filhos.Vamos por partes, com calma. Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no in&iacute;cio do relacionamento, mas n&atilde;o significa que roubou o marido de ningu&eacute;m. Ele se deu a voc&ecirc;. Ele permitiu que voc&ecirc; entrasse na identidade dele. A sedu&ccedil;&atilde;o e a escolha foram m&uacute;tuas. Portanto, ele deve defend&ecirc;-la de toda e qualquer rejei&ccedil;&atilde;o.N&atilde;o lamentar apenas as cis&otilde;es, e sim mostrar aos filhos quem &eacute; a sua nova mulher, abrir espa&ccedil;o, salvaguard&aacute;-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, n&atilde;o o contr&aacute;rio. Posso garantir: n&atilde;o destruiu a fam&iacute;lia dele, ampliou a fam&iacute;lia. Existem suas crian&ccedil;as e as crian&ccedil;as dele. &Eacute; uma nova rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a e aproxima&ccedil;&atilde;o. Se os amigos se afastam, ele tamb&eacute;m precisa se afastar dos amigos e n&atilde;o ir a compromissos que excluam o casal. Isso &eacute; ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confian&ccedil;a e a possibilidade de conviv&ecirc;ncia. Ele n&atilde;o pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, por&eacute;m determinado e taxativo. Indigno &eacute; algu&eacute;m que n&atilde;o luta por seu amor, mesmo que as circunst&acirc;ncias sejam desfavor&aacute;veis. &Eacute; natural que se veja sufocada de culpa. Est&aacute; asfixiada de cobran&ccedil;as, sem encontrar sa&iacute;da para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confus&atilde;o n&atilde;o lhe dar&aacute; paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convic&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; ele que est&aacute; empregando o pretexto dos filhos para n&atilde;o sair de perto da ex-mulher? Fa&ccedil;o uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele n&atilde;o est&aacute; discordando. Ser&aacute; que o constrangimento n&atilde;o parte do seu marido? N&atilde;o pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos dem&ocirc;nios do passado. Pense bem: quando voc&ecirc; se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de fam&iacute;lia? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha n&atilde;o existe com voc&ecirc;. Ter&atilde;o que criar uma outra vida juntos.Envie carta com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br]]&gt;
A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIMArte de Allen JonesDo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Prezado Fabr&iacute;cio, Seus pr&eacute;stimos me foram muit&iacute;ssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a quest&atilde;o que passo a expor.Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abra&ccedil;os dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.A ex-mulher dele tem criado in&uacute;meros problemas com os filhos. Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele est&atilde;o ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois n&atilde;o v&atilde;o &agrave; nossa casa, negam-se a me conhecer.Al&eacute;m disso, &eacute; incr&iacute;vel a rejei&ccedil;&atilde;o social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que n&atilde;o se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhec&iacute;amos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles n&atilde;o querem a presen&ccedil;a dele.Disso tudo parece que sou uma pessoa execr&aacute;vel, mas isso n&atilde;o &eacute; verdade. Eu trabalho duro, venho de uma fam&iacute;lia decente, cuido das minhas filhas. O &uacute;nico &quot;pecado&quot; que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam at&eacute; apre&ccedil;o e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.Al&eacute;m de tudo isso (falat&oacute;rio, problemas com filhos e rejei&ccedil;&atilde;o de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E n&atilde;o aceito, at&eacute; hoje, saber que ele, durante o per&iacute;odo em que j&aacute; est&aacute;vamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.Houve coisas, Fabr&iacute;cio, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.Eu n&atilde;o aceito isso, n&atilde;o sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confus&atilde;o que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, n&atilde;o tenho paz!Um abra&ccedil;o,Silvia&quot;Ol&aacute;, S&iacute;lvia!Revolto-me com m&atilde;es que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separa&ccedil;&atilde;o. Que abusam da inoc&ecirc;ncia das crian&ccedil;as para gerar ressentimento. Que n&atilde;o s&atilde;o capazes de separar a maternidade da filia&ccedil;&atilde;o, a paternidade da responsabilidade com os filhos.Vamos por partes, com calma. Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no in&iacute;cio do relacionamento, mas n&atilde;o significa que roubou o marido de ningu&eacute;m. Ele se deu a voc&ecirc;. Ele permitiu que voc&ecirc; entrasse na identidade dele. A sedu&ccedil;&atilde;o e a escolha foram m&uacute;tuas. Portanto, ele deve defend&ecirc;-la de toda e qualquer rejei&ccedil;&atilde;o.N&atilde;o lamentar apenas as cis&otilde;es, e sim mostrar aos filhos quem &eacute; a sua nova mulher, abrir espa&ccedil;o, salvaguard&aacute;-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, n&atilde;o o contr&aacute;rio. Posso garantir: n&atilde;o destruiu a fam&iacute;lia dele, ampliou a fam&iacute;lia. Existem suas crian&ccedil;as e as crian&ccedil;as dele. &Eacute; uma nova rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a e aproxima&ccedil;&atilde;o. Se os amigos se afastam, ele tamb&eacute;m precisa se afastar dos amigos e n&atilde;o ir a compromissos que excluam o casal. Isso &eacute; ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confian&ccedil;a e a possibilidade de conviv&ecirc;ncia. Ele n&atilde;o pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, por&eacute;m determinado e taxativo. Indigno &eacute; algu&eacute;m que n&atilde;o luta por seu amor, mesmo que as circunst&acirc;ncias sejam desfavor&aacute;veis. &Eacute; natural que se veja sufocada de culpa. Est&aacute; asfixiada de cobran&ccedil;as, sem encontrar sa&iacute;da para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confus&atilde;o n&atilde;o lhe dar&aacute; paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convic&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; ele que est&aacute; empregando o pretexto dos filhos para n&atilde;o sair de perto da ex-mulher? Fa&ccedil;o uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele n&atilde;o est&aacute; discordando. Ser&aacute; que o constrangimento n&atilde;o parte do seu marido? N&atilde;o pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos dem&ocirc;nios do passado. Pense bem: quando voc&ecirc; se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de fam&iacute;lia? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha n&atilde;o existe com voc&ecirc;. Ter&atilde;o que criar uma outra vida juntos.Envie carta com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39211418
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11/24/2006 09:44:24 PM



FRANQUEZA PARA MACHUCARPintura de Allen Jones Fabr&iacute;cio CarpinejarOs casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e n&atilde;o reparam na dispers&atilde;o destrutiva. Se no come&ccedil;o ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a conviv&ecirc;ncia, tomam gosto pela agress&atilde;o gratuita. N&atilde;o que o lado bom tenha desaparecido, &eacute; que n&atilde;o tem mais gra&ccedil;a. Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. H&aacute; uma esperan&ccedil;a enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreens&atilde;o abole a ofensa, que a cumplicidade &eacute; maior do que as adversidades. N&atilde;o fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece &eacute; sempre um ou o outro. Afinal, s&atilde;o os &uacute;nicos que est&atilde;o em casa. Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discuss&atilde;o ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. Ele d&aacute; uma opini&atilde;o sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele n&atilde;o tem base moral na fam&iacute;lia para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabe&ccedil;a. Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que &eacute; a terceira vez em duas semanas que ela volta do sal&atilde;o com um novo corte. Ele p&otilde;e uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sair&aacute; desse modo rid&iacute;culo. Ela est&aacute; nervosa com as contas do cart&atilde;o e ele vem com um serm&atilde;o de que gasta o desnecess&aacute;rio, sendo que parte do superficial s&atilde;o o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. Ambos est&atilde;o jantando com amigos e a mulher confessa que &eacute; impratic&aacute;vel dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto at&eacute; o momento, quase morre de apn&eacute;ia com o drinque. Ela narra sua adolesc&ecirc;ncia e os lugares que freq&uuml;entou e o cara consegue ficar com ci&uacute;me dos fantasmas e perguntar pormenores. Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. Ela estaciona o carro numa brecha imposs&iacute;vel. Ao inv&eacute;s de elogiar, ele declara que &eacute; o m&iacute;nimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as m&atilde;os: - Ainda tem uma barriguinha. Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que n&atilde;o apaga a televis&atilde;o. Ele tenta dan&ccedil;ar, depois de in&uacute;meras reclama&ccedil;&otilde;es de que n&atilde;o se mexe em festas.- O que voc&ecirc; achou?, pergunta, euf&oacute;rico, depois da balada.  - Melhor ficar parado, ela diz, categ&oacute;rica.  A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas m&uacute;sicas gays. Os bra&ccedil;os hist&eacute;ricos e as pernas duras. Ela &eacute; convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrif&iacute;cio. Claro que ela n&atilde;o se diverte, termina entretendo o marido que n&atilde;o deseja se enturmar. Os casais n&atilde;o necessitam se bajular, mentir, simular quando n&atilde;o se tem vontade. Mas &eacute; masoquismo n&atilde;o deixar que o desejo se torne mem&oacute;ria, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ningu&eacute;m ajudar&aacute; sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. Intimidade &eacute; gentileza. 
FRANQUEZA PARA MACHUCARPintura de Allen Jones Fabr&iacute;cio CarpinejarOs casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e n&atilde;o reparam na dispers&atilde;o destrutiva. Se no come&ccedil;o ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a conviv&ecirc;ncia, tomam gosto pela agress&atilde;o gratuita. N&atilde;o que o lado bom tenha desaparecido, &eacute; que n&atilde;o tem mais gra&ccedil;a. Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. H&aacute; uma esperan&ccedil;a enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreens&atilde;o abole a ofensa, que a cumplicidade &eacute; maior do que as adversidades. N&atilde;o fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece &eacute; sempre um ou o outro. Afinal, s&atilde;o os &uacute;nicos que est&atilde;o em casa. Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discuss&atilde;o ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. Ele d&aacute; uma opini&atilde;o sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele n&atilde;o tem base moral na fam&iacute;lia para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabe&ccedil;a. Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que &eacute; a terceira vez em duas semanas que ela volta do sal&atilde;o com um novo corte. Ele p&otilde;e uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sair&aacute; desse modo rid&iacute;culo. Ela est&aacute; nervosa com as contas do cart&atilde;o e ele vem com um serm&atilde;o de que gasta o desnecess&aacute;rio, sendo que parte do superficial s&atilde;o o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. Ambos est&atilde;o jantando com amigos e a mulher confessa que &eacute; impratic&aacute;vel dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto at&eacute; o momento, quase morre de apn&eacute;ia com o drinque. Ela narra sua adolesc&ecirc;ncia e os lugares que freq&uuml;entou e o cara consegue ficar com ci&uacute;me dos fantasmas e perguntar pormenores. Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. Ela estaciona o carro numa brecha imposs&iacute;vel. Ao inv&eacute;s de elogiar, ele declara que &eacute; o m&iacute;nimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as m&atilde;os: - Ainda tem uma barriguinha. Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que n&atilde;o apaga a televis&atilde;o. Ele tenta dan&ccedil;ar, depois de in&uacute;meras reclama&ccedil;&otilde;es de que n&atilde;o se mexe em festas.- O que voc&ecirc; achou?, pergunta, euf&oacute;rico, depois da balada.  - Melhor ficar parado, ela diz, categ&oacute;rica.  A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas m&uacute;sicas gays. Os bra&ccedil;os hist&eacute;ricos e as pernas duras. Ela &eacute; convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrif&iacute;cio. Claro que ela n&atilde;o se diverte, termina entretendo o marido que n&atilde;o deseja se enturmar. Os casais n&atilde;o necessitam se bajular, mentir, simular quando n&atilde;o se tem vontade. Mas &eacute; masoquismo n&atilde;o deixar que o desejo se torne mem&oacute;ria, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ningu&eacute;m ajudar&aacute; sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. Intimidade &eacute; gentileza. ]]&gt;
FRANQUEZA PARA MACHUCARPintura de Allen Jones Fabr&iacute;cio CarpinejarOs casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e n&atilde;o reparam na dispers&atilde;o destrutiva. Se no come&ccedil;o ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a conviv&ecirc;ncia, tomam gosto pela agress&atilde;o gratuita. N&atilde;o que o lado bom tenha desaparecido, &eacute; que n&atilde;o tem mais gra&ccedil;a. Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. H&aacute; uma esperan&ccedil;a enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreens&atilde;o abole a ofensa, que a cumplicidade &eacute; maior do que as adversidades. N&atilde;o fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece &eacute; sempre um ou o outro. Afinal, s&atilde;o os &uacute;nicos que est&atilde;o em casa. Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discuss&atilde;o ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. Ele d&aacute; uma opini&atilde;o sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele n&atilde;o tem base moral na fam&iacute;lia para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabe&ccedil;a. Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que &eacute; a terceira vez em duas semanas que ela volta do sal&atilde;o com um novo corte. Ele p&otilde;e uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sair&aacute; desse modo rid&iacute;culo. Ela est&aacute; nervosa com as contas do cart&atilde;o e ele vem com um serm&atilde;o de que gasta o desnecess&aacute;rio, sendo que parte do superficial s&atilde;o o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. Ambos est&atilde;o jantando com amigos e a mulher confessa que &eacute; impratic&aacute;vel dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto at&eacute; o momento, quase morre de apn&eacute;ia com o drinque. Ela narra sua adolesc&ecirc;ncia e os lugares que freq&uuml;entou e o cara consegue ficar com ci&uacute;me dos fantasmas e perguntar pormenores. Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. Ela estaciona o carro numa brecha imposs&iacute;vel. Ao inv&eacute;s de elogiar, ele declara que &eacute; o m&iacute;nimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as m&atilde;os: - Ainda tem uma barriguinha. Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que n&atilde;o apaga a televis&atilde;o. Ele tenta dan&ccedil;ar, depois de in&uacute;meras reclama&ccedil;&otilde;es de que n&atilde;o se mexe em festas.- O que voc&ecirc; achou?, pergunta, euf&oacute;rico, depois da balada.  - Melhor ficar parado, ela diz, categ&oacute;rica.  A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas m&uacute;sicas gays. Os bra&ccedil;os hist&eacute;ricos e as pernas duras. Ela &eacute; convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrif&iacute;cio. Claro que ela n&atilde;o se diverte, termina entretendo o marido que n&atilde;o deseja se enturmar. Os casais n&atilde;o necessitam se bajular, mentir, simular quando n&atilde;o se tem vontade. Mas &eacute; masoquismo n&atilde;o deixar que o desejo se torne mem&oacute;ria, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ningu&eacute;m ajudar&aacute; sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. Intimidade &eacute; gentileza. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39209787
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11/24/2006 10:56:32 AM



&Eacute; neste domingo (26/11), a partir das 15h, o lan&ccedil;amento de meu livro infantil &quot;Filhote de cruz-credo&quot; (Girafa), ilustrado pelo amigo Rodrigo Rosa. Ser&aacute; na Fnac Pinheiro (Pra&ccedil;a dos Omagu&aacute;s, 34 Pinheiros), em S&atilde;o Paulo. A atriz Kiara Terra, do grupo Hist&oacute;ria Aberta, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha inf&acirc;ncia espera por voc&ecirc;s.  A sess&atilde;o de aut&oacute;grafos de Porto Alegre (RS) est&aacute; prevista para 16/12, &agrave;s 17h, na Livraria do Arvoredo (Rua Felix da Cunha, 1213).
&Eacute; neste domingo (26/11), a partir das 15h, o lan&ccedil;amento de meu livro infantil &quot;Filhote de cruz-credo&quot; (Girafa), ilustrado pelo amigo Rodrigo Rosa. Ser&aacute; na Fnac Pinheiro (Pra&ccedil;a dos Omagu&aacute;s, 34 Pinheiros), em S&atilde;o Paulo. A atriz Kiara Terra, do grupo Hist&oacute;ria Aberta, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha inf&acirc;ncia espera por voc&ecirc;s.  A sess&atilde;o de aut&oacute;grafos de Porto Alegre (RS) est&aacute; prevista para 16/12, &agrave;s 17h, na Livraria do Arvoredo (Rua Felix da Cunha, 1213).]]&gt;
&Eacute; neste domingo (26/11), a partir das 15h, o lan&ccedil;amento de meu livro infantil &quot;Filhote de cruz-credo&quot; (Girafa), ilustrado pelo amigo Rodrigo Rosa. Ser&aacute; na Fnac Pinheiro (Pra&ccedil;a dos Omagu&aacute;s, 34 Pinheiros), em S&atilde;o Paulo. A atriz Kiara Terra, do grupo Hist&oacute;ria Aberta, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha inf&acirc;ncia espera por voc&ecirc;s.  A sess&atilde;o de aut&oacute;grafos de Porto Alegre (RS) est&aacute; prevista para 16/12, &agrave;s 17h, na Livraria do Arvoredo (Rua Felix da Cunha, 1213).]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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11/24/2006 08:02:23 AM



DESABAFOPintura de Allen JonesFabr&iacute;cio CarpinejarLevante a m&atilde;o quem n&atilde;o quer um amor ego&iacute;sta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que n&atilde;o pe&ccedil;a licen&ccedil;a, que n&atilde;o fale bom-dia? Um amor que esque&ccedil;a o passado e d&ecirc; de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insufici&ecirc;ncia? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem n&atilde;o quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ileg&iacute;vel aos colegas? Um amor que n&atilde;o fa&ccedil;a pensar em outra coisa al&eacute;m dele?N&atilde;o invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor n&atilde;o &eacute; priva&ccedil;&atilde;o. Confort&aacute;vel amar uma mulher isolada de seu contexto. Lev&aacute;-la para um lugar longe do inc&ocirc;modo, uma praia ou uma serra, ench&ecirc;-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar press&aacute;gios e fugir com o vento. N&atilde;o preciso me isolar para amar, amo para me reunir. &Eacute; confort&aacute;vel ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da dist&acirc;ncia. Sem o respeito da saudade.&Aacute;rduo e puro &eacute; ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do m&ecirc;s, e encontrar um jeito de n&atilde;o amaldi&ccedil;oar a rotina. Ser gentil apesar das express&otilde;es cortadas e do apuro. Um amante que fecha as portas dos arm&aacute;rios e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. Confort&aacute;vel amar sem conv&iacute;vio com os defeitos. Sem as circunst&acirc;ncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.Sou contra lua-de-mel. Sou favor&aacute;vel ao mel do p&atilde;o, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a l&iacute;ngua no c&eacute;u da boca. Os l&aacute;bios abelhando asas pelo rosto. N&atilde;o concordo que no amor tudo &eacute; permitido. Amor n&atilde;o quebra a regra, o amor cria as regras. N&atilde;o concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paci&ecirc;ncia, sobe as escadas e bate a campainha. Se n&atilde;o tiver ningu&eacute;m, espera. O amor &eacute; simples e &oacute;bvio, que n&atilde;o sobra muito para contar depois dele. O amor n&atilde;o &eacute; para ser desmemoriado. Tem passado. Tem &aacute;lbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. Amor nunca dir&aacute;: que os outros se danem. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. At&eacute; com os outros que n&atilde;o chegaram a tempo de v&ecirc;-lo amando. Vai se importar com a opini&atilde;o dos pais, dos av&oacute;s e, inclusive, dos mortos. Amor n&atilde;o demite, n&atilde;o despeja, n&atilde;o exclui. Amor &eacute; incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus h&aacute;bitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adapta&ccedil;&atilde;o. Seus problemas. Suas reclama&ccedil;&otilde;es. &Eacute; amar o que n&atilde;o se amava, aprender a amar as verduras no prato.N&atilde;o confie nisso que chamam de paix&atilde;o. N&atilde;o &eacute; amor.  &Eacute; uma maneira certa de nunca chegar a ele. 
DESABAFOPintura de Allen JonesFabr&iacute;cio CarpinejarLevante a m&atilde;o quem n&atilde;o quer um amor ego&iacute;sta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que n&atilde;o pe&ccedil;a licen&ccedil;a, que n&atilde;o fale bom-dia? Um amor que esque&ccedil;a o passado e d&ecirc; de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insufici&ecirc;ncia? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem n&atilde;o quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ileg&iacute;vel aos colegas? Um amor que n&atilde;o fa&ccedil;a pensar em outra coisa al&eacute;m dele?N&atilde;o invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor n&atilde;o &eacute; priva&ccedil;&atilde;o. Confort&aacute;vel amar uma mulher isolada de seu contexto. Lev&aacute;-la para um lugar longe do inc&ocirc;modo, uma praia ou uma serra, ench&ecirc;-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar press&aacute;gios e fugir com o vento. N&atilde;o preciso me isolar para amar, amo para me reunir. &Eacute; confort&aacute;vel ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da dist&acirc;ncia. Sem o respeito da saudade.&Aacute;rduo e puro &eacute; ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do m&ecirc;s, e encontrar um jeito de n&atilde;o amaldi&ccedil;oar a rotina. Ser gentil apesar das express&otilde;es cortadas e do apuro. Um amante que fecha as portas dos arm&aacute;rios e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. Confort&aacute;vel amar sem conv&iacute;vio com os defeitos. Sem as circunst&acirc;ncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.Sou contra lua-de-mel. Sou favor&aacute;vel ao mel do p&atilde;o, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a l&iacute;ngua no c&eacute;u da boca. Os l&aacute;bios abelhando asas pelo rosto. N&atilde;o concordo que no amor tudo &eacute; permitido. Amor n&atilde;o quebra a regra, o amor cria as regras. N&atilde;o concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paci&ecirc;ncia, sobe as escadas e bate a campainha. Se n&atilde;o tiver ningu&eacute;m, espera. O amor &eacute; simples e &oacute;bvio, que n&atilde;o sobra muito para contar depois dele. O amor n&atilde;o &eacute; para ser desmemoriado. Tem passado. Tem &aacute;lbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. Amor nunca dir&aacute;: que os outros se danem. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. At&eacute; com os outros que n&atilde;o chegaram a tempo de v&ecirc;-lo amando. Vai se importar com a opini&atilde;o dos pais, dos av&oacute;s e, inclusive, dos mortos. Amor n&atilde;o demite, n&atilde;o despeja, n&atilde;o exclui. Amor &eacute; incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus h&aacute;bitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adapta&ccedil;&atilde;o. Seus problemas. Suas reclama&ccedil;&otilde;es. &Eacute; amar o que n&atilde;o se amava, aprender a amar as verduras no prato.N&atilde;o confie nisso que chamam de paix&atilde;o. N&atilde;o &eacute; amor.  &Eacute; uma maneira certa de nunca chegar a ele. ]]&gt;
DESABAFOPintura de Allen JonesFabr&iacute;cio CarpinejarLevante a m&atilde;o quem n&atilde;o quer um amor ego&iacute;sta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que n&atilde;o pe&ccedil;a licen&ccedil;a, que n&atilde;o fale bom-dia? Um amor que esque&ccedil;a o passado e d&ecirc; de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insufici&ecirc;ncia? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem n&atilde;o quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ileg&iacute;vel aos colegas? Um amor que n&atilde;o fa&ccedil;a pensar em outra coisa al&eacute;m dele?N&atilde;o invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor n&atilde;o &eacute; priva&ccedil;&atilde;o. Confort&aacute;vel amar uma mulher isolada de seu contexto. Lev&aacute;-la para um lugar longe do inc&ocirc;modo, uma praia ou uma serra, ench&ecirc;-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar press&aacute;gios e fugir com o vento. N&atilde;o preciso me isolar para amar, amo para me reunir. &Eacute; confort&aacute;vel ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da dist&acirc;ncia. Sem o respeito da saudade.&Aacute;rduo e puro &eacute; ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do m&ecirc;s, e encontrar um jeito de n&atilde;o amaldi&ccedil;oar a rotina. Ser gentil apesar das express&otilde;es cortadas e do apuro. Um amante que fecha as portas dos arm&aacute;rios e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. Confort&aacute;vel amar sem conv&iacute;vio com os defeitos. Sem as circunst&acirc;ncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.Sou contra lua-de-mel. Sou favor&aacute;vel ao mel do p&atilde;o, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a l&iacute;ngua no c&eacute;u da boca. Os l&aacute;bios abelhando asas pelo rosto. N&atilde;o concordo que no amor tudo &eacute; permitido. Amor n&atilde;o quebra a regra, o amor cria as regras. N&atilde;o concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paci&ecirc;ncia, sobe as escadas e bate a campainha. Se n&atilde;o tiver ningu&eacute;m, espera. O amor &eacute; simples e &oacute;bvio, que n&atilde;o sobra muito para contar depois dele. O amor n&atilde;o &eacute; para ser desmemoriado. Tem passado. Tem &aacute;lbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. Amor nunca dir&aacute;: que os outros se danem. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. At&eacute; com os outros que n&atilde;o chegaram a tempo de v&ecirc;-lo amando. Vai se importar com a opini&atilde;o dos pais, dos av&oacute;s e, inclusive, dos mortos. Amor n&atilde;o demite, n&atilde;o despeja, n&atilde;o exclui. Amor &eacute; incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus h&aacute;bitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adapta&ccedil;&atilde;o. Seus problemas. Suas reclama&ccedil;&otilde;es. &Eacute; amar o que n&atilde;o se amava, aprender a amar as verduras no prato.N&atilde;o confie nisso que chamam de paix&atilde;o. N&atilde;o &eacute; amor.  &Eacute; uma maneira certa de nunca chegar a ele. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39206155
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11/22/2006 08:51:58 PM



LANCHERIA CAF&Eacute; DA MANH&Atilde;Pintura de Emil NoldeFabr&iacute;cio CarpinejarQuando n&atilde;o tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas &agrave;s rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote. Vou comprar frutas, mais lento. Tenho d&oacute; das que est&atilde;o estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que n&atilde;o me junto a elas. Presto aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s palavras do cobrador de &ocirc;nibus, como se ele fosse uma mensageiro involunt&aacute;rio. Estou sempre esperando uma senha, um s&iacute;mbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, &aacute;rvores. Qualquer apari&ccedil;&atilde;o faz sentido: um c&atilde;o estranho lambendo minha m&atilde;o, um gato olhando para tr&aacute;s na linha dos muros, um p&aacute;ssaro que atravessa as janelas de casa por dentro. Os olhos se embaralham em cartas de tar&ocirc;. Fio-me na adivinha&ccedil;&atilde;o e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro. Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. N&atilde;o &eacute; a resid&ecirc;ncia materna, como era de se esperar. &Eacute; o boteco Caf&eacute; da Manh&atilde;, que n&atilde;o muda seu card&aacute;pio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balc&atilde;o. Nada de mesas, nada de observar as cal&ccedil;adas no mesmo n&iacute;vel. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimenta&ccedil;&atilde;o dos atendentes. Sou um solit&aacute;rio acompanhado. Um solit&aacute;rio acompanhado de solit&aacute;rios em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou n&atilde;o, vejo-me como um guarda-chuva. &Eacute; f&aacute;cil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali n&atilde;o!: sou um chap&eacute;u que n&atilde;o perde a forma e n&atilde;o se mistura com os demais nos ganchos.Pe&ccedil;o um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos s&atilde;o os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: &eacute; isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental. Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e n&atilde;o deixei de freq&uuml;entar. &Eacute; minha igreja, meu confession&aacute;rio. Estou em paz - prevejo o que acontecer&aacute; nos pr&oacute;ximos minutos. O suco n&atilde;o vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio at&eacute; as bordas. Posso me servir do pr&oacute;prio cansa&ccedil;o da polpa. S&oacute; dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes n&atilde;o envelhecem, n&atilde;o h&aacute; como risc&aacute;-las e diminu&iacute;-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que n&atilde;o cresci. Pago R$ 6 para reencontrar a minha solid&atilde;o. 
LANCHERIA CAF&Eacute; DA MANH&Atilde;Pintura de Emil NoldeFabr&iacute;cio CarpinejarQuando n&atilde;o tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas &agrave;s rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote. Vou comprar frutas, mais lento. Tenho d&oacute; das que est&atilde;o estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que n&atilde;o me junto a elas. Presto aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s palavras do cobrador de &ocirc;nibus, como se ele fosse uma mensageiro involunt&aacute;rio. Estou sempre esperando uma senha, um s&iacute;mbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, &aacute;rvores. Qualquer apari&ccedil;&atilde;o faz sentido: um c&atilde;o estranho lambendo minha m&atilde;o, um gato olhando para tr&aacute;s na linha dos muros, um p&aacute;ssaro que atravessa as janelas de casa por dentro. Os olhos se embaralham em cartas de tar&ocirc;. Fio-me na adivinha&ccedil;&atilde;o e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro. Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. N&atilde;o &eacute; a resid&ecirc;ncia materna, como era de se esperar. &Eacute; o boteco Caf&eacute; da Manh&atilde;, que n&atilde;o muda seu card&aacute;pio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balc&atilde;o. Nada de mesas, nada de observar as cal&ccedil;adas no mesmo n&iacute;vel. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimenta&ccedil;&atilde;o dos atendentes. Sou um solit&aacute;rio acompanhado. Um solit&aacute;rio acompanhado de solit&aacute;rios em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou n&atilde;o, vejo-me como um guarda-chuva. &Eacute; f&aacute;cil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali n&atilde;o!: sou um chap&eacute;u que n&atilde;o perde a forma e n&atilde;o se mistura com os demais nos ganchos.Pe&ccedil;o um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos s&atilde;o os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: &eacute; isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental. Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e n&atilde;o deixei de freq&uuml;entar. &Eacute; minha igreja, meu confession&aacute;rio. Estou em paz - prevejo o que acontecer&aacute; nos pr&oacute;ximos minutos. O suco n&atilde;o vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio at&eacute; as bordas. Posso me servir do pr&oacute;prio cansa&ccedil;o da polpa. S&oacute; dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes n&atilde;o envelhecem, n&atilde;o h&aacute; como risc&aacute;-las e diminu&iacute;-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que n&atilde;o cresci. Pago R$ 6 para reencontrar a minha solid&atilde;o. ]]&gt;
LANCHERIA CAF&Eacute; DA MANH&Atilde;Pintura de Emil NoldeFabr&iacute;cio CarpinejarQuando n&atilde;o tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas &agrave;s rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote. Vou comprar frutas, mais lento. Tenho d&oacute; das que est&atilde;o estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que n&atilde;o me junto a elas. Presto aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s palavras do cobrador de &ocirc;nibus, como se ele fosse uma mensageiro involunt&aacute;rio. Estou sempre esperando uma senha, um s&iacute;mbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, &aacute;rvores. Qualquer apari&ccedil;&atilde;o faz sentido: um c&atilde;o estranho lambendo minha m&atilde;o, um gato olhando para tr&aacute;s na linha dos muros, um p&aacute;ssaro que atravessa as janelas de casa por dentro. Os olhos se embaralham em cartas de tar&ocirc;. Fio-me na adivinha&ccedil;&atilde;o e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro. Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. N&atilde;o &eacute; a resid&ecirc;ncia materna, como era de se esperar. &Eacute; o boteco Caf&eacute; da Manh&atilde;, que n&atilde;o muda seu card&aacute;pio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balc&atilde;o. Nada de mesas, nada de observar as cal&ccedil;adas no mesmo n&iacute;vel. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimenta&ccedil;&atilde;o dos atendentes. Sou um solit&aacute;rio acompanhado. Um solit&aacute;rio acompanhado de solit&aacute;rios em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou n&atilde;o, vejo-me como um guarda-chuva. &Eacute; f&aacute;cil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali n&atilde;o!: sou um chap&eacute;u que n&atilde;o perde a forma e n&atilde;o se mistura com os demais nos ganchos.Pe&ccedil;o um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos s&atilde;o os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: &eacute; isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental. Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e n&atilde;o deixei de freq&uuml;entar. &Eacute; minha igreja, meu confession&aacute;rio. Estou em paz - prevejo o que acontecer&aacute; nos pr&oacute;ximos minutos. O suco n&atilde;o vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio at&eacute; as bordas. Posso me servir do pr&oacute;prio cansa&ccedil;o da polpa. S&oacute; dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes n&atilde;o envelhecem, n&atilde;o h&aacute; como risc&aacute;-las e diminu&iacute;-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que n&atilde;o cresci. Pago R$ 6 para reencontrar a minha solid&atilde;o. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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11/22/2006 10:18:16 AM



ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIMColagem de Jean Dubuffet Do Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Oie, Carpinejar! Tudo bom?A sua fama de conselheiro amoroso est&aacute; chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, pe&ccedil;o seus conselhos para este cora&ccedil;&atilde;o sofredor.Minha hist&oacute;ria come&ccedil;a praticamente h&aacute; um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida. Ela, psic&oacute;loga, 23 anos na &eacute;poca. Come&ccedil;amos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paix&atilde;o &agrave; primeira vista. Ela n&atilde;o queria nada s&eacute;rio. Tive de ficar numa marca&ccedil;&atilde;o cerrada durante um m&ecirc;s e meio, colocando id&eacute;ias na cabe&ccedil;a dela de que era melhor assumir o namoro. Na v&eacute;spera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente j&aacute; n&atilde;o assumia o namoro. Dito e feito: come&ccedil;amos a namorar naquela data festiva. Foi um &oacute;timo presente, j&aacute; que eu estava praticamente h&aacute; dois anos sem um namoro s&eacute;rio, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos. Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.A gente gosta praticamente das mesmas coisas, divid&iacute;amos os mesmos sonhos. Eu estava no come&ccedil;o de carreira em engenharia, ela tamb&eacute;m estava no come&ccedil;o de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que t&iacute;nhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que est&aacute;vamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-rel&acirc;mpago, que a fam&iacute;lia dela n&atilde;o aceitava. No meu caso, a fam&iacute;lia dela me adorava. Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experi&ecirc;ncias amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' viv&ecirc;ncia dela.Come&ccedil;amos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela &eacute; de &Aacute;ries e eu, de Escorpi&atilde;o. &Eacute; briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu tamb&eacute;m n&atilde;o nego fogo. Se eu tinha alguma discuss&atilde;o no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde come&ccedil;ou. Se fosse t&atilde;o simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discuss&atilde;o feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo at&eacute; o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, come&ccedil;a a minha afli&ccedil;&atilde;o. Eu come&ccedil;o a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha j&aacute; praticamente desistido dela. H&aacute; tr&ecirc;s domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu n&atilde;o pedi a chance de tentar reconquist&aacute;-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha &uacute;nica rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'N&atilde;o sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de voc&ecirc;, mas n&atilde;o sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na ter&ccedil;a, mandei flores para ela. Ela n&atilde;o ligou de imediato para mim, mas tamb&eacute;m n&atilde;o estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha car&ecirc;ncia afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que est&aacute; com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Tamb&eacute;m n&atilde;o posso te negar que estou na mesma situa&ccedil;&atilde;o que ela, j&aacute; que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para n&atilde;o ficar uma coisa mais s&eacute;ria. Cara! Juro a voc&ecirc;: n&atilde;o sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de voc&ecirc;, mas ainda assim fica com outro? Ser&aacute; que &eacute; isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo?  Ela me quer ou n&atilde;o? Cara... Preciso dos seus conselhos com urg&ecirc;ncia! SOCORRO!Abra&ccedil;os,Rubens&quot;Nossa, Rubens, quanto sofrimento &agrave; toa. Eu n&atilde;o aconselho afirmar que &eacute; a mulher de sua vida, faz um dep&oacute;sito exagerado na rela&ccedil;&atilde;o. O certo &eacute; cham&aacute;-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de v&aacute;rias fases de sua vida, tanto melhor. Iniciou o namoro no papel submisso e n&atilde;o houve mudan&ccedil;a de postura. &Eacute; sempre o que vai atr&aacute;s, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela &eacute; quem manda e desmanda, define a dire&ccedil;&atilde;o e o curso da hist&oacute;ria. Deveria ter ocorrido alguma invers&atilde;o de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas raz&otilde;es. Corre no encal&ccedil;o dela como um louco e sua l&acirc;mina desorientada de palavras. Viraste um grude, que &eacute; o personagem mais abominado pela hist&oacute;ria feminina de todos os tempos. Aceit&aacute;vel sacrificar o orgulho por um amor, mas n&atilde;o a intelig&ecirc;ncia da sedu&ccedil;&atilde;o e a autonomia. Desperdi&ccedil;a energia &agrave; toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: &quot;namoricos fajutos&quot;, &quot;tapar um buraco de minha car&ecirc;ncia afetiva&quot;, etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser. N&atilde;o &eacute; mais paix&atilde;o, &eacute; sadismo. Digo mais: voc&ecirc;s criaram uma atra&ccedil;&atilde;o de gato-rato, uma fixa&ccedil;&atilde;o pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beij&aacute;-lo, mais voc&ecirc; a quer. N&atilde;o &eacute; romance, e sim uma rela&ccedil;&atilde;o de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decis&otilde;es; o poder &eacute; charme, &eacute; posse, &eacute; sexual. N&atilde;o acho que ele o ama ainda... O que identifico &eacute; tortura. Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: &quot;Ela questionava muito essa minha falta de experi&ecirc;ncias amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' viv&ecirc;ncia dela&quot;.Desde quando o n&uacute;mero de mulheres que amou significa que tem ou n&atilde;o dom&iacute;nio? Um dedo com alian&ccedil;a pode superar uma m&atilde;o de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e n&atilde;o encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona s&oacute; para carro. Corpo &eacute; qualidade. Eu desencanaria para salvar a estima. &Eacute; ela que necessita reconquist&aacute;-lo, n&atilde;o o contr&aacute;rio. Deixaria que ela sofresse um pouco. N&atilde;o necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.Envie carta com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br
ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIMColagem de Jean Dubuffet Do Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Oie, Carpinejar! Tudo bom?A sua fama de conselheiro amoroso est&aacute; chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, pe&ccedil;o seus conselhos para este cora&ccedil;&atilde;o sofredor.Minha hist&oacute;ria come&ccedil;a praticamente h&aacute; um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida. Ela, psic&oacute;loga, 23 anos na &eacute;poca. Come&ccedil;amos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paix&atilde;o &agrave; primeira vista. Ela n&atilde;o queria nada s&eacute;rio. Tive de ficar numa marca&ccedil;&atilde;o cerrada durante um m&ecirc;s e meio, colocando id&eacute;ias na cabe&ccedil;a dela de que era melhor assumir o namoro. Na v&eacute;spera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente j&aacute; n&atilde;o assumia o namoro. Dito e feito: come&ccedil;amos a namorar naquela data festiva. Foi um &oacute;timo presente, j&aacute; que eu estava praticamente h&aacute; dois anos sem um namoro s&eacute;rio, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos. Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.A gente gosta praticamente das mesmas coisas, divid&iacute;amos os mesmos sonhos. Eu estava no come&ccedil;o de carreira em engenharia, ela tamb&eacute;m estava no come&ccedil;o de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que t&iacute;nhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que est&aacute;vamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-rel&acirc;mpago, que a fam&iacute;lia dela n&atilde;o aceitava. No meu caso, a fam&iacute;lia dela me adorava. Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experi&ecirc;ncias amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' viv&ecirc;ncia dela.Come&ccedil;amos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela &eacute; de &Aacute;ries e eu, de Escorpi&atilde;o. &Eacute; briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu tamb&eacute;m n&atilde;o nego fogo. Se eu tinha alguma discuss&atilde;o no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde come&ccedil;ou. Se fosse t&atilde;o simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discuss&atilde;o feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo at&eacute; o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, come&ccedil;a a minha afli&ccedil;&atilde;o. Eu come&ccedil;o a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha j&aacute; praticamente desistido dela. H&aacute; tr&ecirc;s domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu n&atilde;o pedi a chance de tentar reconquist&aacute;-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha &uacute;nica rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'N&atilde;o sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de voc&ecirc;, mas n&atilde;o sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na ter&ccedil;a, mandei flores para ela. Ela n&atilde;o ligou de imediato para mim, mas tamb&eacute;m n&atilde;o estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha car&ecirc;ncia afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que est&aacute; com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Tamb&eacute;m n&atilde;o posso te negar que estou na mesma situa&ccedil;&atilde;o que ela, j&aacute; que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para n&atilde;o ficar uma coisa mais s&eacute;ria. Cara! Juro a voc&ecirc;: n&atilde;o sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de voc&ecirc;, mas ainda assim fica com outro? Ser&aacute; que &eacute; isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo?  Ela me quer ou n&atilde;o? Cara... Preciso dos seus conselhos com urg&ecirc;ncia! SOCORRO!Abra&ccedil;os,Rubens&quot;Nossa, Rubens, quanto sofrimento &agrave; toa. Eu n&atilde;o aconselho afirmar que &eacute; a mulher de sua vida, faz um dep&oacute;sito exagerado na rela&ccedil;&atilde;o. O certo &eacute; cham&aacute;-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de v&aacute;rias fases de sua vida, tanto melhor. Iniciou o namoro no papel submisso e n&atilde;o houve mudan&ccedil;a de postura. &Eacute; sempre o que vai atr&aacute;s, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela &eacute; quem manda e desmanda, define a dire&ccedil;&atilde;o e o curso da hist&oacute;ria. Deveria ter ocorrido alguma invers&atilde;o de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas raz&otilde;es. Corre no encal&ccedil;o dela como um louco e sua l&acirc;mina desorientada de palavras. Viraste um grude, que &eacute; o personagem mais abominado pela hist&oacute;ria feminina de todos os tempos. Aceit&aacute;vel sacrificar o orgulho por um amor, mas n&atilde;o a intelig&ecirc;ncia da sedu&ccedil;&atilde;o e a autonomia. Desperdi&ccedil;a energia &agrave; toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: &quot;namoricos fajutos&quot;, &quot;tapar um buraco de minha car&ecirc;ncia afetiva&quot;, etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser. N&atilde;o &eacute; mais paix&atilde;o, &eacute; sadismo. Digo mais: voc&ecirc;s criaram uma atra&ccedil;&atilde;o de gato-rato, uma fixa&ccedil;&atilde;o pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beij&aacute;-lo, mais voc&ecirc; a quer. N&atilde;o &eacute; romance, e sim uma rela&ccedil;&atilde;o de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decis&otilde;es; o poder &eacute; charme, &eacute; posse, &eacute; sexual. N&atilde;o acho que ele o ama ainda... O que identifico &eacute; tortura. Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: &quot;Ela questionava muito essa minha falta de experi&ecirc;ncias amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' viv&ecirc;ncia dela&quot;.Desde quando o n&uacute;mero de mulheres que amou significa que tem ou n&atilde;o dom&iacute;nio? Um dedo com alian&ccedil;a pode superar uma m&atilde;o de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e n&atilde;o encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona s&oacute; para carro. Corpo &eacute; qualidade. Eu desencanaria para salvar a estima. &Eacute; ela que necessita reconquist&aacute;-lo, n&atilde;o o contr&aacute;rio. Deixaria que ela sofresse um pouco. N&atilde;o necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.Envie carta com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br]]&gt;
ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIMColagem de Jean Dubuffet Do Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Oie, Carpinejar! Tudo bom?A sua fama de conselheiro amoroso est&aacute; chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, pe&ccedil;o seus conselhos para este cora&ccedil;&atilde;o sofredor.Minha hist&oacute;ria come&ccedil;a praticamente h&aacute; um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida. Ela, psic&oacute;loga, 23 anos na &eacute;poca. Come&ccedil;amos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paix&atilde;o &agrave; primeira vista. Ela n&atilde;o queria nada s&eacute;rio. Tive de ficar numa marca&ccedil;&atilde;o cerrada durante um m&ecirc;s e meio, colocando id&eacute;ias na cabe&ccedil;a dela de que era melhor assumir o namoro. Na v&eacute;spera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente j&aacute; n&atilde;o assumia o namoro. Dito e feito: come&ccedil;amos a namorar naquela data festiva. Foi um &oacute;timo presente, j&aacute; que eu estava praticamente h&aacute; dois anos sem um namoro s&eacute;rio, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos. Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.A gente gosta praticamente das mesmas coisas, divid&iacute;amos os mesmos sonhos. Eu estava no come&ccedil;o de carreira em engenharia, ela tamb&eacute;m estava no come&ccedil;o de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que t&iacute;nhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que est&aacute;vamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-rel&acirc;mpago, que a fam&iacute;lia dela n&atilde;o aceitava. No meu caso, a fam&iacute;lia dela me adorava. Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experi&ecirc;ncias amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' viv&ecirc;ncia dela.Come&ccedil;amos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela &eacute; de &Aacute;ries e eu, de Escorpi&atilde;o. &Eacute; briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu tamb&eacute;m n&atilde;o nego fogo. Se eu tinha alguma discuss&atilde;o no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde come&ccedil;ou. Se fosse t&atilde;o simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discuss&atilde;o feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo at&eacute; o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, come&ccedil;a a minha afli&ccedil;&atilde;o. Eu come&ccedil;o a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha j&aacute; praticamente desistido dela. H&aacute; tr&ecirc;s domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu n&atilde;o pedi a chance de tentar reconquist&aacute;-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha &uacute;nica rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'N&atilde;o sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de voc&ecirc;, mas n&atilde;o sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na ter&ccedil;a, mandei flores para ela. Ela n&atilde;o ligou de imediato para mim, mas tamb&eacute;m n&atilde;o estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha car&ecirc;ncia afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que est&aacute; com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Tamb&eacute;m n&atilde;o posso te negar que estou na mesma situa&ccedil;&atilde;o que ela, j&aacute; que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para n&atilde;o ficar uma coisa mais s&eacute;ria. Cara! Juro a voc&ecirc;: n&atilde;o sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de voc&ecirc;, mas ainda assim fica com outro? Ser&aacute; que &eacute; isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo?  Ela me quer ou n&atilde;o? Cara... Preciso dos seus conselhos com urg&ecirc;ncia! SOCORRO!Abra&ccedil;os,Rubens&quot;Nossa, Rubens, quanto sofrimento &agrave; toa. Eu n&atilde;o aconselho afirmar que &eacute; a mulher de sua vida, faz um dep&oacute;sito exagerado na rela&ccedil;&atilde;o. O certo &eacute; cham&aacute;-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de v&aacute;rias fases de sua vida, tanto melhor. Iniciou o namoro no papel submisso e n&atilde;o houve mudan&ccedil;a de postura. &Eacute; sempre o que vai atr&aacute;s, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela &eacute; quem manda e desmanda, define a dire&ccedil;&atilde;o e o curso da hist&oacute;ria. Deveria ter ocorrido alguma invers&atilde;o de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas raz&otilde;es. Corre no encal&ccedil;o dela como um louco e sua l&acirc;mina desorientada de palavras. Viraste um grude, que &eacute; o personagem mais abominado pela hist&oacute;ria feminina de todos os tempos. Aceit&aacute;vel sacrificar o orgulho por um amor, mas n&atilde;o a intelig&ecirc;ncia da sedu&ccedil;&atilde;o e a autonomia. Desperdi&ccedil;a energia &agrave; toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: &quot;namoricos fajutos&quot;, &quot;tapar um buraco de minha car&ecirc;ncia afetiva&quot;, etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser. N&atilde;o &eacute; mais paix&atilde;o, &eacute; sadismo. Digo mais: voc&ecirc;s criaram uma atra&ccedil;&atilde;o de gato-rato, uma fixa&ccedil;&atilde;o pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beij&aacute;-lo, mais voc&ecirc; a quer. N&atilde;o &eacute; romance, e sim uma rela&ccedil;&atilde;o de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decis&otilde;es; o poder &eacute; charme, &eacute; posse, &eacute; sexual. N&atilde;o acho que ele o ama ainda... O que identifico &eacute; tortura. Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: &quot;Ela questionava muito essa minha falta de experi&ecirc;ncias amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' viv&ecirc;ncia dela&quot;.Desde quando o n&uacute;mero de mulheres que amou significa que tem ou n&atilde;o dom&iacute;nio? Um dedo com alian&ccedil;a pode superar uma m&atilde;o de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e n&atilde;o encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona s&oacute; para carro. Corpo &eacute; qualidade. Eu desencanaria para salvar a estima. &Eacute; ela que necessita reconquist&aacute;-lo, n&atilde;o o contr&aacute;rio. Deixaria que ela sofresse um pouco. N&atilde;o necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.Envie carta com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39194348
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11/18/2006 09:33:56 AM



VELHO-DO-SACOPintura de Jean DubuffetFabr&iacute;cio CarpinejarTremia de horror do Velho-do-saco. O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclop&eacute;dia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, n&atilde;o funcionava o avi&atilde;ozinho. Se n&atilde;o desejava comer, algu&eacute;m inventava de apertar a campainha e meu est&ocirc;mago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A m&atilde;e suspirava diante da mudan&ccedil;a de atitude. O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava. - Crian&ccedil;as, ora bolas!A m&atilde;e respondia a seco, sem o m&iacute;nimo de complac&ecirc;ncia. Atitude esquisita para quem se mostrava sens&iacute;vel e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manh&atilde; na igreja. Demonstrava indiferen&ccedil;a com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.  O Velho-do-saco foi o primeiro seq&uuml;estrador que eu tive conhecimento. Sonhei v&aacute;rias vezes com ele e ainda desfruto de condi&ccedil;&otilde;es de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam? Ele se parece com todo mundo, por isso &eacute; o Velho-do-saco. Ele se disfar&ccedil;a dele mesmo, o que deveria confundir a localiza&ccedil;&atilde;o pela pol&iacute;cia. Agiu impunemente durante a inf&acirc;ncia inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda n&atilde;o aconteceu. Fui uma crian&ccedil;a que acompanhava o notici&aacute;rio policial. N&atilde;o pude constatar os efeitos colaterais desse h&aacute;bito precoce. O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bag&eacute; com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua aus&ecirc;ncia de bin&oacute;culo. De noite, os irm&atilde;os lembravam comigo das escala&ccedil;&otilde;es dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obriga&ccedil;&atilde;o noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o sil&ecirc;ncio era o &uacute;nico jeito de engan&aacute;-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respira&ccedil;&atilde;o e os dentes do cora&ccedil;&atilde;o mastigando o ar. Os dentes tortos do cora&ccedil;&atilde;o. Os dentes de leite do cora&ccedil;&atilde;o que nunca cederam lugar aos permanentes. Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no arm&aacute;rio, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula. Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engra&ccedil;ada: Vicente tem medo de aula de capoeira. &Eacute; um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.  
VELHO-DO-SACOPintura de Jean DubuffetFabr&iacute;cio CarpinejarTremia de horror do Velho-do-saco. O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclop&eacute;dia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, n&atilde;o funcionava o avi&atilde;ozinho. Se n&atilde;o desejava comer, algu&eacute;m inventava de apertar a campainha e meu est&ocirc;mago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A m&atilde;e suspirava diante da mudan&ccedil;a de atitude. O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava. - Crian&ccedil;as, ora bolas!A m&atilde;e respondia a seco, sem o m&iacute;nimo de complac&ecirc;ncia. Atitude esquisita para quem se mostrava sens&iacute;vel e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manh&atilde; na igreja. Demonstrava indiferen&ccedil;a com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.  O Velho-do-saco foi o primeiro seq&uuml;estrador que eu tive conhecimento. Sonhei v&aacute;rias vezes com ele e ainda desfruto de condi&ccedil;&otilde;es de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam? Ele se parece com todo mundo, por isso &eacute; o Velho-do-saco. Ele se disfar&ccedil;a dele mesmo, o que deveria confundir a localiza&ccedil;&atilde;o pela pol&iacute;cia. Agiu impunemente durante a inf&acirc;ncia inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda n&atilde;o aconteceu. Fui uma crian&ccedil;a que acompanhava o notici&aacute;rio policial. N&atilde;o pude constatar os efeitos colaterais desse h&aacute;bito precoce. O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bag&eacute; com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua aus&ecirc;ncia de bin&oacute;culo. De noite, os irm&atilde;os lembravam comigo das escala&ccedil;&otilde;es dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obriga&ccedil;&atilde;o noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o sil&ecirc;ncio era o &uacute;nico jeito de engan&aacute;-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respira&ccedil;&atilde;o e os dentes do cora&ccedil;&atilde;o mastigando o ar. Os dentes tortos do cora&ccedil;&atilde;o. Os dentes de leite do cora&ccedil;&atilde;o que nunca cederam lugar aos permanentes. Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no arm&aacute;rio, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula. Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engra&ccedil;ada: Vicente tem medo de aula de capoeira. &Eacute; um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.  ]]&gt;
VELHO-DO-SACOPintura de Jean DubuffetFabr&iacute;cio CarpinejarTremia de horror do Velho-do-saco. O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclop&eacute;dia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, n&atilde;o funcionava o avi&atilde;ozinho. Se n&atilde;o desejava comer, algu&eacute;m inventava de apertar a campainha e meu est&ocirc;mago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A m&atilde;e suspirava diante da mudan&ccedil;a de atitude. O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava. - Crian&ccedil;as, ora bolas!A m&atilde;e respondia a seco, sem o m&iacute;nimo de complac&ecirc;ncia. Atitude esquisita para quem se mostrava sens&iacute;vel e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manh&atilde; na igreja. Demonstrava indiferen&ccedil;a com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.  O Velho-do-saco foi o primeiro seq&uuml;estrador que eu tive conhecimento. Sonhei v&aacute;rias vezes com ele e ainda desfruto de condi&ccedil;&otilde;es de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam? Ele se parece com todo mundo, por isso &eacute; o Velho-do-saco. Ele se disfar&ccedil;a dele mesmo, o que deveria confundir a localiza&ccedil;&atilde;o pela pol&iacute;cia. Agiu impunemente durante a inf&acirc;ncia inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda n&atilde;o aconteceu. Fui uma crian&ccedil;a que acompanhava o notici&aacute;rio policial. N&atilde;o pude constatar os efeitos colaterais desse h&aacute;bito precoce. O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bag&eacute; com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua aus&ecirc;ncia de bin&oacute;culo. De noite, os irm&atilde;os lembravam comigo das escala&ccedil;&otilde;es dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obriga&ccedil;&atilde;o noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o sil&ecirc;ncio era o &uacute;nico jeito de engan&aacute;-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respira&ccedil;&atilde;o e os dentes do cora&ccedil;&atilde;o mastigando o ar. Os dentes tortos do cora&ccedil;&atilde;o. Os dentes de leite do cora&ccedil;&atilde;o que nunca cederam lugar aos permanentes. Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no arm&aacute;rio, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula. Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engra&ccedil;ada: Vicente tem medo de aula de capoeira. &Eacute; um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.  ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39189338
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11/16/2006 09:51:46 AM



SER&Aacute; QUE TE CONHE&Ccedil;O?Arte de Marisol EscobarFabr&iacute;cio CarpinejarN&atilde;o diga a uma mulher: &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;. Conhecendo h&aacute; tempo ou rec&eacute;m conhecendo. &Eacute; tudo o que uma mulher n&atilde;o precisa ouvir. Imagino que n&atilde;o &eacute; por mal. Que diz: &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;, como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; n&atilde;o &eacute; para ofender, mas ofende. N&atilde;o se guarda uma mulher na mem&oacute;ria, uma mulher se guarda no desejo. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; parece que &eacute; um sinal de continuidade e perman&ecirc;ncia. O homem expressa sua preocupa&ccedil;&atilde;o em fix&aacute;-la, n&atilde;o perder de vista, acompanh&aacute;-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas caracter&iacute;sticas. Funciona como uma b&oacute;ia, uma bengala, um apoio.  Apesar disso, n&atilde;o diga. Morra afogado, mas n&atilde;o diga. Caia no sil&ecirc;ncio, mas n&atilde;o diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no conv&iacute;vio do trabalho. Morda a l&iacute;ngua, n&atilde;o diga. Cerre os dentes, n&atilde;o diga. Dito uma vez vir&aacute; sempre poluir a boca. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; significa que ela est&aacute; se repetindo. A mulher n&atilde;o se repete, ela apenas n&atilde;o terminou o assunto. Significa que ela est&aacute; esgotada de mist&eacute;rios. Sem mist&eacute;rio, n&atilde;o h&aacute; vontade de descobrir mais. Significa que ela &eacute; previs&iacute;vel, soa como uma censura e advert&ecirc;ncia de que ela est&aacute; fazendo sempre igual. Significa que ela n&atilde;o tem mais nada a acrescentar. Que n&atilde;o &eacute; surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; n&atilde;o &eacute; o fim do amor, &eacute; o desamor. Uma obedi&ecirc;ncia &agrave; fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intui&ccedil;&atilde;o e o inesperado. O casal faz t&atilde;o-somente m&iacute;mica entre si. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; &eacute; encerrar algu&eacute;m dentro de uma imagem, de uma proje&ccedil;&atilde;o, de uma expectativa. &Eacute; ter a lembran&ccedil;a do corpo ao inv&eacute;s do corpo. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; &eacute; covarde. &Eacute; desistir da sedu&ccedil;&atilde;o, abandonar a cintura. N&atilde;o a conhe&ccedil;a, desconhe&ccedil;a sua mulher com toda a convic&ccedil;&atilde;o. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da m&atilde;o nos cabelos. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; torna qualquer pergunta depois desnecess&aacute;ria. N&atilde;o se defenda com &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;, desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; traz seguran&ccedil;a e conforto, n&atilde;o a verdade, a verdade muda de id&eacute;ia a cada gesto.Pensaria muito antes de dizer &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;. Pensaria uma vida. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; &eacute; arrog&acirc;ncia de saber mais do que o pr&oacute;prio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.
SER&Aacute; QUE TE CONHE&Ccedil;O?Arte de Marisol EscobarFabr&iacute;cio CarpinejarN&atilde;o diga a uma mulher: &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;. Conhecendo h&aacute; tempo ou rec&eacute;m conhecendo. &Eacute; tudo o que uma mulher n&atilde;o precisa ouvir. Imagino que n&atilde;o &eacute; por mal. Que diz: &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;, como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; n&atilde;o &eacute; para ofender, mas ofende. N&atilde;o se guarda uma mulher na mem&oacute;ria, uma mulher se guarda no desejo. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; parece que &eacute; um sinal de continuidade e perman&ecirc;ncia. O homem expressa sua preocupa&ccedil;&atilde;o em fix&aacute;-la, n&atilde;o perder de vista, acompanh&aacute;-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas caracter&iacute;sticas. Funciona como uma b&oacute;ia, uma bengala, um apoio.  Apesar disso, n&atilde;o diga. Morra afogado, mas n&atilde;o diga. Caia no sil&ecirc;ncio, mas n&atilde;o diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no conv&iacute;vio do trabalho. Morda a l&iacute;ngua, n&atilde;o diga. Cerre os dentes, n&atilde;o diga. Dito uma vez vir&aacute; sempre poluir a boca. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; significa que ela est&aacute; se repetindo. A mulher n&atilde;o se repete, ela apenas n&atilde;o terminou o assunto. Significa que ela est&aacute; esgotada de mist&eacute;rios. Sem mist&eacute;rio, n&atilde;o h&aacute; vontade de descobrir mais. Significa que ela &eacute; previs&iacute;vel, soa como uma censura e advert&ecirc;ncia de que ela est&aacute; fazendo sempre igual. Significa que ela n&atilde;o tem mais nada a acrescentar. Que n&atilde;o &eacute; surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; n&atilde;o &eacute; o fim do amor, &eacute; o desamor. Uma obedi&ecirc;ncia &agrave; fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intui&ccedil;&atilde;o e o inesperado. O casal faz t&atilde;o-somente m&iacute;mica entre si. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; &eacute; encerrar algu&eacute;m dentro de uma imagem, de uma proje&ccedil;&atilde;o, de uma expectativa. &Eacute; ter a lembran&ccedil;a do corpo ao inv&eacute;s do corpo. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; &eacute; covarde. &Eacute; desistir da sedu&ccedil;&atilde;o, abandonar a cintura. N&atilde;o a conhe&ccedil;a, desconhe&ccedil;a sua mulher com toda a convic&ccedil;&atilde;o. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da m&atilde;o nos cabelos. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; torna qualquer pergunta depois desnecess&aacute;ria. N&atilde;o se defenda com &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;, desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; traz seguran&ccedil;a e conforto, n&atilde;o a verdade, a verdade muda de id&eacute;ia a cada gesto.Pensaria muito antes de dizer &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;. Pensaria uma vida. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; &eacute; arrog&acirc;ncia de saber mais do que o pr&oacute;prio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.]]&gt;
SER&Aacute; QUE TE CONHE&Ccedil;O?Arte de Marisol EscobarFabr&iacute;cio CarpinejarN&atilde;o diga a uma mulher: &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;. Conhecendo h&aacute; tempo ou rec&eacute;m conhecendo. &Eacute; tudo o que uma mulher n&atilde;o precisa ouvir. Imagino que n&atilde;o &eacute; por mal. Que diz: &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;, como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; n&atilde;o &eacute; para ofender, mas ofende. N&atilde;o se guarda uma mulher na mem&oacute;ria, uma mulher se guarda no desejo. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; parece que &eacute; um sinal de continuidade e perman&ecirc;ncia. O homem expressa sua preocupa&ccedil;&atilde;o em fix&aacute;-la, n&atilde;o perder de vista, acompanh&aacute;-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas caracter&iacute;sticas. Funciona como uma b&oacute;ia, uma bengala, um apoio.  Apesar disso, n&atilde;o diga. Morra afogado, mas n&atilde;o diga. Caia no sil&ecirc;ncio, mas n&atilde;o diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no conv&iacute;vio do trabalho. Morda a l&iacute;ngua, n&atilde;o diga. Cerre os dentes, n&atilde;o diga. Dito uma vez vir&aacute; sempre poluir a boca. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; significa que ela est&aacute; se repetindo. A mulher n&atilde;o se repete, ela apenas n&atilde;o terminou o assunto. Significa que ela est&aacute; esgotada de mist&eacute;rios. Sem mist&eacute;rio, n&atilde;o h&aacute; vontade de descobrir mais. Significa que ela &eacute; previs&iacute;vel, soa como uma censura e advert&ecirc;ncia de que ela est&aacute; fazendo sempre igual. Significa que ela n&atilde;o tem mais nada a acrescentar. Que n&atilde;o &eacute; surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; n&atilde;o &eacute; o fim do amor, &eacute; o desamor. Uma obedi&ecirc;ncia &agrave; fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intui&ccedil;&atilde;o e o inesperado. O casal faz t&atilde;o-somente m&iacute;mica entre si. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; &eacute; encerrar algu&eacute;m dentro de uma imagem, de uma proje&ccedil;&atilde;o, de uma expectativa. &Eacute; ter a lembran&ccedil;a do corpo ao inv&eacute;s do corpo. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; &eacute; covarde. &Eacute; desistir da sedu&ccedil;&atilde;o, abandonar a cintura. N&atilde;o a conhe&ccedil;a, desconhe&ccedil;a sua mulher com toda a convic&ccedil;&atilde;o. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da m&atilde;o nos cabelos. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; torna qualquer pergunta depois desnecess&aacute;ria. N&atilde;o se defenda com &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;, desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; traz seguran&ccedil;a e conforto, n&atilde;o a verdade, a verdade muda de id&eacute;ia a cada gesto.Pensaria muito antes de dizer &quot;eu te conhe&ccedil;o&quot;. Pensaria uma vida. &quot;Eu te conhe&ccedil;o&quot; &eacute; arrog&acirc;ncia de saber mais do que o pr&oacute;prio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.]]&gt;
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11/14/2006 10:18:33 AM



SOU UM CARACTERE CHIN&Ecirc;SArte de Paul Klee Fabr&iacute;cio CarpinejarNa escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combina&ccedil;&atilde;o. Apenas cinco s&atilde;o desenhos que geram a compreens&atilde;o imediata. Os outros 20 mil s&atilde;o lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior. A escrita chinesa &eacute; casada. Os ideogramas dormem juntos. Eu sou um caractere chin&ecirc;s. Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, rom&acirc;ntico e incur&aacute;vel. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma &uacute;nica mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente cr&eacute;dulo. J&aacute; ouvi que sou ing&ecirc;nuo. Tentei ser ranzinza, c&eacute;tico e calhorda. N&atilde;o funcionou, porque n&atilde;o me interessa a realidade, interessa-me se &eacute; poss&iacute;vel. Sendo poss&iacute;vel, insisto. N&atilde;o sirvo para imitar. N&atilde;o sirvo para emprestar, dou e n&atilde;o reclamo. Dou. Sou dos homens o pior. O que n&atilde;o se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela n&atilde;o estiver em mim. Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilus&atilde;o de estar casado. Minha voz &eacute; casada, meus bra&ccedil;os s&atilde;o casados, minhas pernas s&atilde;o casadas. Sou t&atilde;o casado que subestimo a separa&ccedil;&atilde;o. Separa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o existe. O m&aacute;ximo que acontece &eacute; se afastar. N&atilde;o h&aacute; como apagar o que se avan&ccedil;ou. N&atilde;o h&aacute; como riscar o caminho da boca. A boca n&atilde;o deixa pegadas. N&atilde;o h&aacute; como eliminar o que j&aacute; faz parte do seu movimento, do seu car&aacute;ter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se &eacute; observar de longe, n&atilde;o abandonar. Quem n&atilde;o &eacute; casado por dentro nunca ser&aacute; casado por fora. &Eacute; uma escolha, n&atilde;o um estado civil. Um homem casado n&atilde;o depende de uma alian&ccedil;a para mostrar compromisso. Ele &eacute; a alian&ccedil;a.  Olho o c&eacute;u com paci&ecirc;ncia. O azul n&atilde;o me cansa. Uma ave voando n&atilde;o significa que est&aacute; partindo. Uma ave voando pode estar regressando. 
SOU UM CARACTERE CHIN&Ecirc;SArte de Paul Klee Fabr&iacute;cio CarpinejarNa escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combina&ccedil;&atilde;o. Apenas cinco s&atilde;o desenhos que geram a compreens&atilde;o imediata. Os outros 20 mil s&atilde;o lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior. A escrita chinesa &eacute; casada. Os ideogramas dormem juntos. Eu sou um caractere chin&ecirc;s. Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, rom&acirc;ntico e incur&aacute;vel. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma &uacute;nica mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente cr&eacute;dulo. J&aacute; ouvi que sou ing&ecirc;nuo. Tentei ser ranzinza, c&eacute;tico e calhorda. N&atilde;o funcionou, porque n&atilde;o me interessa a realidade, interessa-me se &eacute; poss&iacute;vel. Sendo poss&iacute;vel, insisto. N&atilde;o sirvo para imitar. N&atilde;o sirvo para emprestar, dou e n&atilde;o reclamo. Dou. Sou dos homens o pior. O que n&atilde;o se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela n&atilde;o estiver em mim. Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilus&atilde;o de estar casado. Minha voz &eacute; casada, meus bra&ccedil;os s&atilde;o casados, minhas pernas s&atilde;o casadas. Sou t&atilde;o casado que subestimo a separa&ccedil;&atilde;o. Separa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o existe. O m&aacute;ximo que acontece &eacute; se afastar. N&atilde;o h&aacute; como apagar o que se avan&ccedil;ou. N&atilde;o h&aacute; como riscar o caminho da boca. A boca n&atilde;o deixa pegadas. N&atilde;o h&aacute; como eliminar o que j&aacute; faz parte do seu movimento, do seu car&aacute;ter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se &eacute; observar de longe, n&atilde;o abandonar. Quem n&atilde;o &eacute; casado por dentro nunca ser&aacute; casado por fora. &Eacute; uma escolha, n&atilde;o um estado civil. Um homem casado n&atilde;o depende de uma alian&ccedil;a para mostrar compromisso. Ele &eacute; a alian&ccedil;a.  Olho o c&eacute;u com paci&ecirc;ncia. O azul n&atilde;o me cansa. Uma ave voando n&atilde;o significa que est&aacute; partindo. Uma ave voando pode estar regressando. ]]&gt;
SOU UM CARACTERE CHIN&Ecirc;SArte de Paul Klee Fabr&iacute;cio CarpinejarNa escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combina&ccedil;&atilde;o. Apenas cinco s&atilde;o desenhos que geram a compreens&atilde;o imediata. Os outros 20 mil s&atilde;o lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior. A escrita chinesa &eacute; casada. Os ideogramas dormem juntos. Eu sou um caractere chin&ecirc;s. Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, rom&acirc;ntico e incur&aacute;vel. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma &uacute;nica mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente cr&eacute;dulo. J&aacute; ouvi que sou ing&ecirc;nuo. Tentei ser ranzinza, c&eacute;tico e calhorda. N&atilde;o funcionou, porque n&atilde;o me interessa a realidade, interessa-me se &eacute; poss&iacute;vel. Sendo poss&iacute;vel, insisto. N&atilde;o sirvo para imitar. N&atilde;o sirvo para emprestar, dou e n&atilde;o reclamo. Dou. Sou dos homens o pior. O que n&atilde;o se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela n&atilde;o estiver em mim. Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilus&atilde;o de estar casado. Minha voz &eacute; casada, meus bra&ccedil;os s&atilde;o casados, minhas pernas s&atilde;o casadas. Sou t&atilde;o casado que subestimo a separa&ccedil;&atilde;o. Separa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o existe. O m&aacute;ximo que acontece &eacute; se afastar. N&atilde;o h&aacute; como apagar o que se avan&ccedil;ou. N&atilde;o h&aacute; como riscar o caminho da boca. A boca n&atilde;o deixa pegadas. N&atilde;o h&aacute; como eliminar o que j&aacute; faz parte do seu movimento, do seu car&aacute;ter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se &eacute; observar de longe, n&atilde;o abandonar. Quem n&atilde;o &eacute; casado por dentro nunca ser&aacute; casado por fora. &Eacute; uma escolha, n&atilde;o um estado civil. Um homem casado n&atilde;o depende de uma alian&ccedil;a para mostrar compromisso. Ele &eacute; a alian&ccedil;a.  Olho o c&eacute;u com paci&ecirc;ncia. O azul n&atilde;o me cansa. Uma ave voando n&atilde;o significa que est&aacute; partindo. Uma ave voando pode estar regressando. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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11/13/2006 12:09:01 AM



FILHOTE DE CRUZ-CREDO&quot;Um apelido s&oacute; fica se a gente n&atilde;o gosta. Quando se come&ccedil;a a brigar para n&atilde;o ter aquele apelido, a&iacute; sim as pessoas v&atilde;o nos chamar daquele nome. A melhor t&aacute;tica para n&atilde;o ficar com um apelido que n&atilde;o se gosta &eacute; n&atilde;o revidar, n&atilde;o implicar e at&eacute; aceitar. O apelido &eacute; do contra. Cal&ccedil;ava botas ortop&eacute;dicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os p&eacute;s chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes. As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol. Naquele tempo, ningu&eacute;m tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunfer&ecirc;ncia. Confiava que jogava bem futebol, que as crian&ccedil;as sa&iacute;am da minha frente porque n&atilde;o conseguiam alcan&ccedil;ar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontap&eacute; da minha bota met&aacute;lica e dentu&ccedil;a. Fazia gol, ningu&eacute;m queria se machucar.&quot;J&aacute; chegou nas livrarias meu novo livro infantil: Filhote de cruz-credo, lan&ccedil;amento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustra&ccedil;&otilde;es s&atilde;o de Rodrigo Rosa, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a hist&oacute;ria de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adapta&ccedil;&atilde;o na escola. A SESS&Atilde;O DE AUT&Oacute;GRAFOS SER&Aacute; NA FNAC/PINHEIROS EM S&Atilde;O PAULO, no domingo (26/11), a partir das 15h30, com conta&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;rias pela atriz Kiara Terra, do Hist&oacute;ria AbertaFNAC - Espa&ccedil;o InfantilPra&ccedil;a dos Omagu&aacute;s, 34 PinheirosS&atilde;o Paulo Telefone: 45013000Editora Girafinha:(11) 3258 88 78FILHOTE DE CRUZ-CREDOAutor: Fabr&iacute;cio CarpinejarIlustra&ccedil;&otilde;es: Rodrigo RosaISBN: 8599520237Editora: A GIRAFA EDITORAN&uacute;mero de p&aacute;ginas: 40Encaderna&ccedil;&atilde;o: BrochuraEdi&ccedil;&atilde;o: 2006Pre&ccedil;o: R$ 27,00  
FILHOTE DE CRUZ-CREDO&quot;Um apelido s&oacute; fica se a gente n&atilde;o gosta. Quando se come&ccedil;a a brigar para n&atilde;o ter aquele apelido, a&iacute; sim as pessoas v&atilde;o nos chamar daquele nome. A melhor t&aacute;tica para n&atilde;o ficar com um apelido que n&atilde;o se gosta &eacute; n&atilde;o revidar, n&atilde;o implicar e at&eacute; aceitar. O apelido &eacute; do contra. Cal&ccedil;ava botas ortop&eacute;dicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os p&eacute;s chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes. As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol. Naquele tempo, ningu&eacute;m tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunfer&ecirc;ncia. Confiava que jogava bem futebol, que as crian&ccedil;as sa&iacute;am da minha frente porque n&atilde;o conseguiam alcan&ccedil;ar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontap&eacute; da minha bota met&aacute;lica e dentu&ccedil;a. Fazia gol, ningu&eacute;m queria se machucar.&quot;J&aacute; chegou nas livrarias meu novo livro infantil: Filhote de cruz-credo, lan&ccedil;amento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustra&ccedil;&otilde;es s&atilde;o de Rodrigo Rosa, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a hist&oacute;ria de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adapta&ccedil;&atilde;o na escola. A SESS&Atilde;O DE AUT&Oacute;GRAFOS SER&Aacute; NA FNAC/PINHEIROS EM S&Atilde;O PAULO, no domingo (26/11), a partir das 15h30, com conta&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;rias pela atriz Kiara Terra, do Hist&oacute;ria AbertaFNAC - Espa&ccedil;o InfantilPra&ccedil;a dos Omagu&aacute;s, 34 PinheirosS&atilde;o Paulo Telefone: 45013000Editora Girafinha:(11) 3258 88 78FILHOTE DE CRUZ-CREDOAutor: Fabr&iacute;cio CarpinejarIlustra&ccedil;&otilde;es: Rodrigo RosaISBN: 8599520237Editora: A GIRAFA EDITORAN&uacute;mero de p&aacute;ginas: 40Encaderna&ccedil;&atilde;o: BrochuraEdi&ccedil;&atilde;o: 2006Pre&ccedil;o: R$ 27,00  ]]&gt;
FILHOTE DE CRUZ-CREDO&quot;Um apelido s&oacute; fica se a gente n&atilde;o gosta. Quando se come&ccedil;a a brigar para n&atilde;o ter aquele apelido, a&iacute; sim as pessoas v&atilde;o nos chamar daquele nome. A melhor t&aacute;tica para n&atilde;o ficar com um apelido que n&atilde;o se gosta &eacute; n&atilde;o revidar, n&atilde;o implicar e at&eacute; aceitar. O apelido &eacute; do contra. Cal&ccedil;ava botas ortop&eacute;dicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os p&eacute;s chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes. As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol. Naquele tempo, ningu&eacute;m tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunfer&ecirc;ncia. Confiava que jogava bem futebol, que as crian&ccedil;as sa&iacute;am da minha frente porque n&atilde;o conseguiam alcan&ccedil;ar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontap&eacute; da minha bota met&aacute;lica e dentu&ccedil;a. Fazia gol, ningu&eacute;m queria se machucar.&quot;J&aacute; chegou nas livrarias meu novo livro infantil: Filhote de cruz-credo, lan&ccedil;amento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustra&ccedil;&otilde;es s&atilde;o de Rodrigo Rosa, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a hist&oacute;ria de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adapta&ccedil;&atilde;o na escola. A SESS&Atilde;O DE AUT&Oacute;GRAFOS SER&Aacute; NA FNAC/PINHEIROS EM S&Atilde;O PAULO, no domingo (26/11), a partir das 15h30, com conta&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;rias pela atriz Kiara Terra, do Hist&oacute;ria AbertaFNAC - Espa&ccedil;o InfantilPra&ccedil;a dos Omagu&aacute;s, 34 PinheirosS&atilde;o Paulo Telefone: 45013000Editora Girafinha:(11) 3258 88 78FILHOTE DE CRUZ-CREDOAutor: Fabr&iacute;cio CarpinejarIlustra&ccedil;&otilde;es: Rodrigo RosaISBN: 8599520237Editora: A GIRAFA EDITORAN&uacute;mero de p&aacute;ginas: 40Encaderna&ccedil;&atilde;o: BrochuraEdi&ccedil;&atilde;o: 2006Pre&ccedil;o: R$ 27,00  ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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11/12/2006 02:08:32 PM



UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDAPintura de Richard DiebenkornFabr&iacute;cio CarpinejarH&aacute; homens que se imaginam com mechas loiras entre as m&atilde;os. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfar&ccedil;ados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto s&atilde;o jovens, o quanto s&atilde;o viris, o quanto s&atilde;o sedutores. Eu me pressinto com um coque grisalho entre as m&atilde;os. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho j&aacute; &eacute; jardim e quintal para o p&aacute;ssaro. Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e at&eacute; o vento respeita. Um coque ao alto, como uma l&acirc;mpada que n&atilde;o se queima, que n&atilde;o depende de escadas. N&atilde;o &eacute; nenhuma pervers&atilde;o. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus bra&ccedil;os. Fico excitado em estar com algu&eacute;m que madurou e n&atilde;o perdeu o vi&ccedil;o. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembran&ccedil;as para recuperar o desejo. A coragem de avan&ccedil;ar para tr&aacute;s, n&atilde;o terminando de musicar a mem&oacute;ria e de acrescentar datas. Um coque grisalho entre os dedos j&aacute; afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de solt&aacute;-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manh&atilde;, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo est&aacute; pronto pelo barulho f&aacute;cil do pente. As linhas dos l&aacute;bios desenhadas pelo batom suave. Nenhum esc&acirc;ndalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e n&atilde;o sacrific&aacute;-las com o julgamento. A maior aventura n&atilde;o &eacute; correr o mundo, &eacute; correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa. N&atilde;o desejo a juventude de uma mulher, desejo sua perman&ecirc;ncia. O que a faz recente n&atilde;o &eacute; o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. 
UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDAPintura de Richard DiebenkornFabr&iacute;cio CarpinejarH&aacute; homens que se imaginam com mechas loiras entre as m&atilde;os. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfar&ccedil;ados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto s&atilde;o jovens, o quanto s&atilde;o viris, o quanto s&atilde;o sedutores. Eu me pressinto com um coque grisalho entre as m&atilde;os. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho j&aacute; &eacute; jardim e quintal para o p&aacute;ssaro. Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e at&eacute; o vento respeita. Um coque ao alto, como uma l&acirc;mpada que n&atilde;o se queima, que n&atilde;o depende de escadas. N&atilde;o &eacute; nenhuma pervers&atilde;o. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus bra&ccedil;os. Fico excitado em estar com algu&eacute;m que madurou e n&atilde;o perdeu o vi&ccedil;o. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembran&ccedil;as para recuperar o desejo. A coragem de avan&ccedil;ar para tr&aacute;s, n&atilde;o terminando de musicar a mem&oacute;ria e de acrescentar datas. Um coque grisalho entre os dedos j&aacute; afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de solt&aacute;-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manh&atilde;, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo est&aacute; pronto pelo barulho f&aacute;cil do pente. As linhas dos l&aacute;bios desenhadas pelo batom suave. Nenhum esc&acirc;ndalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e n&atilde;o sacrific&aacute;-las com o julgamento. A maior aventura n&atilde;o &eacute; correr o mundo, &eacute; correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa. N&atilde;o desejo a juventude de uma mulher, desejo sua perman&ecirc;ncia. O que a faz recente n&atilde;o &eacute; o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. ]]&gt;
UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDAPintura de Richard DiebenkornFabr&iacute;cio CarpinejarH&aacute; homens que se imaginam com mechas loiras entre as m&atilde;os. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfar&ccedil;ados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto s&atilde;o jovens, o quanto s&atilde;o viris, o quanto s&atilde;o sedutores. Eu me pressinto com um coque grisalho entre as m&atilde;os. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho j&aacute; &eacute; jardim e quintal para o p&aacute;ssaro. Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e at&eacute; o vento respeita. Um coque ao alto, como uma l&acirc;mpada que n&atilde;o se queima, que n&atilde;o depende de escadas. N&atilde;o &eacute; nenhuma pervers&atilde;o. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus bra&ccedil;os. Fico excitado em estar com algu&eacute;m que madurou e n&atilde;o perdeu o vi&ccedil;o. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembran&ccedil;as para recuperar o desejo. A coragem de avan&ccedil;ar para tr&aacute;s, n&atilde;o terminando de musicar a mem&oacute;ria e de acrescentar datas. Um coque grisalho entre os dedos j&aacute; afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de solt&aacute;-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manh&atilde;, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo est&aacute; pronto pelo barulho f&aacute;cil do pente. As linhas dos l&aacute;bios desenhadas pelo batom suave. Nenhum esc&acirc;ndalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e n&atilde;o sacrific&aacute;-las com o julgamento. A maior aventura n&atilde;o &eacute; correr o mundo, &eacute; correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa. N&atilde;o desejo a juventude de uma mulher, desejo sua perman&ecirc;ncia. O que a faz recente n&atilde;o &eacute; o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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11/11/2006 12:26:34 PM



DESPEDIDA DE ANAN&atilde;o queria escrever este texto. Este texto &eacute; uma derrota.Gravura de KlimtFabr&iacute;cio CarpinejarVoc&ecirc; mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Voc&ecirc; me deu um ventre e um filho. Voc&ecirc; me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos at&eacute; o sol. Voc&ecirc; soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pi&atilde;o. Voc&ecirc;, t&atilde;o voc&ecirc;, t&atilde;o eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele n&atilde;o precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo d&oacute;i sem um lugar certo para soprar? Voc&ecirc; p&otilde;e os travesseiros na janela, para a vizinhan&ccedil;a invejar o nosso cheiro. Para a vizinhan&ccedil;a sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros s&atilde;o o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estar&aacute; fechada. Voc&ecirc; me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, voc&ecirc; completou o que faltava. Voc&ecirc; se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Voc&ecirc; liga o secador e n&atilde;o escuta o telefone. N&atilde;o me escuta agora gritando por voc&ecirc;. Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o caf&eacute; na x&iacute;cara. A toalha de mesa n&atilde;o me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha. Minha m&atilde;o esquerda est&aacute; castrada. As palavras n&atilde;o t&ecirc;m sentido. A l&iacute;ngua portuguesa morreu para um homem. Vejo voc&ecirc; mesmo quando n&atilde;o a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para n&atilde;o descer as escadas e pegar o jornal. Voc&ecirc;: invis&iacute;vel. Que se levantava de noite v&aacute;rias vezes para atender o pequeno e eu n&atilde;o notava. Que se levantava em mim v&aacute;rias vezes para acomodar minha respira&ccedil;&atilde;o e eu n&atilde;o notava. Voc&ecirc;: de sono leve como uma fruta madura. Voc&ecirc;: de uma pureza devassa. A &uacute;nica mulher que me fez bonito. Que me fez sair da inf&acirc;ncia. Que puxou minha cadeira para sentar. Voc&ecirc;, s&oacute; poderia pintar as unhas para voc&ecirc;, pintar as m&atilde;os, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura. Eu n&atilde;o era nada sem voc&ecirc;. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas j&aacute; n&atilde;o me aceitam, perdi o tamanho e o n&uacute;mero.  Voc&ecirc;, t&atilde;o voc&ecirc;, t&atilde;o eu. Nenhuma mulher soube mais do que voc&ecirc;. Teve mais orgulho de mim do que voc&ecirc;. Teve mais pena de mim do que voc&ecirc;. Teve mais cansa&ccedil;o. Teve mais alegria. Voc&ecirc;. Sempre voc&ecirc;, no passado e daqui por diante. Minha amiga terr&iacute;vel, que explicou a  verdade o que ela n&atilde;o havia vivido, que ensinou a paternidade a dar tr&ecirc;s beijos e uma hist&oacute;ria. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome in&eacute;dita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca. Voc&ecirc; que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. N&atilde;o vivia qualquer coisa antes de sua leitura. Voc&ecirc;, que todos falam que &eacute; uma mulher forte, e &eacute; forte porque n&atilde;o podia ser fraca. Ningu&eacute;m a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Voc&ecirc; que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer. Eu n&atilde;o li o que estava escrito em meu pr&oacute;prio corpo. Voc&ecirc; mudou minha literatura - pena que o homem n&atilde;o acompanhou.  
DESPEDIDA DE ANAN&atilde;o queria escrever este texto. Este texto &eacute; uma derrota.Gravura de KlimtFabr&iacute;cio CarpinejarVoc&ecirc; mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Voc&ecirc; me deu um ventre e um filho. Voc&ecirc; me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos at&eacute; o sol. Voc&ecirc; soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pi&atilde;o. Voc&ecirc;, t&atilde;o voc&ecirc;, t&atilde;o eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele n&atilde;o precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo d&oacute;i sem um lugar certo para soprar? Voc&ecirc; p&otilde;e os travesseiros na janela, para a vizinhan&ccedil;a invejar o nosso cheiro. Para a vizinhan&ccedil;a sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros s&atilde;o o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estar&aacute; fechada. Voc&ecirc; me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, voc&ecirc; completou o que faltava. Voc&ecirc; se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Voc&ecirc; liga o secador e n&atilde;o escuta o telefone. N&atilde;o me escuta agora gritando por voc&ecirc;. Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o caf&eacute; na x&iacute;cara. A toalha de mesa n&atilde;o me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha. Minha m&atilde;o esquerda est&aacute; castrada. As palavras n&atilde;o t&ecirc;m sentido. A l&iacute;ngua portuguesa morreu para um homem. Vejo voc&ecirc; mesmo quando n&atilde;o a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para n&atilde;o descer as escadas e pegar o jornal. Voc&ecirc;: invis&iacute;vel. Que se levantava de noite v&aacute;rias vezes para atender o pequeno e eu n&atilde;o notava. Que se levantava em mim v&aacute;rias vezes para acomodar minha respira&ccedil;&atilde;o e eu n&atilde;o notava. Voc&ecirc;: de sono leve como uma fruta madura. Voc&ecirc;: de uma pureza devassa. A &uacute;nica mulher que me fez bonito. Que me fez sair da inf&acirc;ncia. Que puxou minha cadeira para sentar. Voc&ecirc;, s&oacute; poderia pintar as unhas para voc&ecirc;, pintar as m&atilde;os, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura. Eu n&atilde;o era nada sem voc&ecirc;. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas j&aacute; n&atilde;o me aceitam, perdi o tamanho e o n&uacute;mero.  Voc&ecirc;, t&atilde;o voc&ecirc;, t&atilde;o eu. Nenhuma mulher soube mais do que voc&ecirc;. Teve mais orgulho de mim do que voc&ecirc;. Teve mais pena de mim do que voc&ecirc;. Teve mais cansa&ccedil;o. Teve mais alegria. Voc&ecirc;. Sempre voc&ecirc;, no passado e daqui por diante. Minha amiga terr&iacute;vel, que explicou a  verdade o que ela n&atilde;o havia vivido, que ensinou a paternidade a dar tr&ecirc;s beijos e uma hist&oacute;ria. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome in&eacute;dita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca. Voc&ecirc; que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. N&atilde;o vivia qualquer coisa antes de sua leitura. Voc&ecirc;, que todos falam que &eacute; uma mulher forte, e &eacute; forte porque n&atilde;o podia ser fraca. Ningu&eacute;m a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Voc&ecirc; que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer. Eu n&atilde;o li o que estava escrito em meu pr&oacute;prio corpo. Voc&ecirc; mudou minha literatura - pena que o homem n&atilde;o acompanhou.  ]]&gt;
DESPEDIDA DE ANAN&atilde;o queria escrever este texto. Este texto &eacute; uma derrota.Gravura de KlimtFabr&iacute;cio CarpinejarVoc&ecirc; mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Voc&ecirc; me deu um ventre e um filho. Voc&ecirc; me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos at&eacute; o sol. Voc&ecirc; soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pi&atilde;o. Voc&ecirc;, t&atilde;o voc&ecirc;, t&atilde;o eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele n&atilde;o precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo d&oacute;i sem um lugar certo para soprar? Voc&ecirc; p&otilde;e os travesseiros na janela, para a vizinhan&ccedil;a invejar o nosso cheiro. Para a vizinhan&ccedil;a sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros s&atilde;o o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estar&aacute; fechada. Voc&ecirc; me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, voc&ecirc; completou o que faltava. Voc&ecirc; se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Voc&ecirc; liga o secador e n&atilde;o escuta o telefone. N&atilde;o me escuta agora gritando por voc&ecirc;. Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o caf&eacute; na x&iacute;cara. A toalha de mesa n&atilde;o me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha. Minha m&atilde;o esquerda est&aacute; castrada. As palavras n&atilde;o t&ecirc;m sentido. A l&iacute;ngua portuguesa morreu para um homem. Vejo voc&ecirc; mesmo quando n&atilde;o a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para n&atilde;o descer as escadas e pegar o jornal. Voc&ecirc;: invis&iacute;vel. Que se levantava de noite v&aacute;rias vezes para atender o pequeno e eu n&atilde;o notava. Que se levantava em mim v&aacute;rias vezes para acomodar minha respira&ccedil;&atilde;o e eu n&atilde;o notava. Voc&ecirc;: de sono leve como uma fruta madura. Voc&ecirc;: de uma pureza devassa. A &uacute;nica mulher que me fez bonito. Que me fez sair da inf&acirc;ncia. Que puxou minha cadeira para sentar. Voc&ecirc;, s&oacute; poderia pintar as unhas para voc&ecirc;, pintar as m&atilde;os, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura. Eu n&atilde;o era nada sem voc&ecirc;. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas j&aacute; n&atilde;o me aceitam, perdi o tamanho e o n&uacute;mero.  Voc&ecirc;, t&atilde;o voc&ecirc;, t&atilde;o eu. Nenhuma mulher soube mais do que voc&ecirc;. Teve mais orgulho de mim do que voc&ecirc;. Teve mais pena de mim do que voc&ecirc;. Teve mais cansa&ccedil;o. Teve mais alegria. Voc&ecirc;. Sempre voc&ecirc;, no passado e daqui por diante. Minha amiga terr&iacute;vel, que explicou a  verdade o que ela n&atilde;o havia vivido, que ensinou a paternidade a dar tr&ecirc;s beijos e uma hist&oacute;ria. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome in&eacute;dita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca. Voc&ecirc; que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. N&atilde;o vivia qualquer coisa antes de sua leitura. Voc&ecirc;, que todos falam que &eacute; uma mulher forte, e &eacute; forte porque n&atilde;o podia ser fraca. Ningu&eacute;m a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Voc&ecirc; que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer. Eu n&atilde;o li o que estava escrito em meu pr&oacute;prio corpo. Voc&ecirc; mudou minha literatura - pena que o homem n&atilde;o acompanhou.  ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39172537
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11/9/2006 09:56:28 AM



QUANDO N&Atilde;O SE ESPERAArte de GiacomettiFabr&iacute;cio CarpinejarVoc&ecirc; est&aacute; cansada, pe&ccedil;as mistas, roupa de ter&ccedil;a-feira, a l&iacute;ngua n&atilde;o pousa s&aacute;bia, teve irrita&ccedil;&otilde;es no trabalho, n&atilde;o arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, &eacute; o dia perfeito para n&atilde;o encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo cap&iacute;tulos perdidos do seriado preferido. Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. &Eacute; um amigo que n&atilde;o prometia atra&ccedil;&atilde;o, um colega que n&atilde;o demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda. Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretoc&aacute;vel, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se &eacute; jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de inten&ccedil;&otilde;es e mal&iacute;cia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dan&ccedil;ar. Como explicar que n&atilde;o est&aacute; depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputa&ccedil;&atilde;o das virilhas. O homem vai deduzir que ela n&atilde;o est&aacute; a fim enquanto a raz&atilde;o &eacute; outra. A verdade &eacute; essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, n&atilde;o haver&aacute; um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. N&atilde;o consegue se desvencilhar e enfrenta a decis&atilde;o de ir at&eacute; o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reuni&atilde;o de manh&atilde;zinha. Toda mulher teme perder o homem porque n&atilde;o est&aacute; produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta &eacute; de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposi&ccedil;&atilde;o com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, n&atilde;o com cara de quem vai dormir. Uma mulher que n&atilde;o aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, t&atilde;o &iacute;nfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. &Eacute; quando ela se d&aacute; conta de que ter&aacute; que tomar banho mesmo nos l&aacute;bios dele. &Eacute; quando ela se d&aacute; conta de que ter&aacute; que esticar as pernas para apert&aacute;-lo dentro. Despreparados para o amor, o amor &eacute; sincero. Ao inv&eacute;s da sedu&ccedil;&atilde;o partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um trope&ccedil;o, um arrependimento n&atilde;o prejudicam a conversa, o que existe &eacute; cumplicidade, que pede &aacute;gua para manter a naturalidade da boca. Voc&ecirc;s n&atilde;o est&atilde;o b&ecirc;bados, voc&ecirc;s n&atilde;o est&atilde;o irrespons&aacute;veis, voc&ecirc;s n&atilde;o enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele. A noite perfeita n&atilde;o &eacute; a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita &eacute; a que n&atilde;o se espera.
QUANDO N&Atilde;O SE ESPERAArte de GiacomettiFabr&iacute;cio CarpinejarVoc&ecirc; est&aacute; cansada, pe&ccedil;as mistas, roupa de ter&ccedil;a-feira, a l&iacute;ngua n&atilde;o pousa s&aacute;bia, teve irrita&ccedil;&otilde;es no trabalho, n&atilde;o arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, &eacute; o dia perfeito para n&atilde;o encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo cap&iacute;tulos perdidos do seriado preferido. Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. &Eacute; um amigo que n&atilde;o prometia atra&ccedil;&atilde;o, um colega que n&atilde;o demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda. Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretoc&aacute;vel, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se &eacute; jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de inten&ccedil;&otilde;es e mal&iacute;cia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dan&ccedil;ar. Como explicar que n&atilde;o est&aacute; depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputa&ccedil;&atilde;o das virilhas. O homem vai deduzir que ela n&atilde;o est&aacute; a fim enquanto a raz&atilde;o &eacute; outra. A verdade &eacute; essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, n&atilde;o haver&aacute; um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. N&atilde;o consegue se desvencilhar e enfrenta a decis&atilde;o de ir at&eacute; o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reuni&atilde;o de manh&atilde;zinha. Toda mulher teme perder o homem porque n&atilde;o est&aacute; produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta &eacute; de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposi&ccedil;&atilde;o com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, n&atilde;o com cara de quem vai dormir. Uma mulher que n&atilde;o aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, t&atilde;o &iacute;nfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. &Eacute; quando ela se d&aacute; conta de que ter&aacute; que tomar banho mesmo nos l&aacute;bios dele. &Eacute; quando ela se d&aacute; conta de que ter&aacute; que esticar as pernas para apert&aacute;-lo dentro. Despreparados para o amor, o amor &eacute; sincero. Ao inv&eacute;s da sedu&ccedil;&atilde;o partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um trope&ccedil;o, um arrependimento n&atilde;o prejudicam a conversa, o que existe &eacute; cumplicidade, que pede &aacute;gua para manter a naturalidade da boca. Voc&ecirc;s n&atilde;o est&atilde;o b&ecirc;bados, voc&ecirc;s n&atilde;o est&atilde;o irrespons&aacute;veis, voc&ecirc;s n&atilde;o enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele. A noite perfeita n&atilde;o &eacute; a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita &eacute; a que n&atilde;o se espera.]]&gt;
QUANDO N&Atilde;O SE ESPERAArte de GiacomettiFabr&iacute;cio CarpinejarVoc&ecirc; est&aacute; cansada, pe&ccedil;as mistas, roupa de ter&ccedil;a-feira, a l&iacute;ngua n&atilde;o pousa s&aacute;bia, teve irrita&ccedil;&otilde;es no trabalho, n&atilde;o arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, &eacute; o dia perfeito para n&atilde;o encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo cap&iacute;tulos perdidos do seriado preferido. Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. &Eacute; um amigo que n&atilde;o prometia atra&ccedil;&atilde;o, um colega que n&atilde;o demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda. Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretoc&aacute;vel, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se &eacute; jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de inten&ccedil;&otilde;es e mal&iacute;cia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dan&ccedil;ar. Como explicar que n&atilde;o est&aacute; depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputa&ccedil;&atilde;o das virilhas. O homem vai deduzir que ela n&atilde;o est&aacute; a fim enquanto a raz&atilde;o &eacute; outra. A verdade &eacute; essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, n&atilde;o haver&aacute; um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. N&atilde;o consegue se desvencilhar e enfrenta a decis&atilde;o de ir at&eacute; o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reuni&atilde;o de manh&atilde;zinha. Toda mulher teme perder o homem porque n&atilde;o est&aacute; produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta &eacute; de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposi&ccedil;&atilde;o com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, n&atilde;o com cara de quem vai dormir. Uma mulher que n&atilde;o aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, t&atilde;o &iacute;nfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. &Eacute; quando ela se d&aacute; conta de que ter&aacute; que tomar banho mesmo nos l&aacute;bios dele. &Eacute; quando ela se d&aacute; conta de que ter&aacute; que esticar as pernas para apert&aacute;-lo dentro. Despreparados para o amor, o amor &eacute; sincero. Ao inv&eacute;s da sedu&ccedil;&atilde;o partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um trope&ccedil;o, um arrependimento n&atilde;o prejudicam a conversa, o que existe &eacute; cumplicidade, que pede &aacute;gua para manter a naturalidade da boca. Voc&ecirc;s n&atilde;o est&atilde;o b&ecirc;bados, voc&ecirc;s n&atilde;o est&atilde;o irrespons&aacute;veis, voc&ecirc;s n&atilde;o enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele. A noite perfeita n&atilde;o &eacute; a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita &eacute; a que n&atilde;o se espera.]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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11/7/2006 11:50:59 AM



RINDO NO AMOR, N&Atilde;O DO AMORPinturas de Nicolas De Sta&euml;lFabr&iacute;cio CarpinejarO riso n&atilde;o costuma reinar no sexo. J&aacute; ouvi que &eacute; inibidor num espa&ccedil;o de concentra&ccedil;&atilde;o, tens&atilde;o, num espa&ccedil;o para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a m&uacute;sica. Entrela&ccedil;ados pela corrente sangu&iacute;nea do vento, pelo toque, pela expans&atilde;o das unhas e cheiro selvagem dos len&ccedil;&oacute;is. Como se n&atilde;o fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo s&eacute;rio, um segredo lento. Um riso dela: o homem pensa que ela est&aacute; zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele est&aacute; tro&ccedil;ando de suas imperfei&ccedil;&otilde;es e de sua experi&ecirc;ncia. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfian&ccedil;a. O humor lan&ccedil;a suspeita. Que o amor deve ser s&eacute;rio como um drama. Tr&aacute;gico. N&atilde;o foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoro&ccedil;o festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega m&uacute;tua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mist&eacute;rio de estar pleno e sem volta. Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pesco&ccedil;o dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos bra&ccedil;os, sem a amea&ccedil;a da d&uacute;vida, sem rem&eacute;dio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo n&atilde;o pedia beijo, pedia solu&ccedil;o, sol no dia seguinte.  N&atilde;o havia a gravidade da chuva, havia a gra&ccedil;a da garoa. N&atilde;o havia a maldade do meio-dia, havia o perd&atilde;o da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna. Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as p&eacute;talas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da n&eacute;voa e os altos frutos. Gargalhavam quando n&atilde;o sussurravam e nada diminu&iacute;a o prazer. Desnecess&aacute;ria qualquer explica&ccedil;&atilde;o sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta aus&ecirc;ncia de explica&ccedil;&atilde;o. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez aben&ccedil;oada pelas sombras. Uma oferta. Uma paix&atilde;o. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir &eacute; trocar a despedida pela v&eacute;spera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito. Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade. Amar na alegria &eacute; amar casando. 
RINDO NO AMOR, N&Atilde;O DO AMORPinturas de Nicolas De Sta&euml;lFabr&iacute;cio CarpinejarO riso n&atilde;o costuma reinar no sexo. J&aacute; ouvi que &eacute; inibidor num espa&ccedil;o de concentra&ccedil;&atilde;o, tens&atilde;o, num espa&ccedil;o para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a m&uacute;sica. Entrela&ccedil;ados pela corrente sangu&iacute;nea do vento, pelo toque, pela expans&atilde;o das unhas e cheiro selvagem dos len&ccedil;&oacute;is. Como se n&atilde;o fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo s&eacute;rio, um segredo lento. Um riso dela: o homem pensa que ela est&aacute; zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele est&aacute; tro&ccedil;ando de suas imperfei&ccedil;&otilde;es e de sua experi&ecirc;ncia. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfian&ccedil;a. O humor lan&ccedil;a suspeita. Que o amor deve ser s&eacute;rio como um drama. Tr&aacute;gico. N&atilde;o foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoro&ccedil;o festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega m&uacute;tua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mist&eacute;rio de estar pleno e sem volta. Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pesco&ccedil;o dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos bra&ccedil;os, sem a amea&ccedil;a da d&uacute;vida, sem rem&eacute;dio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo n&atilde;o pedia beijo, pedia solu&ccedil;o, sol no dia seguinte.  N&atilde;o havia a gravidade da chuva, havia a gra&ccedil;a da garoa. N&atilde;o havia a maldade do meio-dia, havia o perd&atilde;o da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna. Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as p&eacute;talas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da n&eacute;voa e os altos frutos. Gargalhavam quando n&atilde;o sussurravam e nada diminu&iacute;a o prazer. Desnecess&aacute;ria qualquer explica&ccedil;&atilde;o sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta aus&ecirc;ncia de explica&ccedil;&atilde;o. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez aben&ccedil;oada pelas sombras. Uma oferta. Uma paix&atilde;o. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir &eacute; trocar a despedida pela v&eacute;spera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito. Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade. Amar na alegria &eacute; amar casando. ]]&gt;
RINDO NO AMOR, N&Atilde;O DO AMORPinturas de Nicolas De Sta&euml;lFabr&iacute;cio CarpinejarO riso n&atilde;o costuma reinar no sexo. J&aacute; ouvi que &eacute; inibidor num espa&ccedil;o de concentra&ccedil;&atilde;o, tens&atilde;o, num espa&ccedil;o para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a m&uacute;sica. Entrela&ccedil;ados pela corrente sangu&iacute;nea do vento, pelo toque, pela expans&atilde;o das unhas e cheiro selvagem dos len&ccedil;&oacute;is. Como se n&atilde;o fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo s&eacute;rio, um segredo lento. Um riso dela: o homem pensa que ela est&aacute; zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele est&aacute; tro&ccedil;ando de suas imperfei&ccedil;&otilde;es e de sua experi&ecirc;ncia. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfian&ccedil;a. O humor lan&ccedil;a suspeita. Que o amor deve ser s&eacute;rio como um drama. Tr&aacute;gico. N&atilde;o foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoro&ccedil;o festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega m&uacute;tua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mist&eacute;rio de estar pleno e sem volta. Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pesco&ccedil;o dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos bra&ccedil;os, sem a amea&ccedil;a da d&uacute;vida, sem rem&eacute;dio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo n&atilde;o pedia beijo, pedia solu&ccedil;o, sol no dia seguinte.  N&atilde;o havia a gravidade da chuva, havia a gra&ccedil;a da garoa. N&atilde;o havia a maldade do meio-dia, havia o perd&atilde;o da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna. Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as p&eacute;talas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da n&eacute;voa e os altos frutos. Gargalhavam quando n&atilde;o sussurravam e nada diminu&iacute;a o prazer. Desnecess&aacute;ria qualquer explica&ccedil;&atilde;o sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta aus&ecirc;ncia de explica&ccedil;&atilde;o. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez aben&ccedil;oada pelas sombras. Uma oferta. Uma paix&atilde;o. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir &eacute; trocar a despedida pela v&eacute;spera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito. Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade. Amar na alegria &eacute; amar casando. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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11/6/2006 08:01:08 AM



EMPAREDADOSou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no site, conduzida por Julio Daio Borges. A LITERATURA N&Atilde;O SUBSTITUI A VIDASegunda-feira, 6/11/2006Por Julio Daio Borges    Fabr&iacute;cio Carpinejar, em foto de Renata StodutoFabr&iacute;cio Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estr&eacute;ia po&eacute;tica, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros tr&ecirc;s livros anuais de poemas: Um Terno de P&aacute;ssaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma &aacute;rvore - at&eacute; a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.Desde 2004, &eacute; editado pela Bertrand Brasil por onde lan&ccedil;ou Cinco Marias (poemas), Como no c&eacute;u/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa po&eacute;tica) e O Amor Esquece de Come&ccedil;ar (2006, cr&ocirc;nicas) - sendo este &uacute;ltimo uma compila&ccedil;&atilde;o de textos a partir do seu blog na internet. Mant&eacute;m ainda a coluna semanal Consult&oacute;rio Po&eacute;tico, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (pr&ecirc;mio Olavo Bilac, 2003), pela Uni&atilde;o Brasileira dos Escritores (Cec&iacute;lia Meireles, 2002) e recebeu o A&ccedil;orianos de Literatura j&aacute; duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). O mote para esta Entrevista foi o Pr&ecirc;mio &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo, concedido a Carpinejar pela c&acirc;mara municipal de Porto Alegre, no &uacute;ltimo dia 23 de outubro, anivers&aacute;rio do poeta. Aqui, Fabr&iacute;cio conta como &eacute; fazer parte de uma fam&iacute;lia de poetas. Afirma que, ao contr&aacute;rio do que atualmente se acredita, &eacute; poss&iacute;vel viver de literatura. N&atilde;o se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet &eacute; o suporte ideal para a contund&ecirc;ncia e para a concis&atilde;o do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseud&ocirc;nimos. Sobre a cr&iacute;tica de Wilson Martins &agrave; sua poesia, pensa que ele jamais elogiar&aacute; um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de &quot;marqueteiro&quot;, tem uma resposta na ponta da l&iacute;ngua: &quot;Parece que hoje &eacute; crime confiar no pr&oacute;prio trabalho&quot;. Quanto ao ass&eacute;dio das f&atilde;s, brinca que quer ser &quot;o Wando da poesia&quot;. Carpinejar conclui, ainda, que &eacute; um &quot;feio carism&aacute;tico&quot; e alerta que &quot;a literatura n&atilde;o substitui a vida&quot;. (JDB)1. Fabr&iacute;cio, vamos come&ccedil;ar pelo come&ccedil;o. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e j&aacute; li em algum lugar que, com ele, voc&ecirc; junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que voc&ecirc; tem j&aacute; a sua fam&iacute;lia e que n&atilde;o discute poesia com seus genitores nas refei&ccedil;&otilde;es de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como &eacute; isso? J&aacute; li tamb&eacute;m que seus pais, quando te liam, s&oacute; te &quot;detonavam&quot;... &Eacute; verdade? Por &uacute;ltimo, o que voc&ecirc; acha de um Leitor do Digestivo que falou que voc&ecirc; &eacute; &quot;melhor&quot; do que a sua m&atilde;e mas &quot;pior&quot; do que o seu pai? Essas compara&ccedil;&otilde;es ainda fazem algum sentido para voc&ecirc; - ou poesia, em fam&iacute;lia, por ser trabalho, virou assunto tabu? As compara&ccedil;&otilde;es n&atilde;o fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competi&ccedil;&atilde;o dentro de casa, j&aacute; chega fora. Acho que ocorre uma provoca&ccedil;&atilde;o afetiva, que n&atilde;o &eacute; concorr&ecirc;ncia, ainda mais com tr&ecirc;s vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso &eacute; poss&iacute;vel. Meus pais davam pitacos sobre minha produ&ccedil;&atilde;o no come&ccedil;o, agora ficaram pregui&ccedil;osos ou viram que n&atilde;o tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a m&atilde;e. O pai &eacute; mais aberto. A m&atilde;e escuta, escuta e n&atilde;o me leva a s&eacute;rio. Meu medo &eacute; ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos). 2. No embalo da pergunta anterior, como &quot;se fez&quot; poeta? No seu blog, h&aacute; uma por&ccedil;&atilde;o de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade po&eacute;tica j&aacute; na adolesc&ecirc;ncia e na inf&acirc;ncia... Quando descobriu que faria poesia? &quot;Poeta&quot;, pra voc&ecirc;, &eacute; profiss&atilde;o? &Eacute; assim que voc&ecirc; preenche a ficha cadastral do hotel? &Eacute; assim que voc&ecirc; se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de forma&ccedil;&atilde;o: d&aacute; pra viver de direito autoral (a poesia &eacute; uma voca&ccedil;&atilde;o que, pra voc&ecirc;, valeu a pena)? N&atilde;o ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os p&aacute;ssaros escreveram e as &aacute;rvores voaram. Eu me fiz poeta pelas defici&ecirc;ncias. Como sofria muita goza&ccedil;&atilde;o na escola, em fun&ccedil;&atilde;o da fei&uacute;ra e dos problemas de dic&ccedil;&atilde;o, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco &eacute; poesia. Poesia n&atilde;o combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e n&atilde;o me apaixonei por mim. Eu assino mesmo &quot;escritor&quot; na ficha do hotel. At&eacute; porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar &quot;jornalista&quot; ou &quot;professor&quot;. &Eacute; poss&iacute;vel viver de literatura. J&aacute; foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajet&oacute;ria, mas hoje h&aacute; v&aacute;rios casos de jovens contempor&acirc;neos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e C&iacute;ntia Moscovich. Digo: viver de literatura n&atilde;o &eacute; somente viver de direito autoral, por&eacute;m do entorno, que inclui leituras p&uacute;blicas, saraus, debates, confer&ecirc;ncias e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista. 3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de voc&ecirc;, do que voc&ecirc; faz, mas tenho medo da sua consagra&ccedil;&atilde;o precoce... Voc&ecirc; n&atilde;o tem medo, n&atilde;o? Agora, ganhou o Pr&ecirc;mio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, voc&ecirc; n&atilde;o tem nem 35 anos! ABL, UBE, A&ccedil;orianos de Literatura... o que falta pra voc&ecirc;, o Nobel de Literatura? N&atilde;o tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o po&ccedil;o da inspira&ccedil;&atilde;o, de chegar do outro lado do arco-&iacute;ris e n&atilde;o encontrar nenhum pote de ouro?Se secar o po&ccedil;o da inspira&ccedil;&atilde;o, paro de escrever. A literatura n&atilde;o &eacute; uma religi&atilde;o. N&atilde;o vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura n&atilde;o substitui a vida, ela nos prende mais a ela. N&atilde;o entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo n&atilde;o pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. N&atilde;o &eacute; falando de amor que estarei amando. Um livro n&atilde;o vai justificar minha biografia. Nunca. N&atilde;o vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. N&atilde;o vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. H&aacute; uma tend&ecirc;ncia pela impunidade, que o escritor &eacute; capaz de fazer qualquer loucura porque &eacute; escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. N&atilde;o vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor n&atilde;o tem imunidade parlamentar. &Eacute; sua falta de imunidade que o fortalece, porque n&atilde;o se ver&aacute; pronto e sempre estar&aacute; apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; precocidade, como definir qual &eacute; o meu tempo? E se eu viver at&eacute; os 40 anos, estou recebendo pr&ecirc;mios tarde, no fim da vida. O talento n&atilde;o pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. N&atilde;o desejo concess&otilde;es comigo, prefiro o rigor e a cr&iacute;tica. N&atilde;o espero a complac&ecirc;ncia. Meu pior me melhora. O Nobel n&atilde;o deve ser uma ambi&ccedil;&atilde;o ou projeto de um escritor, por&eacute;m um acidente. 4. Misturando sua carreira, que eu considero mete&oacute;rica, com aquela hist&oacute;ria da sua forma&ccedil;&atilde;o, o que voc&ecirc; ensina no seu Curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento &eacute; algo transmiss&iacute;vel (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a id&eacute;ia do curso n&atilde;o &eacute; simplesmente &quot;ensinar a escrever&quot;, mas encaminhar as pessoas que est&atilde;o escrevendo atabalhoadamente sem dire&ccedil;&atilde;o... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que &quot;qualquer um consegue&quot;... Queria ouvir sua opini&atilde;o.Verdade. H&aacute; uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extens&atilde;o das cartas, n&atilde;o uma extens&atilde;o da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunica&ccedil;&atilde;o. Escrever n&atilde;o torna algu&eacute;m escritor. Ter voca&ccedil;&atilde;o ainda n&atilde;o &eacute; suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedica&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o acredito que o talento venha de um &quot;sangue azul&quot;. S&oacute; se for da caneta Bic. N&atilde;o se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, j&aacute; tem uma disposi&ccedil;&atilde;o, uma vontade, um &acirc;nimo diferenciado para se entregar &agrave; leitura. Encontrar&aacute; sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando algu&eacute;m grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem ser&atilde;o os novos autores. 5. Pergunta inevit&aacute;vel: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa gera&ccedil;&atilde;o? Eu juro que conheci voc&ecirc; atrav&eacute;s do blog do Polzonoff - voc&ecirc; acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que &eacute; um bom suporte? E as publica&ccedil;&otilde;es - por que ainda t&ecirc;m pouco poder de aglutina&ccedil;&atilde;o? Por que n&atilde;o surgiu uma revista de poesia de arrebentar? N&atilde;o concorda que j&aacute; temos quorum?Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma &aacute;rvore. Vejo prosa po&eacute;tica que vale a pena na internet. Exerc&iacute;cios l&iacute;ricos que j&aacute; formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de S&atilde;o Paulo, com Coisas da Gaveta. &Eacute; um suporte ideal para a contund&ecirc;ncia e concis&atilde;o do verso. O poema &eacute; a pr&eacute;-hist&oacute;ria do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, m&uacute;sica da respira&ccedil;&atilde;o, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. D&aacute; uma conferida. Pipol e Edson Cruz tamb&eacute;m s&atilde;o capazes de realizar uma anima&ccedil;&atilde;o em alto n&iacute;vel, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cron&oacute;pios). 6. E a cr&iacute;tica, continua morta viva, como nas d&eacute;cadas anteriores, ou est&aacute; atenta a esses fen&ocirc;menos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, voc&ecirc; &eacute; uma &quot;unanimidade po&eacute;tica&quot; como h&aacute; muito n&atilde;o se via... J&aacute; ouvi tamb&eacute;m cr&iacute;ticas a voc&ecirc; no sentido de que &eacute; um incans&aacute;vel divulgador da pr&oacute;pria obra - do tipo que fica tentando conquistar at&eacute; os cora&ccedil;&otilde;es mais relutantes... A fortuna cr&iacute;tica, hoje, virou uma quest&atilde;o de ser, como o N&eacute;lson Rodrigues dizia, &quot;o cont&iacute;nuo de si mesmo&quot;? Unanimidade? Todos temos &iacute;ndice de rejei&ccedil;&atilde;o, inclusive na fam&iacute;lia. Valorizo a discord&acirc;ncia, desde que com o cuidado e a eleg&acirc;ncia para n&atilde;o destruir e, sim, ajudar. Ler &eacute; se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet s&atilde;o os laranjas. Se eu entro num blog e n&atilde;o gosto, n&atilde;o vou deixar coment&aacute;rio ali ofendendo o autor. Esque&ccedil;o o link e sigo adiante. O sil&ecirc;ncio &eacute; uma forma de cr&iacute;tica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria liter&aacute;ria a ponto de julgar, amea&ccedil;ar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que n&atilde;o tenha nada a ver com o que penso. J&aacute; percebi que ele dificilmente elogiar&aacute; um poeta abaixo dos 40, que fa&ccedil;a verso livre. Mas &eacute; um cr&iacute;tico puro, no sentido de que n&atilde;o &eacute; um ficcionista se servindo da cr&iacute;tica, suscet&iacute;vel &agrave;s panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso &eacute; sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que &eacute; crime confiar no pr&oacute;prio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim. 7. Ali&aacute;s, s&atilde;o not&oacute;rias as brigas da Gera&ccedil;&atilde;o 90 - de certo modo, a sua gera&ccedil;&atilde;o - com a cr&iacute;tica estabelecida (&quot;Que cr&iacute;tica estabelecida?&quot;, perguntaria Paulo Francis)... Enfim, n&atilde;o falo exatamente do seu caso, mas n&atilde;o acha que falta um belo pux&atilde;o de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que est&atilde;o em todos os eventos de literatura, que s&atilde;o editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Gera&ccedil;&atilde;o 90 insiste em se comportar como &quot;rebelde sem causa&quot;?Perfeito. Ser marginal &eacute; um status, assim como ser louco. E &eacute; poss&iacute;vel perceber que a marginalidade &eacute; um modo bem r&aacute;pido de ter sucesso. N&atilde;o recomendo ser o que n&atilde;o se &eacute;, pois &eacute; duro ser louco ou marginal. Sinceridade n&atilde;o faz literatura, faz o escritor. A Gera&ccedil;&atilde;o 90, de muitos amigos, conseguiu seu espa&ccedil;o. Agora cada integrante tem que merecer a perman&ecirc;ncia em sua &eacute;poca e, depois, na hist&oacute;ria. Confesso que tenho ci&uacute;me de quem fala grosso. Minha voz &eacute; esgani&ccedil;ada.8. Mudando para temas mais amenos, desde o lan&ccedil;amento do seu O Amor Esquece de Come&ccedil;ar, eu olho pra voc&ecirc;, para o seu &quot;consult&oacute;rio sentimental&quot;, e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa n&atilde;o reclama do ass&eacute;dio? Como voc&ecirc; faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e coment&aacute;rios), das f&atilde;s? Brincadeira: sei que voc&ecirc; &eacute; pai de fam&iacute;lia extremoso, etc. e tal, mas n&atilde;o teme ficar com essa fama de titular da coluna Cora&ccedil;&otilde;es Solit&aacute;rios?N&atilde;o sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como n&atilde;o sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carism&aacute;tico. N&atilde;o apresento &iacute;ndole de gal&atilde;. Careca e narigudo s&atilde;o as &uacute;nicas semelhan&ccedil;as que guardo com Neruda. Eu n&atilde;o dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consult&oacute;rio Po&eacute;tico, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais &aacute;gil, por&eacute;m sei da import&acirc;ncia do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. N&atilde;o podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consult&oacute;rio sentimental no Di&aacute;rio da Noite. Ele usava o pseud&ocirc;nimo de Myrna. A diferen&ccedil;a &eacute; que sou meu pr&oacute;prio pseud&ocirc;nimo. &Eacute; &oacute;bvio que minha mulher reclama do ass&eacute;dio. Brinco com ela de que meu sonho &eacute; ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ci&uacute;me, que tamb&eacute;m sinto dela. 9. Quando recebi seu primeiro press-release, li l&aacute; que o Brasil inteiro estava &quot;carpinejando&quot;... E o mundo? Portugal tamb&eacute;m est&aacute;, neste momento, carpinejando? Como &eacute; recebida a sua mensagem no al&eacute;m-mar? Fran&ccedil;a, It&aacute;lia... Como &eacute; ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o c&eacute;lebre tradutor de Guimar&atilde;es Rosa? Voc&ecirc; tamb&eacute;m confere as suas edi&ccedil;&otilde;es estrangeiras como o autor de Grande Sert&atilde;o: Veredas? Ou concorda com aquela m&aacute;xima de que poesia &eacute; justamente o que se perde na tradu&ccedil;&atilde;o?Acompanho com admira&ccedil;&atilde;o, como se n&atilde;o fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intui&ccedil;&atilde;o. Mas assino embaixo da m&aacute;xima: o que se perde na tradu&ccedil;&atilde;o se ganha em ousadia. Traduzir &eacute; ler errado e escutar certo. 10. Para terminar: sempre quando falo com voc&ecirc;, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que voc&ecirc; j&aacute; toca... d&aacute; pra conciliar? Como &eacute; o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende &agrave;s solicita&ccedil;&otilde;es da imprensa, almo&ccedil;a, d&aacute; aulas, escreve poesia, escreve mat&eacute;rias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, d&aacute; palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Est&aacute; de acordo com Spinoza, que dizia que &quot;intelecto&quot; &eacute; tamb&eacute;m &quot;vontade&quot; (for&ccedil;a de vontade)? (&Agrave;s vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contr&aacute;rio de voc&ecirc; - reclamam demais e fazem de menos...) Vontade &eacute; uma senha. Sempre me agradou mais um time ra&ccedil;udo do que um time genial. O que &eacute; genial busca se exibir mais do que jogar. O que &eacute; genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que fa&ccedil;o. Demais. O que pode ser um problema: desconhe&ccedil;o os limites para dar uma tr&eacute;gua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho tr&ecirc;s irm&atilde;os, reclamar n&atilde;o fazia diferen&ccedil;a. Ningu&eacute;m da minha fam&iacute;lia esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A aus&ecirc;ncia de expectativa me livrou da cobran&ccedil;a. Tive que chamar aten&ccedil;&atilde;o de mim para somente assim chamar aten&ccedil;&atilde;o dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje n&atilde;o olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Al&eacute;m de fazer tudo o que voc&ecirc; antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dan&ccedil;ar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freq&uuml;entar livrarias e caf&eacute;s, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e n&atilde;o fazer nada. Minha normalidade &eacute; deliciosa. N&atilde;o preciso impressionar para ser feliz.
EMPAREDADOSou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no site, conduzida por Julio Daio Borges. A LITERATURA N&Atilde;O SUBSTITUI A VIDASegunda-feira, 6/11/2006Por Julio Daio Borges    Fabr&iacute;cio Carpinejar, em foto de Renata StodutoFabr&iacute;cio Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estr&eacute;ia po&eacute;tica, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros tr&ecirc;s livros anuais de poemas: Um Terno de P&aacute;ssaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma &aacute;rvore - at&eacute; a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.Desde 2004, &eacute; editado pela Bertrand Brasil por onde lan&ccedil;ou Cinco Marias (poemas), Como no c&eacute;u/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa po&eacute;tica) e O Amor Esquece de Come&ccedil;ar (2006, cr&ocirc;nicas) - sendo este &uacute;ltimo uma compila&ccedil;&atilde;o de textos a partir do seu blog na internet. Mant&eacute;m ainda a coluna semanal Consult&oacute;rio Po&eacute;tico, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (pr&ecirc;mio Olavo Bilac, 2003), pela Uni&atilde;o Brasileira dos Escritores (Cec&iacute;lia Meireles, 2002) e recebeu o A&ccedil;orianos de Literatura j&aacute; duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). O mote para esta Entrevista foi o Pr&ecirc;mio &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo, concedido a Carpinejar pela c&acirc;mara municipal de Porto Alegre, no &uacute;ltimo dia 23 de outubro, anivers&aacute;rio do poeta. Aqui, Fabr&iacute;cio conta como &eacute; fazer parte de uma fam&iacute;lia de poetas. Afirma que, ao contr&aacute;rio do que atualmente se acredita, &eacute; poss&iacute;vel viver de literatura. N&atilde;o se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet &eacute; o suporte ideal para a contund&ecirc;ncia e para a concis&atilde;o do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseud&ocirc;nimos. Sobre a cr&iacute;tica de Wilson Martins &agrave; sua poesia, pensa que ele jamais elogiar&aacute; um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de &quot;marqueteiro&quot;, tem uma resposta na ponta da l&iacute;ngua: &quot;Parece que hoje &eacute; crime confiar no pr&oacute;prio trabalho&quot;. Quanto ao ass&eacute;dio das f&atilde;s, brinca que quer ser &quot;o Wando da poesia&quot;. Carpinejar conclui, ainda, que &eacute; um &quot;feio carism&aacute;tico&quot; e alerta que &quot;a literatura n&atilde;o substitui a vida&quot;. (JDB)1. Fabr&iacute;cio, vamos come&ccedil;ar pelo come&ccedil;o. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e j&aacute; li em algum lugar que, com ele, voc&ecirc; junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que voc&ecirc; tem j&aacute; a sua fam&iacute;lia e que n&atilde;o discute poesia com seus genitores nas refei&ccedil;&otilde;es de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como &eacute; isso? J&aacute; li tamb&eacute;m que seus pais, quando te liam, s&oacute; te &quot;detonavam&quot;... &Eacute; verdade? Por &uacute;ltimo, o que voc&ecirc; acha de um Leitor do Digestivo que falou que voc&ecirc; &eacute; &quot;melhor&quot; do que a sua m&atilde;e mas &quot;pior&quot; do que o seu pai? Essas compara&ccedil;&otilde;es ainda fazem algum sentido para voc&ecirc; - ou poesia, em fam&iacute;lia, por ser trabalho, virou assunto tabu? As compara&ccedil;&otilde;es n&atilde;o fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competi&ccedil;&atilde;o dentro de casa, j&aacute; chega fora. Acho que ocorre uma provoca&ccedil;&atilde;o afetiva, que n&atilde;o &eacute; concorr&ecirc;ncia, ainda mais com tr&ecirc;s vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso &eacute; poss&iacute;vel. Meus pais davam pitacos sobre minha produ&ccedil;&atilde;o no come&ccedil;o, agora ficaram pregui&ccedil;osos ou viram que n&atilde;o tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a m&atilde;e. O pai &eacute; mais aberto. A m&atilde;e escuta, escuta e n&atilde;o me leva a s&eacute;rio. Meu medo &eacute; ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos). 2. No embalo da pergunta anterior, como &quot;se fez&quot; poeta? No seu blog, h&aacute; uma por&ccedil;&atilde;o de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade po&eacute;tica j&aacute; na adolesc&ecirc;ncia e na inf&acirc;ncia... Quando descobriu que faria poesia? &quot;Poeta&quot;, pra voc&ecirc;, &eacute; profiss&atilde;o? &Eacute; assim que voc&ecirc; preenche a ficha cadastral do hotel? &Eacute; assim que voc&ecirc; se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de forma&ccedil;&atilde;o: d&aacute; pra viver de direito autoral (a poesia &eacute; uma voca&ccedil;&atilde;o que, pra voc&ecirc;, valeu a pena)? N&atilde;o ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os p&aacute;ssaros escreveram e as &aacute;rvores voaram. Eu me fiz poeta pelas defici&ecirc;ncias. Como sofria muita goza&ccedil;&atilde;o na escola, em fun&ccedil;&atilde;o da fei&uacute;ra e dos problemas de dic&ccedil;&atilde;o, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco &eacute; poesia. Poesia n&atilde;o combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e n&atilde;o me apaixonei por mim. Eu assino mesmo &quot;escritor&quot; na ficha do hotel. At&eacute; porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar &quot;jornalista&quot; ou &quot;professor&quot;. &Eacute; poss&iacute;vel viver de literatura. J&aacute; foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajet&oacute;ria, mas hoje h&aacute; v&aacute;rios casos de jovens contempor&acirc;neos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e C&iacute;ntia Moscovich. Digo: viver de literatura n&atilde;o &eacute; somente viver de direito autoral, por&eacute;m do entorno, que inclui leituras p&uacute;blicas, saraus, debates, confer&ecirc;ncias e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista. 3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de voc&ecirc;, do que voc&ecirc; faz, mas tenho medo da sua consagra&ccedil;&atilde;o precoce... Voc&ecirc; n&atilde;o tem medo, n&atilde;o? Agora, ganhou o Pr&ecirc;mio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, voc&ecirc; n&atilde;o tem nem 35 anos! ABL, UBE, A&ccedil;orianos de Literatura... o que falta pra voc&ecirc;, o Nobel de Literatura? N&atilde;o tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o po&ccedil;o da inspira&ccedil;&atilde;o, de chegar do outro lado do arco-&iacute;ris e n&atilde;o encontrar nenhum pote de ouro?Se secar o po&ccedil;o da inspira&ccedil;&atilde;o, paro de escrever. A literatura n&atilde;o &eacute; uma religi&atilde;o. N&atilde;o vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura n&atilde;o substitui a vida, ela nos prende mais a ela. N&atilde;o entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo n&atilde;o pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. N&atilde;o &eacute; falando de amor que estarei amando. Um livro n&atilde;o vai justificar minha biografia. Nunca. N&atilde;o vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. N&atilde;o vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. H&aacute; uma tend&ecirc;ncia pela impunidade, que o escritor &eacute; capaz de fazer qualquer loucura porque &eacute; escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. N&atilde;o vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor n&atilde;o tem imunidade parlamentar. &Eacute; sua falta de imunidade que o fortalece, porque n&atilde;o se ver&aacute; pronto e sempre estar&aacute; apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; precocidade, como definir qual &eacute; o meu tempo? E se eu viver at&eacute; os 40 anos, estou recebendo pr&ecirc;mios tarde, no fim da vida. O talento n&atilde;o pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. N&atilde;o desejo concess&otilde;es comigo, prefiro o rigor e a cr&iacute;tica. N&atilde;o espero a complac&ecirc;ncia. Meu pior me melhora. O Nobel n&atilde;o deve ser uma ambi&ccedil;&atilde;o ou projeto de um escritor, por&eacute;m um acidente. 4. Misturando sua carreira, que eu considero mete&oacute;rica, com aquela hist&oacute;ria da sua forma&ccedil;&atilde;o, o que voc&ecirc; ensina no seu Curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento &eacute; algo transmiss&iacute;vel (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a id&eacute;ia do curso n&atilde;o &eacute; simplesmente &quot;ensinar a escrever&quot;, mas encaminhar as pessoas que est&atilde;o escrevendo atabalhoadamente sem dire&ccedil;&atilde;o... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que &quot;qualquer um consegue&quot;... Queria ouvir sua opini&atilde;o.Verdade. H&aacute; uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extens&atilde;o das cartas, n&atilde;o uma extens&atilde;o da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunica&ccedil;&atilde;o. Escrever n&atilde;o torna algu&eacute;m escritor. Ter voca&ccedil;&atilde;o ainda n&atilde;o &eacute; suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedica&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o acredito que o talento venha de um &quot;sangue azul&quot;. S&oacute; se for da caneta Bic. N&atilde;o se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, j&aacute; tem uma disposi&ccedil;&atilde;o, uma vontade, um &acirc;nimo diferenciado para se entregar &agrave; leitura. Encontrar&aacute; sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando algu&eacute;m grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem ser&atilde;o os novos autores. 5. Pergunta inevit&aacute;vel: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa gera&ccedil;&atilde;o? Eu juro que conheci voc&ecirc; atrav&eacute;s do blog do Polzonoff - voc&ecirc; acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que &eacute; um bom suporte? E as publica&ccedil;&otilde;es - por que ainda t&ecirc;m pouco poder de aglutina&ccedil;&atilde;o? Por que n&atilde;o surgiu uma revista de poesia de arrebentar? N&atilde;o concorda que j&aacute; temos quorum?Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma &aacute;rvore. Vejo prosa po&eacute;tica que vale a pena na internet. Exerc&iacute;cios l&iacute;ricos que j&aacute; formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de S&atilde;o Paulo, com Coisas da Gaveta. &Eacute; um suporte ideal para a contund&ecirc;ncia e concis&atilde;o do verso. O poema &eacute; a pr&eacute;-hist&oacute;ria do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, m&uacute;sica da respira&ccedil;&atilde;o, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. D&aacute; uma conferida. Pipol e Edson Cruz tamb&eacute;m s&atilde;o capazes de realizar uma anima&ccedil;&atilde;o em alto n&iacute;vel, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cron&oacute;pios). 6. E a cr&iacute;tica, continua morta viva, como nas d&eacute;cadas anteriores, ou est&aacute; atenta a esses fen&ocirc;menos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, voc&ecirc; &eacute; uma &quot;unanimidade po&eacute;tica&quot; como h&aacute; muito n&atilde;o se via... J&aacute; ouvi tamb&eacute;m cr&iacute;ticas a voc&ecirc; no sentido de que &eacute; um incans&aacute;vel divulgador da pr&oacute;pria obra - do tipo que fica tentando conquistar at&eacute; os cora&ccedil;&otilde;es mais relutantes... A fortuna cr&iacute;tica, hoje, virou uma quest&atilde;o de ser, como o N&eacute;lson Rodrigues dizia, &quot;o cont&iacute;nuo de si mesmo&quot;? Unanimidade? Todos temos &iacute;ndice de rejei&ccedil;&atilde;o, inclusive na fam&iacute;lia. Valorizo a discord&acirc;ncia, desde que com o cuidado e a eleg&acirc;ncia para n&atilde;o destruir e, sim, ajudar. Ler &eacute; se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet s&atilde;o os laranjas. Se eu entro num blog e n&atilde;o gosto, n&atilde;o vou deixar coment&aacute;rio ali ofendendo o autor. Esque&ccedil;o o link e sigo adiante. O sil&ecirc;ncio &eacute; uma forma de cr&iacute;tica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria liter&aacute;ria a ponto de julgar, amea&ccedil;ar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que n&atilde;o tenha nada a ver com o que penso. J&aacute; percebi que ele dificilmente elogiar&aacute; um poeta abaixo dos 40, que fa&ccedil;a verso livre. Mas &eacute; um cr&iacute;tico puro, no sentido de que n&atilde;o &eacute; um ficcionista se servindo da cr&iacute;tica, suscet&iacute;vel &agrave;s panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso &eacute; sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que &eacute; crime confiar no pr&oacute;prio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim. 7. Ali&aacute;s, s&atilde;o not&oacute;rias as brigas da Gera&ccedil;&atilde;o 90 - de certo modo, a sua gera&ccedil;&atilde;o - com a cr&iacute;tica estabelecida (&quot;Que cr&iacute;tica estabelecida?&quot;, perguntaria Paulo Francis)... Enfim, n&atilde;o falo exatamente do seu caso, mas n&atilde;o acha que falta um belo pux&atilde;o de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que est&atilde;o em todos os eventos de literatura, que s&atilde;o editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Gera&ccedil;&atilde;o 90 insiste em se comportar como &quot;rebelde sem causa&quot;?Perfeito. Ser marginal &eacute; um status, assim como ser louco. E &eacute; poss&iacute;vel perceber que a marginalidade &eacute; um modo bem r&aacute;pido de ter sucesso. N&atilde;o recomendo ser o que n&atilde;o se &eacute;, pois &eacute; duro ser louco ou marginal. Sinceridade n&atilde;o faz literatura, faz o escritor. A Gera&ccedil;&atilde;o 90, de muitos amigos, conseguiu seu espa&ccedil;o. Agora cada integrante tem que merecer a perman&ecirc;ncia em sua &eacute;poca e, depois, na hist&oacute;ria. Confesso que tenho ci&uacute;me de quem fala grosso. Minha voz &eacute; esgani&ccedil;ada.8. Mudando para temas mais amenos, desde o lan&ccedil;amento do seu O Amor Esquece de Come&ccedil;ar, eu olho pra voc&ecirc;, para o seu &quot;consult&oacute;rio sentimental&quot;, e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa n&atilde;o reclama do ass&eacute;dio? Como voc&ecirc; faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e coment&aacute;rios), das f&atilde;s? Brincadeira: sei que voc&ecirc; &eacute; pai de fam&iacute;lia extremoso, etc. e tal, mas n&atilde;o teme ficar com essa fama de titular da coluna Cora&ccedil;&otilde;es Solit&aacute;rios?N&atilde;o sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como n&atilde;o sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carism&aacute;tico. N&atilde;o apresento &iacute;ndole de gal&atilde;. Careca e narigudo s&atilde;o as &uacute;nicas semelhan&ccedil;as que guardo com Neruda. Eu n&atilde;o dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consult&oacute;rio Po&eacute;tico, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais &aacute;gil, por&eacute;m sei da import&acirc;ncia do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. N&atilde;o podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consult&oacute;rio sentimental no Di&aacute;rio da Noite. Ele usava o pseud&ocirc;nimo de Myrna. A diferen&ccedil;a &eacute; que sou meu pr&oacute;prio pseud&ocirc;nimo. &Eacute; &oacute;bvio que minha mulher reclama do ass&eacute;dio. Brinco com ela de que meu sonho &eacute; ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ci&uacute;me, que tamb&eacute;m sinto dela. 9. Quando recebi seu primeiro press-release, li l&aacute; que o Brasil inteiro estava &quot;carpinejando&quot;... E o mundo? Portugal tamb&eacute;m est&aacute;, neste momento, carpinejando? Como &eacute; recebida a sua mensagem no al&eacute;m-mar? Fran&ccedil;a, It&aacute;lia... Como &eacute; ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o c&eacute;lebre tradutor de Guimar&atilde;es Rosa? Voc&ecirc; tamb&eacute;m confere as suas edi&ccedil;&otilde;es estrangeiras como o autor de Grande Sert&atilde;o: Veredas? Ou concorda com aquela m&aacute;xima de que poesia &eacute; justamente o que se perde na tradu&ccedil;&atilde;o?Acompanho com admira&ccedil;&atilde;o, como se n&atilde;o fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intui&ccedil;&atilde;o. Mas assino embaixo da m&aacute;xima: o que se perde na tradu&ccedil;&atilde;o se ganha em ousadia. Traduzir &eacute; ler errado e escutar certo. 10. Para terminar: sempre quando falo com voc&ecirc;, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que voc&ecirc; j&aacute; toca... d&aacute; pra conciliar? Como &eacute; o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende &agrave;s solicita&ccedil;&otilde;es da imprensa, almo&ccedil;a, d&aacute; aulas, escreve poesia, escreve mat&eacute;rias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, d&aacute; palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Est&aacute; de acordo com Spinoza, que dizia que &quot;intelecto&quot; &eacute; tamb&eacute;m &quot;vontade&quot; (for&ccedil;a de vontade)? (&Agrave;s vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contr&aacute;rio de voc&ecirc; - reclamam demais e fazem de menos...) Vontade &eacute; uma senha. Sempre me agradou mais um time ra&ccedil;udo do que um time genial. O que &eacute; genial busca se exibir mais do que jogar. O que &eacute; genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que fa&ccedil;o. Demais. O que pode ser um problema: desconhe&ccedil;o os limites para dar uma tr&eacute;gua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho tr&ecirc;s irm&atilde;os, reclamar n&atilde;o fazia diferen&ccedil;a. Ningu&eacute;m da minha fam&iacute;lia esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A aus&ecirc;ncia de expectativa me livrou da cobran&ccedil;a. Tive que chamar aten&ccedil;&atilde;o de mim para somente assim chamar aten&ccedil;&atilde;o dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje n&atilde;o olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Al&eacute;m de fazer tudo o que voc&ecirc; antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dan&ccedil;ar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freq&uuml;entar livrarias e caf&eacute;s, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e n&atilde;o fazer nada. Minha normalidade &eacute; deliciosa. N&atilde;o preciso impressionar para ser feliz.]]&gt;
EMPAREDADOSou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no site, conduzida por Julio Daio Borges. A LITERATURA N&Atilde;O SUBSTITUI A VIDASegunda-feira, 6/11/2006Por Julio Daio Borges    Fabr&iacute;cio Carpinejar, em foto de Renata StodutoFabr&iacute;cio Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estr&eacute;ia po&eacute;tica, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros tr&ecirc;s livros anuais de poemas: Um Terno de P&aacute;ssaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma &aacute;rvore - at&eacute; a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.Desde 2004, &eacute; editado pela Bertrand Brasil por onde lan&ccedil;ou Cinco Marias (poemas), Como no c&eacute;u/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa po&eacute;tica) e O Amor Esquece de Come&ccedil;ar (2006, cr&ocirc;nicas) - sendo este &uacute;ltimo uma compila&ccedil;&atilde;o de textos a partir do seu blog na internet. Mant&eacute;m ainda a coluna semanal Consult&oacute;rio Po&eacute;tico, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (pr&ecirc;mio Olavo Bilac, 2003), pela Uni&atilde;o Brasileira dos Escritores (Cec&iacute;lia Meireles, 2002) e recebeu o A&ccedil;orianos de Literatura j&aacute; duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). O mote para esta Entrevista foi o Pr&ecirc;mio &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo, concedido a Carpinejar pela c&acirc;mara municipal de Porto Alegre, no &uacute;ltimo dia 23 de outubro, anivers&aacute;rio do poeta. Aqui, Fabr&iacute;cio conta como &eacute; fazer parte de uma fam&iacute;lia de poetas. Afirma que, ao contr&aacute;rio do que atualmente se acredita, &eacute; poss&iacute;vel viver de literatura. N&atilde;o se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet &eacute; o suporte ideal para a contund&ecirc;ncia e para a concis&atilde;o do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseud&ocirc;nimos. Sobre a cr&iacute;tica de Wilson Martins &agrave; sua poesia, pensa que ele jamais elogiar&aacute; um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de &quot;marqueteiro&quot;, tem uma resposta na ponta da l&iacute;ngua: &quot;Parece que hoje &eacute; crime confiar no pr&oacute;prio trabalho&quot;. Quanto ao ass&eacute;dio das f&atilde;s, brinca que quer ser &quot;o Wando da poesia&quot;. Carpinejar conclui, ainda, que &eacute; um &quot;feio carism&aacute;tico&quot; e alerta que &quot;a literatura n&atilde;o substitui a vida&quot;. (JDB)1. Fabr&iacute;cio, vamos come&ccedil;ar pelo come&ccedil;o. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e j&aacute; li em algum lugar que, com ele, voc&ecirc; junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que voc&ecirc; tem j&aacute; a sua fam&iacute;lia e que n&atilde;o discute poesia com seus genitores nas refei&ccedil;&otilde;es de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como &eacute; isso? J&aacute; li tamb&eacute;m que seus pais, quando te liam, s&oacute; te &quot;detonavam&quot;... &Eacute; verdade? Por &uacute;ltimo, o que voc&ecirc; acha de um Leitor do Digestivo que falou que voc&ecirc; &eacute; &quot;melhor&quot; do que a sua m&atilde;e mas &quot;pior&quot; do que o seu pai? Essas compara&ccedil;&otilde;es ainda fazem algum sentido para voc&ecirc; - ou poesia, em fam&iacute;lia, por ser trabalho, virou assunto tabu? As compara&ccedil;&otilde;es n&atilde;o fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competi&ccedil;&atilde;o dentro de casa, j&aacute; chega fora. Acho que ocorre uma provoca&ccedil;&atilde;o afetiva, que n&atilde;o &eacute; concorr&ecirc;ncia, ainda mais com tr&ecirc;s vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso &eacute; poss&iacute;vel. Meus pais davam pitacos sobre minha produ&ccedil;&atilde;o no come&ccedil;o, agora ficaram pregui&ccedil;osos ou viram que n&atilde;o tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a m&atilde;e. O pai &eacute; mais aberto. A m&atilde;e escuta, escuta e n&atilde;o me leva a s&eacute;rio. Meu medo &eacute; ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos). 2. No embalo da pergunta anterior, como &quot;se fez&quot; poeta? No seu blog, h&aacute; uma por&ccedil;&atilde;o de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade po&eacute;tica j&aacute; na adolesc&ecirc;ncia e na inf&acirc;ncia... Quando descobriu que faria poesia? &quot;Poeta&quot;, pra voc&ecirc;, &eacute; profiss&atilde;o? &Eacute; assim que voc&ecirc; preenche a ficha cadastral do hotel? &Eacute; assim que voc&ecirc; se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de forma&ccedil;&atilde;o: d&aacute; pra viver de direito autoral (a poesia &eacute; uma voca&ccedil;&atilde;o que, pra voc&ecirc;, valeu a pena)? N&atilde;o ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os p&aacute;ssaros escreveram e as &aacute;rvores voaram. Eu me fiz poeta pelas defici&ecirc;ncias. Como sofria muita goza&ccedil;&atilde;o na escola, em fun&ccedil;&atilde;o da fei&uacute;ra e dos problemas de dic&ccedil;&atilde;o, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco &eacute; poesia. Poesia n&atilde;o combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e n&atilde;o me apaixonei por mim. Eu assino mesmo &quot;escritor&quot; na ficha do hotel. At&eacute; porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar &quot;jornalista&quot; ou &quot;professor&quot;. &Eacute; poss&iacute;vel viver de literatura. J&aacute; foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajet&oacute;ria, mas hoje h&aacute; v&aacute;rios casos de jovens contempor&acirc;neos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e C&iacute;ntia Moscovich. Digo: viver de literatura n&atilde;o &eacute; somente viver de direito autoral, por&eacute;m do entorno, que inclui leituras p&uacute;blicas, saraus, debates, confer&ecirc;ncias e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista. 3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de voc&ecirc;, do que voc&ecirc; faz, mas tenho medo da sua consagra&ccedil;&atilde;o precoce... Voc&ecirc; n&atilde;o tem medo, n&atilde;o? Agora, ganhou o Pr&ecirc;mio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, voc&ecirc; n&atilde;o tem nem 35 anos! ABL, UBE, A&ccedil;orianos de Literatura... o que falta pra voc&ecirc;, o Nobel de Literatura? N&atilde;o tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o po&ccedil;o da inspira&ccedil;&atilde;o, de chegar do outro lado do arco-&iacute;ris e n&atilde;o encontrar nenhum pote de ouro?Se secar o po&ccedil;o da inspira&ccedil;&atilde;o, paro de escrever. A literatura n&atilde;o &eacute; uma religi&atilde;o. N&atilde;o vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura n&atilde;o substitui a vida, ela nos prende mais a ela. N&atilde;o entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo n&atilde;o pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. N&atilde;o &eacute; falando de amor que estarei amando. Um livro n&atilde;o vai justificar minha biografia. Nunca. N&atilde;o vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. N&atilde;o vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. H&aacute; uma tend&ecirc;ncia pela impunidade, que o escritor &eacute; capaz de fazer qualquer loucura porque &eacute; escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. N&atilde;o vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor n&atilde;o tem imunidade parlamentar. &Eacute; sua falta de imunidade que o fortalece, porque n&atilde;o se ver&aacute; pronto e sempre estar&aacute; apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; precocidade, como definir qual &eacute; o meu tempo? E se eu viver at&eacute; os 40 anos, estou recebendo pr&ecirc;mios tarde, no fim da vida. O talento n&atilde;o pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. N&atilde;o desejo concess&otilde;es comigo, prefiro o rigor e a cr&iacute;tica. N&atilde;o espero a complac&ecirc;ncia. Meu pior me melhora. O Nobel n&atilde;o deve ser uma ambi&ccedil;&atilde;o ou projeto de um escritor, por&eacute;m um acidente. 4. Misturando sua carreira, que eu considero mete&oacute;rica, com aquela hist&oacute;ria da sua forma&ccedil;&atilde;o, o que voc&ecirc; ensina no seu Curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento &eacute; algo transmiss&iacute;vel (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a id&eacute;ia do curso n&atilde;o &eacute; simplesmente &quot;ensinar a escrever&quot;, mas encaminhar as pessoas que est&atilde;o escrevendo atabalhoadamente sem dire&ccedil;&atilde;o... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que &quot;qualquer um consegue&quot;... Queria ouvir sua opini&atilde;o.Verdade. H&aacute; uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extens&atilde;o das cartas, n&atilde;o uma extens&atilde;o da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunica&ccedil;&atilde;o. Escrever n&atilde;o torna algu&eacute;m escritor. Ter voca&ccedil;&atilde;o ainda n&atilde;o &eacute; suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedica&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o acredito que o talento venha de um &quot;sangue azul&quot;. S&oacute; se for da caneta Bic. N&atilde;o se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, j&aacute; tem uma disposi&ccedil;&atilde;o, uma vontade, um &acirc;nimo diferenciado para se entregar &agrave; leitura. Encontrar&aacute; sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando algu&eacute;m grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem ser&atilde;o os novos autores. 5. Pergunta inevit&aacute;vel: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa gera&ccedil;&atilde;o? Eu juro que conheci voc&ecirc; atrav&eacute;s do blog do Polzonoff - voc&ecirc; acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que &eacute; um bom suporte? E as publica&ccedil;&otilde;es - por que ainda t&ecirc;m pouco poder de aglutina&ccedil;&atilde;o? Por que n&atilde;o surgiu uma revista de poesia de arrebentar? N&atilde;o concorda que j&aacute; temos quorum?Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma &aacute;rvore. Vejo prosa po&eacute;tica que vale a pena na internet. Exerc&iacute;cios l&iacute;ricos que j&aacute; formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de S&atilde;o Paulo, com Coisas da Gaveta. &Eacute; um suporte ideal para a contund&ecirc;ncia e concis&atilde;o do verso. O poema &eacute; a pr&eacute;-hist&oacute;ria do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, m&uacute;sica da respira&ccedil;&atilde;o, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. D&aacute; uma conferida. Pipol e Edson Cruz tamb&eacute;m s&atilde;o capazes de realizar uma anima&ccedil;&atilde;o em alto n&iacute;vel, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cron&oacute;pios). 6. E a cr&iacute;tica, continua morta viva, como nas d&eacute;cadas anteriores, ou est&aacute; atenta a esses fen&ocirc;menos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, voc&ecirc; &eacute; uma &quot;unanimidade po&eacute;tica&quot; como h&aacute; muito n&atilde;o se via... J&aacute; ouvi tamb&eacute;m cr&iacute;ticas a voc&ecirc; no sentido de que &eacute; um incans&aacute;vel divulgador da pr&oacute;pria obra - do tipo que fica tentando conquistar at&eacute; os cora&ccedil;&otilde;es mais relutantes... A fortuna cr&iacute;tica, hoje, virou uma quest&atilde;o de ser, como o N&eacute;lson Rodrigues dizia, &quot;o cont&iacute;nuo de si mesmo&quot;? Unanimidade? Todos temos &iacute;ndice de rejei&ccedil;&atilde;o, inclusive na fam&iacute;lia. Valorizo a discord&acirc;ncia, desde que com o cuidado e a eleg&acirc;ncia para n&atilde;o destruir e, sim, ajudar. Ler &eacute; se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet s&atilde;o os laranjas. Se eu entro num blog e n&atilde;o gosto, n&atilde;o vou deixar coment&aacute;rio ali ofendendo o autor. Esque&ccedil;o o link e sigo adiante. O sil&ecirc;ncio &eacute; uma forma de cr&iacute;tica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria liter&aacute;ria a ponto de julgar, amea&ccedil;ar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que n&atilde;o tenha nada a ver com o que penso. J&aacute; percebi que ele dificilmente elogiar&aacute; um poeta abaixo dos 40, que fa&ccedil;a verso livre. Mas &eacute; um cr&iacute;tico puro, no sentido de que n&atilde;o &eacute; um ficcionista se servindo da cr&iacute;tica, suscet&iacute;vel &agrave;s panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso &eacute; sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que &eacute; crime confiar no pr&oacute;prio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim. 7. Ali&aacute;s, s&atilde;o not&oacute;rias as brigas da Gera&ccedil;&atilde;o 90 - de certo modo, a sua gera&ccedil;&atilde;o - com a cr&iacute;tica estabelecida (&quot;Que cr&iacute;tica estabelecida?&quot;, perguntaria Paulo Francis)... Enfim, n&atilde;o falo exatamente do seu caso, mas n&atilde;o acha que falta um belo pux&atilde;o de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que est&atilde;o em todos os eventos de literatura, que s&atilde;o editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Gera&ccedil;&atilde;o 90 insiste em se comportar como &quot;rebelde sem causa&quot;?Perfeito. Ser marginal &eacute; um status, assim como ser louco. E &eacute; poss&iacute;vel perceber que a marginalidade &eacute; um modo bem r&aacute;pido de ter sucesso. N&atilde;o recomendo ser o que n&atilde;o se &eacute;, pois &eacute; duro ser louco ou marginal. Sinceridade n&atilde;o faz literatura, faz o escritor. A Gera&ccedil;&atilde;o 90, de muitos amigos, conseguiu seu espa&ccedil;o. Agora cada integrante tem que merecer a perman&ecirc;ncia em sua &eacute;poca e, depois, na hist&oacute;ria. Confesso que tenho ci&uacute;me de quem fala grosso. Minha voz &eacute; esgani&ccedil;ada.8. Mudando para temas mais amenos, desde o lan&ccedil;amento do seu O Amor Esquece de Come&ccedil;ar, eu olho pra voc&ecirc;, para o seu &quot;consult&oacute;rio sentimental&quot;, e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa n&atilde;o reclama do ass&eacute;dio? Como voc&ecirc; faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e coment&aacute;rios), das f&atilde;s? Brincadeira: sei que voc&ecirc; &eacute; pai de fam&iacute;lia extremoso, etc. e tal, mas n&atilde;o teme ficar com essa fama de titular da coluna Cora&ccedil;&otilde;es Solit&aacute;rios?N&atilde;o sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como n&atilde;o sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carism&aacute;tico. N&atilde;o apresento &iacute;ndole de gal&atilde;. Careca e narigudo s&atilde;o as &uacute;nicas semelhan&ccedil;as que guardo com Neruda. Eu n&atilde;o dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consult&oacute;rio Po&eacute;tico, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais &aacute;gil, por&eacute;m sei da import&acirc;ncia do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. N&atilde;o podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consult&oacute;rio sentimental no Di&aacute;rio da Noite. Ele usava o pseud&ocirc;nimo de Myrna. A diferen&ccedil;a &eacute; que sou meu pr&oacute;prio pseud&ocirc;nimo. &Eacute; &oacute;bvio que minha mulher reclama do ass&eacute;dio. Brinco com ela de que meu sonho &eacute; ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ci&uacute;me, que tamb&eacute;m sinto dela. 9. Quando recebi seu primeiro press-release, li l&aacute; que o Brasil inteiro estava &quot;carpinejando&quot;... E o mundo? Portugal tamb&eacute;m est&aacute;, neste momento, carpinejando? Como &eacute; recebida a sua mensagem no al&eacute;m-mar? Fran&ccedil;a, It&aacute;lia... Como &eacute; ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o c&eacute;lebre tradutor de Guimar&atilde;es Rosa? Voc&ecirc; tamb&eacute;m confere as suas edi&ccedil;&otilde;es estrangeiras como o autor de Grande Sert&atilde;o: Veredas? Ou concorda com aquela m&aacute;xima de que poesia &eacute; justamente o que se perde na tradu&ccedil;&atilde;o?Acompanho com admira&ccedil;&atilde;o, como se n&atilde;o fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intui&ccedil;&atilde;o. Mas assino embaixo da m&aacute;xima: o que se perde na tradu&ccedil;&atilde;o se ganha em ousadia. Traduzir &eacute; ler errado e escutar certo. 10. Para terminar: sempre quando falo com voc&ecirc;, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que voc&ecirc; j&aacute; toca... d&aacute; pra conciliar? Como &eacute; o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende &agrave;s solicita&ccedil;&otilde;es da imprensa, almo&ccedil;a, d&aacute; aulas, escreve poesia, escreve mat&eacute;rias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, d&aacute; palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Est&aacute; de acordo com Spinoza, que dizia que &quot;intelecto&quot; &eacute; tamb&eacute;m &quot;vontade&quot; (for&ccedil;a de vontade)? (&Agrave;s vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contr&aacute;rio de voc&ecirc; - reclamam demais e fazem de menos...) Vontade &eacute; uma senha. Sempre me agradou mais um time ra&ccedil;udo do que um time genial. O que &eacute; genial busca se exibir mais do que jogar. O que &eacute; genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que fa&ccedil;o. Demais. O que pode ser um problema: desconhe&ccedil;o os limites para dar uma tr&eacute;gua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho tr&ecirc;s irm&atilde;os, reclamar n&atilde;o fazia diferen&ccedil;a. Ningu&eacute;m da minha fam&iacute;lia esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A aus&ecirc;ncia de expectativa me livrou da cobran&ccedil;a. Tive que chamar aten&ccedil;&atilde;o de mim para somente assim chamar aten&ccedil;&atilde;o dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje n&atilde;o olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Al&eacute;m de fazer tudo o que voc&ecirc; antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dan&ccedil;ar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freq&uuml;entar livrarias e caf&eacute;s, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e n&atilde;o fazer nada. Minha normalidade &eacute; deliciosa. N&atilde;o preciso impressionar para ser feliz.]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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11/6/2006 12:26:16 AM



REL&Acirc;MPAGOS DA FEIRA DO LIVRO- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sess&atilde;o de aut&oacute;grafos da 52&ordf; Feira do Livro de Porto Alegre, na noite de s&aacute;bado (4/11). N&atilde;o cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pesco&ccedil;o. Eu assinava e ele desenhava. Criou v&aacute;rios tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pesco&ccedil;o de girafa, com chap&eacute;u de &aacute;rvore... - Na noite de sexta (3/11), eu e Fernando Chu&iacute; contracenando no espet&aacute;culo &quot;Poesia Expl&iacute;cita ao Vivo&quot;, apelidado carinhosamente de &quot;Canalha Rom&acirc;ntico&quot;. Foi minha primeira apresenta&ccedil;&atilde;o ao seu lado. Emocionante alternar can&ccedil;&atilde;o e poesia. 
REL&Acirc;MPAGOS DA FEIRA DO LIVRO- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sess&atilde;o de aut&oacute;grafos da 52&ordf; Feira do Livro de Porto Alegre, na noite de s&aacute;bado (4/11). N&atilde;o cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pesco&ccedil;o. Eu assinava e ele desenhava. Criou v&aacute;rios tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pesco&ccedil;o de girafa, com chap&eacute;u de &aacute;rvore... - Na noite de sexta (3/11), eu e Fernando Chu&iacute; contracenando no espet&aacute;culo &quot;Poesia Expl&iacute;cita ao Vivo&quot;, apelidado carinhosamente de &quot;Canalha Rom&acirc;ntico&quot;. Foi minha primeira apresenta&ccedil;&atilde;o ao seu lado. Emocionante alternar can&ccedil;&atilde;o e poesia. ]]&gt;
REL&Acirc;MPAGOS DA FEIRA DO LIVRO- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sess&atilde;o de aut&oacute;grafos da 52&ordf; Feira do Livro de Porto Alegre, na noite de s&aacute;bado (4/11). N&atilde;o cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pesco&ccedil;o. Eu assinava e ele desenhava. Criou v&aacute;rios tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pesco&ccedil;o de girafa, com chap&eacute;u de &aacute;rvore... - Na noite de sexta (3/11), eu e Fernando Chu&iacute; contracenando no espet&aacute;culo &quot;Poesia Expl&iacute;cita ao Vivo&quot;, apelidado carinhosamente de &quot;Canalha Rom&acirc;ntico&quot;. Foi minha primeira apresenta&ccedil;&atilde;o ao seu lado. Emocionante alternar can&ccedil;&atilde;o e poesia. ]]&gt;
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11/5/2006 12:01:41 PM



NA RECEP&Ccedil;&Atilde;O DA POUSADAPintura de Paul KleeFabr&iacute;cio CarpinejarEsperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto n&atilde;o faz sil&ecirc;ncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos!  Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol est&aacute; pr&oacute;ximo? Quatro horas da manh&atilde; e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta alian&ccedil;a.  Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obriga&ccedil;&atilde;o. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone at&eacute; 6h.  Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um caf&eacute;, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha cole&ccedil;&atilde;o de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recomp&ocirc;s. Homenzarr&atilde;o. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e n&atilde;o cansar. Pergunto se &eacute; casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de m&uacute;sica. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher. Agora ele ri. Agora defino: rir &eacute; seu solu&ccedil;o. Confessa que montou uma cole&ccedil;&atilde;o de 283 &oacute;culos. N&atilde;o falou 300. N&atilde;o falou 250. Foi preciso na numera&ccedil;&atilde;o. Duzentos e oitenta e tr&ecirc;s.  Afora o que comprava, v&aacute;rios amigos encontravam pe&ccedil;as extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camel&ocirc; a lojas, vestia &oacute;culos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro. Adorava quando sua mulher pedia para tir&aacute;-los e enxergar seus olhos. - Ela sempre brincava comigo, que era f&aacute;cil confundir a verdade com os &oacute;culos.Adorava quando sua mulher cismava que ele n&atilde;o teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro. - Bagaceiro, eu? Emoldurou grande parte dos &oacute;culos e cobriu sua casa com a cole&ccedil;&atilde;o. O escrit&oacute;rio povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes. Mas isso o que falo &eacute; passado, ou uma d&iacute;vida do passado. Jogou fora a cole&ccedil;&atilde;o, como o resto de sua mob&iacute;lia. Ele est&aacute; vi&uacute;vo h&aacute; um ano. Desculpa, ele est&aacute; vi&uacute;vo h&aacute; 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar: - Que coincid&ecirc;ncia, que coincid&ecirc;ncia, que coincid&ecirc;ncia.  Tive pena de mim por n&atilde;o falar mais nada. P&ocirc;s a perder a cole&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o fazia sentido. N&atilde;o fazia sentido juntar durante d&eacute;cadas o que ele n&atilde;o necessitava. - Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa. 
NA RECEP&Ccedil;&Atilde;O DA POUSADAPintura de Paul KleeFabr&iacute;cio CarpinejarEsperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto n&atilde;o faz sil&ecirc;ncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos!  Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol est&aacute; pr&oacute;ximo? Quatro horas da manh&atilde; e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta alian&ccedil;a.  Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obriga&ccedil;&atilde;o. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone at&eacute; 6h.  Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um caf&eacute;, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha cole&ccedil;&atilde;o de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recomp&ocirc;s. Homenzarr&atilde;o. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e n&atilde;o cansar. Pergunto se &eacute; casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de m&uacute;sica. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher. Agora ele ri. Agora defino: rir &eacute; seu solu&ccedil;o. Confessa que montou uma cole&ccedil;&atilde;o de 283 &oacute;culos. N&atilde;o falou 300. N&atilde;o falou 250. Foi preciso na numera&ccedil;&atilde;o. Duzentos e oitenta e tr&ecirc;s.  Afora o que comprava, v&aacute;rios amigos encontravam pe&ccedil;as extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camel&ocirc; a lojas, vestia &oacute;culos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro. Adorava quando sua mulher pedia para tir&aacute;-los e enxergar seus olhos. - Ela sempre brincava comigo, que era f&aacute;cil confundir a verdade com os &oacute;culos.Adorava quando sua mulher cismava que ele n&atilde;o teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro. - Bagaceiro, eu? Emoldurou grande parte dos &oacute;culos e cobriu sua casa com a cole&ccedil;&atilde;o. O escrit&oacute;rio povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes. Mas isso o que falo &eacute; passado, ou uma d&iacute;vida do passado. Jogou fora a cole&ccedil;&atilde;o, como o resto de sua mob&iacute;lia. Ele est&aacute; vi&uacute;vo h&aacute; um ano. Desculpa, ele est&aacute; vi&uacute;vo h&aacute; 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar: - Que coincid&ecirc;ncia, que coincid&ecirc;ncia, que coincid&ecirc;ncia.  Tive pena de mim por n&atilde;o falar mais nada. P&ocirc;s a perder a cole&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o fazia sentido. N&atilde;o fazia sentido juntar durante d&eacute;cadas o que ele n&atilde;o necessitava. - Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa. ]]&gt;
NA RECEP&Ccedil;&Atilde;O DA POUSADAPintura de Paul KleeFabr&iacute;cio CarpinejarEsperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto n&atilde;o faz sil&ecirc;ncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos!  Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol est&aacute; pr&oacute;ximo? Quatro horas da manh&atilde; e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta alian&ccedil;a.  Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obriga&ccedil;&atilde;o. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone at&eacute; 6h.  Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um caf&eacute;, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha cole&ccedil;&atilde;o de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recomp&ocirc;s. Homenzarr&atilde;o. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e n&atilde;o cansar. Pergunto se &eacute; casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de m&uacute;sica. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher. Agora ele ri. Agora defino: rir &eacute; seu solu&ccedil;o. Confessa que montou uma cole&ccedil;&atilde;o de 283 &oacute;culos. N&atilde;o falou 300. N&atilde;o falou 250. Foi preciso na numera&ccedil;&atilde;o. Duzentos e oitenta e tr&ecirc;s.  Afora o que comprava, v&aacute;rios amigos encontravam pe&ccedil;as extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camel&ocirc; a lojas, vestia &oacute;culos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro. Adorava quando sua mulher pedia para tir&aacute;-los e enxergar seus olhos. - Ela sempre brincava comigo, que era f&aacute;cil confundir a verdade com os &oacute;culos.Adorava quando sua mulher cismava que ele n&atilde;o teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro. - Bagaceiro, eu? Emoldurou grande parte dos &oacute;culos e cobriu sua casa com a cole&ccedil;&atilde;o. O escrit&oacute;rio povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes. Mas isso o que falo &eacute; passado, ou uma d&iacute;vida do passado. Jogou fora a cole&ccedil;&atilde;o, como o resto de sua mob&iacute;lia. Ele est&aacute; vi&uacute;vo h&aacute; um ano. Desculpa, ele est&aacute; vi&uacute;vo h&aacute; 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar: - Que coincid&ecirc;ncia, que coincid&ecirc;ncia, que coincid&ecirc;ncia.  Tive pena de mim por n&atilde;o falar mais nada. P&ocirc;s a perder a cole&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o fazia sentido. N&atilde;o fazia sentido juntar durante d&eacute;cadas o que ele n&atilde;o necessitava. - Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa. ]]&gt;
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11/4/2006 06:18:19 PM



REVELA&Ccedil;&Otilde;ESMariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. Veja l&aacute;. 
REVELA&Ccedil;&Otilde;ESMariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. Veja l&aacute;. ]]&gt;
REVELA&Ccedil;&Otilde;ESMariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. Veja l&aacute;. ]]&gt;
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11/4/2006 06:00:19 PM



NOVO CARPIMDe Fernando Chu&iacute; e Fabr&iacute;cio Carpinejar
NOVO CARPIMDe Fernando Chu&iacute; e Fabr&iacute;cio Carpinejar]]&gt;
NOVO CARPIMDe Fernando Chu&iacute; e Fabr&iacute;cio Carpinejar]]&gt;
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11/4/2006 05:57:34 PM



UMA VEZ NO RESTAURANTEPintura de Mir&oacute;Fabr&iacute;cio CarpinejarA m&atilde;e adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho. Era gar&ccedil;om do restaurante Ouri&ccedil;o. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os l&aacute;bios. A crian&ccedil;a n&atilde;o se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado.  O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu n&atilde;o incomodar. S&oacute; que a crian&ccedil;a perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele n&atilde;o receberia tamb&eacute;m uma gravata borboleta. H&aacute; guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pesco&ccedil;o. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam. O pai avisou que n&atilde;o tinha. Brabo. J&aacute; estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o servi&ccedil;o, providenciar a comida.Se o gar&ccedil;om normalmente olha para todos os lados, ele olhava at&eacute; para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua press&atilde;o subiu como espuma de chope.No entrevero entre a cozinha e a recep&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilha&ccedil;o produziu o batimento desordenado de um cora&ccedil;&atilde;o para transplante. O gar&ccedil;om-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa. Saiu ralhando:- N&atilde;o mexe mais em nada! Ingenuidade crer no sil&ecirc;ncio:- Pai, o que eu vou fazer com os bra&ccedil;os? - Que bra&ccedil;os?- N&atilde;o posso mexer em nada. A crian&ccedil;a observava com admira&ccedil;&atilde;o a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma &uacute;nica m&atilde;o, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os n&uacute;meros das mesas. - Meu pai &eacute; malabarista.- Meu pai nunca erra. - Meu pai &eacute; famoso, todos chamam ele.A cada elogio que recebia, o gar&ccedil;om se irritava. O amor impr&oacute;prio para aquele momento. A crian&ccedil;a n&atilde;o entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalh&atilde;o de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava hist&oacute;rias e o fazia dormir com a m&atilde;o no rosto. - Por favor, vou perder o emprego. O filho ensaiou um resmungo pela express&atilde;o de raiva, n&atilde;o por ter compreendido as palavras. - T&aacute; bom t&aacute; bom, depois a gente conversa. O chefe percebeu o desespero de seu funcion&aacute;rio. O medo de falhar. Alcan&ccedil;ou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos. A crian&ccedil;a foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imagin&aacute;ria. Cal&ccedil;ou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranq&uuml;ilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas. A crian&ccedil;a falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:- Viu? Sou que nem meu pai...Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. 
UMA VEZ NO RESTAURANTEPintura de Mir&oacute;Fabr&iacute;cio CarpinejarA m&atilde;e adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho. Era gar&ccedil;om do restaurante Ouri&ccedil;o. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os l&aacute;bios. A crian&ccedil;a n&atilde;o se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado.  O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu n&atilde;o incomodar. S&oacute; que a crian&ccedil;a perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele n&atilde;o receberia tamb&eacute;m uma gravata borboleta. H&aacute; guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pesco&ccedil;o. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam. O pai avisou que n&atilde;o tinha. Brabo. J&aacute; estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o servi&ccedil;o, providenciar a comida.Se o gar&ccedil;om normalmente olha para todos os lados, ele olhava at&eacute; para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua press&atilde;o subiu como espuma de chope.No entrevero entre a cozinha e a recep&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilha&ccedil;o produziu o batimento desordenado de um cora&ccedil;&atilde;o para transplante. O gar&ccedil;om-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa. Saiu ralhando:- N&atilde;o mexe mais em nada! Ingenuidade crer no sil&ecirc;ncio:- Pai, o que eu vou fazer com os bra&ccedil;os? - Que bra&ccedil;os?- N&atilde;o posso mexer em nada. A crian&ccedil;a observava com admira&ccedil;&atilde;o a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma &uacute;nica m&atilde;o, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os n&uacute;meros das mesas. - Meu pai &eacute; malabarista.- Meu pai nunca erra. - Meu pai &eacute; famoso, todos chamam ele.A cada elogio que recebia, o gar&ccedil;om se irritava. O amor impr&oacute;prio para aquele momento. A crian&ccedil;a n&atilde;o entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalh&atilde;o de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava hist&oacute;rias e o fazia dormir com a m&atilde;o no rosto. - Por favor, vou perder o emprego. O filho ensaiou um resmungo pela express&atilde;o de raiva, n&atilde;o por ter compreendido as palavras. - T&aacute; bom t&aacute; bom, depois a gente conversa. O chefe percebeu o desespero de seu funcion&aacute;rio. O medo de falhar. Alcan&ccedil;ou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos. A crian&ccedil;a foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imagin&aacute;ria. Cal&ccedil;ou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranq&uuml;ilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas. A crian&ccedil;a falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:- Viu? Sou que nem meu pai...Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. ]]&gt;
UMA VEZ NO RESTAURANTEPintura de Mir&oacute;Fabr&iacute;cio CarpinejarA m&atilde;e adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho. Era gar&ccedil;om do restaurante Ouri&ccedil;o. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os l&aacute;bios. A crian&ccedil;a n&atilde;o se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado.  O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu n&atilde;o incomodar. S&oacute; que a crian&ccedil;a perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele n&atilde;o receberia tamb&eacute;m uma gravata borboleta. H&aacute; guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pesco&ccedil;o. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam. O pai avisou que n&atilde;o tinha. Brabo. J&aacute; estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o servi&ccedil;o, providenciar a comida.Se o gar&ccedil;om normalmente olha para todos os lados, ele olhava at&eacute; para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua press&atilde;o subiu como espuma de chope.No entrevero entre a cozinha e a recep&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilha&ccedil;o produziu o batimento desordenado de um cora&ccedil;&atilde;o para transplante. O gar&ccedil;om-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa. Saiu ralhando:- N&atilde;o mexe mais em nada! Ingenuidade crer no sil&ecirc;ncio:- Pai, o que eu vou fazer com os bra&ccedil;os? - Que bra&ccedil;os?- N&atilde;o posso mexer em nada. A crian&ccedil;a observava com admira&ccedil;&atilde;o a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma &uacute;nica m&atilde;o, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os n&uacute;meros das mesas. - Meu pai &eacute; malabarista.- Meu pai nunca erra. - Meu pai &eacute; famoso, todos chamam ele.A cada elogio que recebia, o gar&ccedil;om se irritava. O amor impr&oacute;prio para aquele momento. A crian&ccedil;a n&atilde;o entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalh&atilde;o de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava hist&oacute;rias e o fazia dormir com a m&atilde;o no rosto. - Por favor, vou perder o emprego. O filho ensaiou um resmungo pela express&atilde;o de raiva, n&atilde;o por ter compreendido as palavras. - T&aacute; bom t&aacute; bom, depois a gente conversa. O chefe percebeu o desespero de seu funcion&aacute;rio. O medo de falhar. Alcan&ccedil;ou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos. A crian&ccedil;a foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imagin&aacute;ria. Cal&ccedil;ou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranq&uuml;ilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas. A crian&ccedil;a falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:- Viu? Sou que nem meu pai...Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. ]]&gt;
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http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39150223
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10/31/2006 06:05:26 PM



S&atilde;o Paulo, s&aacute;bado, 28 de outubro de 2006 Folha de S&atilde;o Paulo, Folhinha, 28/10/06 POEMAS IN&Eacute;DITOSArte de Joseph CornellFabr&iacute;cio CarpinejarMEU FILHO COMIGOMeu filho, n&atilde;o terminamosde conversar mesmo dormindo.Nossas tosses continuam o assunto.Uma responde &agrave; outra.Uma completa a outra.S&atilde;o tosses educadas,que n&atilde;o ofendem a noite. Somos tremendamente felizes na doen&ccedil;a. MINHA FILHA SEM MIMMinhas m&atilde;os n&atilde;o s&atilde;o m&atilde;os.Mas pente, quando ajeito teu cabelono port&atilde;o da escola. Mas rel&oacute;gio,a controlar tuas refei&ccedil;&otilde;es. Mas faca, a fatiar o p&atilde;o na mesa. Mas gancho, a segurar teu casacopara que corra no parque. Pai trocaas m&atilde;os pelos p&eacute;s de prop&oacute;sito,sempre atrasado em compara&ccedil;&atilde;o com a m&atilde;e.  
Folha de S&atilde;o Paulo, Folhinha, 28/10/06 POEMAS IN&Eacute;DITOSArte de Joseph CornellFabr&iacute;cio CarpinejarMEU FILHO COMIGOMeu filho, n&atilde;o terminamosde conversar mesmo dormindo.Nossas tosses continuam o assunto.Uma responde &agrave; outra.Uma completa a outra.S&atilde;o tosses educadas,que n&atilde;o ofendem a noite. Somos tremendamente felizes na doen&ccedil;a. MINHA FILHA SEM MIMMinhas m&atilde;os n&atilde;o s&atilde;o m&atilde;os.Mas pente, quando ajeito teu cabelono port&atilde;o da escola. Mas rel&oacute;gio,a controlar tuas refei&ccedil;&otilde;es. Mas faca, a fatiar o p&atilde;o na mesa. Mas gancho, a segurar teu casacopara que corra no parque. Pai trocaas m&atilde;os pelos p&eacute;s de prop&oacute;sito,sempre atrasado em compara&ccedil;&atilde;o com a m&atilde;e.  ]]&gt;
Folha de S&atilde;o Paulo, Folhinha, 28/10/06 POEMAS IN&Eacute;DITOSArte de Joseph CornellFabr&iacute;cio CarpinejarMEU FILHO COMIGOMeu filho, n&atilde;o terminamosde conversar mesmo dormindo.Nossas tosses continuam o assunto.Uma responde &agrave; outra.Uma completa a outra.S&atilde;o tosses educadas,que n&atilde;o ofendem a noite. Somos tremendamente felizes na doen&ccedil;a. MINHA FILHA SEM MIMMinhas m&atilde;os n&atilde;o s&atilde;o m&atilde;os.Mas pente, quando ajeito teu cabelono port&atilde;o da escola. Mas rel&oacute;gio,a controlar tuas refei&ccedil;&otilde;es. Mas faca, a fatiar o p&atilde;o na mesa. Mas gancho, a segurar teu casacopara que corra no parque. Pai trocaas m&atilde;os pelos p&eacute;s de prop&oacute;sito,sempre atrasado em compara&ccedil;&atilde;o com a m&atilde;e.  ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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10/28/2006 09:36:10 AM



ELE N&Atilde;O PERDOA MEU PASSADO!Colagem de Peter BlakeDo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Bom dia! Eu e o meu namorado trabalhamos juntos. Antes de namor&aacute;-lo, sa&iacute; com algumas pessoas, algumas delas aqui do trabalho. Ele ficou sabendo disso por interm&eacute;dio de outras pessoas, e, no come&ccedil;o, quando ele vinha me questionar, eu negava. Primeiro porque eu ainda n&atilde;o gostava dele, achava que n&atilde;o tinha nada a ver ficar sabendo disso, e tamb&eacute;m porque eu n&atilde;o quero saber do passado dele e acho que ele deveria agir da mesma forma. Acontece que de tanto ele insistir, eu acabei contando algumas das coisas que fiz. Eu era uma pessoa extremamente inconseq&uuml;ente e n&atilde;o estava nem a&iacute; pra nada. Sa&iacute;a mesmo, se eu estava a fim transava, enfim, n&atilde;o me preocupava com a minha imagem.Acontece que agora - n&atilde;o sei se voc&ecirc; j&aacute; passou por isso -  eu achei a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. Realmente amo muito ele. N&atilde;o quero mais saber de ningu&eacute;m, me sinto extremamente feliz e completa. Mas estou sendo massacrada pelas coisas que j&aacute; fiz anteriormente. N&atilde;o sei como agir. Eu nunca vou conseguir modificar o meu passado. E creio que isso vai interferir no meu futuro com ele. Quero muito resolver isso, mas tudo que eu tento fazer ou falar parece que s&oacute; piora as coisas. Tenho medo de perd&ecirc;-lo. Ele &eacute; tudo que eu sempre procurei em um homem e agora que eu achei isso est&aacute; me impedindo de ser realmente feliz com ele.Me ajude.Mirela&quot;Ol&aacute;, Mirela!Voc&ecirc; tem uma hist&oacute;ria, sua bagagem n&atilde;o &eacute; resultado do sobrenatural e do Esp&iacute;rito Santo. Ao come&ccedil;ar um namoro, n&atilde;o se apaga a mem&oacute;ria. &Eacute; uma ditadura fazer com que o outro elimine sua vida anterior, seus namorados, suas pequenas fa&ccedil;anhas, suas aventuras. Boas ou ruins, deliciosas ou tr&aacute;gicas: elas aconteceram e ensinaram. A amn&eacute;sia n&atilde;o significa fidelidade. Nem deve modificar seu passado, ou ficar envergonhada pelo aprendizado sexual. Ser feliz &eacute; n&atilde;o se proibir, permitir se conhecer, tentar. Sou contr&aacute;rio, por exemplo, a queimar caixinhas com as fotografias do ex. Inquisi&ccedil;&atilde;o combina com a Idade M&eacute;dia. Uma viol&ecirc;ncia sacrificar parte dos documentos de uma vida para agradar algu&eacute;m. Descartar as lembran&ccedil;as n&atilde;o preserva o futuro. Revela falta de sinceridade e conveni&ecirc;ncia. O &uacute;nico cuidado &eacute; evitar compara&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o transformar a mem&oacute;ria em indiscri&ccedil;&atilde;o ou grosseria. Inadmiss&iacute;vel elogiar um antigo companheiro e evocar momentos inesquec&iacute;veis na intimidade. Isso &eacute; tortura. Caso tenha feito sexo com dois homens ao mesmo tempo, ou participou de swing, sei l&aacute;, nada &eacute; capaz de interferir o que est&atilde;o construindo juntos. Ele n&atilde;o precisa aceitar, ou permitir, mas compreender. N&atilde;o &eacute; nenhum crime transar! Ele n&atilde;o transou antes de conhecer voc&ecirc;?Predomina a teoria machista, o homem pode transar com in&uacute;meras mulheres na pr&eacute;-hist&oacute;ria da rela&ccedil;&atilde;o, que s&oacute; alimenta sua virilidade. J&aacute; a mulher pode ter apenas alguns casos, menos de uma m&atilde;o, sen&atilde;o &eacute; prom&iacute;scua. Por favor, com toda a experi&ecirc;ncia adquirida, o casal tem condi&ccedil;&otilde;es de se dar mais e melhor. O amor n&atilde;o &eacute; puritano, n&atilde;o &eacute; preconceituoso, n&atilde;o condena. &Eacute; fiel &agrave; verdade.Enviem cartas com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br
ELE N&Atilde;O PERDOA MEU PASSADO!Colagem de Peter BlakeDo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Bom dia! Eu e o meu namorado trabalhamos juntos. Antes de namor&aacute;-lo, sa&iacute; com algumas pessoas, algumas delas aqui do trabalho. Ele ficou sabendo disso por interm&eacute;dio de outras pessoas, e, no come&ccedil;o, quando ele vinha me questionar, eu negava. Primeiro porque eu ainda n&atilde;o gostava dele, achava que n&atilde;o tinha nada a ver ficar sabendo disso, e tamb&eacute;m porque eu n&atilde;o quero saber do passado dele e acho que ele deveria agir da mesma forma. Acontece que de tanto ele insistir, eu acabei contando algumas das coisas que fiz. Eu era uma pessoa extremamente inconseq&uuml;ente e n&atilde;o estava nem a&iacute; pra nada. Sa&iacute;a mesmo, se eu estava a fim transava, enfim, n&atilde;o me preocupava com a minha imagem.Acontece que agora - n&atilde;o sei se voc&ecirc; j&aacute; passou por isso -  eu achei a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. Realmente amo muito ele. N&atilde;o quero mais saber de ningu&eacute;m, me sinto extremamente feliz e completa. Mas estou sendo massacrada pelas coisas que j&aacute; fiz anteriormente. N&atilde;o sei como agir. Eu nunca vou conseguir modificar o meu passado. E creio que isso vai interferir no meu futuro com ele. Quero muito resolver isso, mas tudo que eu tento fazer ou falar parece que s&oacute; piora as coisas. Tenho medo de perd&ecirc;-lo. Ele &eacute; tudo que eu sempre procurei em um homem e agora que eu achei isso est&aacute; me impedindo de ser realmente feliz com ele.Me ajude.Mirela&quot;Ol&aacute;, Mirela!Voc&ecirc; tem uma hist&oacute;ria, sua bagagem n&atilde;o &eacute; resultado do sobrenatural e do Esp&iacute;rito Santo. Ao come&ccedil;ar um namoro, n&atilde;o se apaga a mem&oacute;ria. &Eacute; uma ditadura fazer com que o outro elimine sua vida anterior, seus namorados, suas pequenas fa&ccedil;anhas, suas aventuras. Boas ou ruins, deliciosas ou tr&aacute;gicas: elas aconteceram e ensinaram. A amn&eacute;sia n&atilde;o significa fidelidade. Nem deve modificar seu passado, ou ficar envergonhada pelo aprendizado sexual. Ser feliz &eacute; n&atilde;o se proibir, permitir se conhecer, tentar. Sou contr&aacute;rio, por exemplo, a queimar caixinhas com as fotografias do ex. Inquisi&ccedil;&atilde;o combina com a Idade M&eacute;dia. Uma viol&ecirc;ncia sacrificar parte dos documentos de uma vida para agradar algu&eacute;m. Descartar as lembran&ccedil;as n&atilde;o preserva o futuro. Revela falta de sinceridade e conveni&ecirc;ncia. O &uacute;nico cuidado &eacute; evitar compara&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o transformar a mem&oacute;ria em indiscri&ccedil;&atilde;o ou grosseria. Inadmiss&iacute;vel elogiar um antigo companheiro e evocar momentos inesquec&iacute;veis na intimidade. Isso &eacute; tortura. Caso tenha feito sexo com dois homens ao mesmo tempo, ou participou de swing, sei l&aacute;, nada &eacute; capaz de interferir o que est&atilde;o construindo juntos. Ele n&atilde;o precisa aceitar, ou permitir, mas compreender. N&atilde;o &eacute; nenhum crime transar! Ele n&atilde;o transou antes de conhecer voc&ecirc;?Predomina a teoria machista, o homem pode transar com in&uacute;meras mulheres na pr&eacute;-hist&oacute;ria da rela&ccedil;&atilde;o, que s&oacute; alimenta sua virilidade. J&aacute; a mulher pode ter apenas alguns casos, menos de uma m&atilde;o, sen&atilde;o &eacute; prom&iacute;scua. Por favor, com toda a experi&ecirc;ncia adquirida, o casal tem condi&ccedil;&otilde;es de se dar mais e melhor. O amor n&atilde;o &eacute; puritano, n&atilde;o &eacute; preconceituoso, n&atilde;o condena. &Eacute; fiel &agrave; verdade.Enviem cartas com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br]]&gt;
ELE N&Atilde;O PERDOA MEU PASSADO!Colagem de Peter BlakeDo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Bom dia! Eu e o meu namorado trabalhamos juntos. Antes de namor&aacute;-lo, sa&iacute; com algumas pessoas, algumas delas aqui do trabalho. Ele ficou sabendo disso por interm&eacute;dio de outras pessoas, e, no come&ccedil;o, quando ele vinha me questionar, eu negava. Primeiro porque eu ainda n&atilde;o gostava dele, achava que n&atilde;o tinha nada a ver ficar sabendo disso, e tamb&eacute;m porque eu n&atilde;o quero saber do passado dele e acho que ele deveria agir da mesma forma. Acontece que de tanto ele insistir, eu acabei contando algumas das coisas que fiz. Eu era uma pessoa extremamente inconseq&uuml;ente e n&atilde;o estava nem a&iacute; pra nada. Sa&iacute;a mesmo, se eu estava a fim transava, enfim, n&atilde;o me preocupava com a minha imagem.Acontece que agora - n&atilde;o sei se voc&ecirc; j&aacute; passou por isso -  eu achei a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. Realmente amo muito ele. N&atilde;o quero mais saber de ningu&eacute;m, me sinto extremamente feliz e completa. Mas estou sendo massacrada pelas coisas que j&aacute; fiz anteriormente. N&atilde;o sei como agir. Eu nunca vou conseguir modificar o meu passado. E creio que isso vai interferir no meu futuro com ele. Quero muito resolver isso, mas tudo que eu tento fazer ou falar parece que s&oacute; piora as coisas. Tenho medo de perd&ecirc;-lo. Ele &eacute; tudo que eu sempre procurei em um homem e agora que eu achei isso est&aacute; me impedindo de ser realmente feliz com ele.Me ajude.Mirela&quot;Ol&aacute;, Mirela!Voc&ecirc; tem uma hist&oacute;ria, sua bagagem n&atilde;o &eacute; resultado do sobrenatural e do Esp&iacute;rito Santo. Ao come&ccedil;ar um namoro, n&atilde;o se apaga a mem&oacute;ria. &Eacute; uma ditadura fazer com que o outro elimine sua vida anterior, seus namorados, suas pequenas fa&ccedil;anhas, suas aventuras. Boas ou ruins, deliciosas ou tr&aacute;gicas: elas aconteceram e ensinaram. A amn&eacute;sia n&atilde;o significa fidelidade. Nem deve modificar seu passado, ou ficar envergonhada pelo aprendizado sexual. Ser feliz &eacute; n&atilde;o se proibir, permitir se conhecer, tentar. Sou contr&aacute;rio, por exemplo, a queimar caixinhas com as fotografias do ex. Inquisi&ccedil;&atilde;o combina com a Idade M&eacute;dia. Uma viol&ecirc;ncia sacrificar parte dos documentos de uma vida para agradar algu&eacute;m. Descartar as lembran&ccedil;as n&atilde;o preserva o futuro. Revela falta de sinceridade e conveni&ecirc;ncia. O &uacute;nico cuidado &eacute; evitar compara&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o transformar a mem&oacute;ria em indiscri&ccedil;&atilde;o ou grosseria. Inadmiss&iacute;vel elogiar um antigo companheiro e evocar momentos inesquec&iacute;veis na intimidade. Isso &eacute; tortura. Caso tenha feito sexo com dois homens ao mesmo tempo, ou participou de swing, sei l&aacute;, nada &eacute; capaz de interferir o que est&atilde;o construindo juntos. Ele n&atilde;o precisa aceitar, ou permitir, mas compreender. N&atilde;o &eacute; nenhum crime transar! Ele n&atilde;o transou antes de conhecer voc&ecirc;?Predomina a teoria machista, o homem pode transar com in&uacute;meras mulheres na pr&eacute;-hist&oacute;ria da rela&ccedil;&atilde;o, que s&oacute; alimenta sua virilidade. J&aacute; a mulher pode ter apenas alguns casos, menos de uma m&atilde;o, sen&atilde;o &eacute; prom&iacute;scua. Por favor, com toda a experi&ecirc;ncia adquirida, o casal tem condi&ccedil;&otilde;es de se dar mais e melhor. O amor n&atilde;o &eacute; puritano, n&atilde;o &eacute; preconceituoso, n&atilde;o condena. &Eacute; fiel &agrave; verdade.Enviem cartas com suas d&uacute;vidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br]]&gt;
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10/27/2006 02:01:36 PM



O SULAcabo de ser informado que receberei o Pr&ecirc;mio Sul, Nacional e os Livros 2006, da Rede Pampa, categoria Iniciativa cultural, pela abertura do  Curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios da Unisinos. &Eacute; uma premia&ccedil;&atilde;o que dedico aos alunos e professores.  Para completar a felicidade, Maria Carpi, dign&iacute;ssima m&atilde;e, ganhou na categoria Poesia com seu lan&ccedil;amento &quot;O Her&oacute;i Desvalido&quot; (Bertrand Brasil).A cerim&ocirc;nia de entrega do trof&eacute;u acontece na ter&ccedil;a (31/10), &agrave;s 21h, na Associa&ccedil;&atilde;o Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre (RS). 
O SULAcabo de ser informado que receberei o Pr&ecirc;mio Sul, Nacional e os Livros 2006, da Rede Pampa, categoria Iniciativa cultural, pela abertura do  Curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios da Unisinos. &Eacute; uma premia&ccedil;&atilde;o que dedico aos alunos e professores.  Para completar a felicidade, Maria Carpi, dign&iacute;ssima m&atilde;e, ganhou na categoria Poesia com seu lan&ccedil;amento &quot;O Her&oacute;i Desvalido&quot; (Bertrand Brasil).A cerim&ocirc;nia de entrega do trof&eacute;u acontece na ter&ccedil;a (31/10), &agrave;s 21h, na Associa&ccedil;&atilde;o Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre (RS). ]]&gt;
O SULAcabo de ser informado que receberei o Pr&ecirc;mio Sul, Nacional e os Livros 2006, da Rede Pampa, categoria Iniciativa cultural, pela abertura do  Curso de Forma&ccedil;&atilde;o de Escritores e Agentes Liter&aacute;rios da Unisinos. &Eacute; uma premia&ccedil;&atilde;o que dedico aos alunos e professores.  Para completar a felicidade, Maria Carpi, dign&iacute;ssima m&atilde;e, ganhou na categoria Poesia com seu lan&ccedil;amento &quot;O Her&oacute;i Desvalido&quot; (Bertrand Brasil).A cerim&ocirc;nia de entrega do trof&eacute;u acontece na ter&ccedil;a (31/10), &agrave;s 21h, na Associa&ccedil;&atilde;o Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre (RS). ]]&gt;
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10/27/2006 01:59:46 PM



LEITE EMPEDRADOPintura &quot;L&eacute;a e Maura&quot;, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)Fabr&iacute;cio CarpinejarElas n&atilde;o eram g&ecirc;meas. Deus n&atilde;o repete a mesma letra. Deus se nega. Nega ter escrito alguma coisa. Deus &eacute; um autor in&eacute;dito. Jana&iacute;na e Jamela nasceram no mesmo ventre, dois minutos depois da outra. Parto normal, como se fosse normal o homem. A m&atilde;e Arlete trabalhava como faxineira de hotel. Apagava a mem&oacute;ria dos h&oacute;spedes, que encontravam o quarto ileso do primeiro dia. N&atilde;o prestou aten&ccedil;&atilde;o em quem veio primeiro. Jana&iacute;na ou Jamela? Dois minutos &eacute; pouco para uma vida, muito para uma morte. N&atilde;o pensou nos nomes. J&aacute; estavam prontos, com roupas e sapatos. Suas duas meninas santas criaturas haviam morrido antes e se chamavam Jamela e Jana&iacute;na. Morreram afogadas no a&ccedil;ude. N&atilde;o eram g&ecirc;meas. Nada no mundo &eacute; g&ecirc;meo: a alegria, a dor, a esperan&ccedil;a, o rancor da alegre dor. Se havia alguma coisa alegre no mundo era a dor, isso Arlete conhecia. Rezava o ter&ccedil;o gritando. Jana&iacute;na e Jamela nasceram no dia dos finados. Provoca&ccedil;&atilde;o? Acreditou que Jamela e Jana&iacute;na eram a Jamela e Jana&iacute;na afogadas. O leite empedrou como se fosse l&aacute;pide o mamilo rosado. Rosa cheirosa de l&aacute;pide, sem vala de p&eacute;tala para sair o cheiro, sem velas de abelhas para mudar de lugar. O seio preso &eacute; pior do que dor de dente. O seio preso &eacute; um dente sufocando a l&iacute;ngua. Cheiro trancado &eacute; fedor. A f&eacute; fede. Jana&iacute;na e Jamela fermentaram aos bocados, aos bordados, trancadas em casa. Idade n&atilde;o havia. A &uacute;nica certeza &eacute; que uma nasceu dois minutos depois da outra. Qual? Arlete n&atilde;o controlou, gritando de dor. O grito &eacute; uma forma de rir. Vestiam a mesma roupa. A roupa das irm&atilde;s g&ecirc;meas mortas. Jamela gostava de ser Jana&iacute;na e Jana&iacute;na gostava de ser Jamela, para enlouquecer a m&atilde;e. Mas Jamela se agravava em Jana&iacute;na pela cova abaixo da boca e Jana&iacute;na se fingia de Jamela emagrecendo. O pai Bo&eacute;cio andava de caminh&atilde;o pelas estradas. Nunca vinha para jantar. Nunca vinha para almo&ccedil;ar. A m&atilde;e chamava pela casa as quatro filhas, duas mortas e duas vivas, entre panelas fumegando e janelas cerradas. Qual das duas vivia no escuro? Deus n&atilde;o explica o que n&atilde;o escreveu. Festa de anivers&aacute;rio n&atilde;o havia. Jana&iacute;na e Jamela visitavam o cemit&eacute;rio. Ficavam o dia inteirinho diante da cruz das irm&atilde;s mortas. Seus nomes antecipados na pedra, falecidos antes de nascerem. A morte &eacute; bem mais dur&aacute;vel, n&atilde;o discorda, n&atilde;o quebra, n&atilde;o amolece. A m&atilde;e rezava um ter&ccedil;o de tr&aacute;s para diante, revezando as novenas com Jamela e Jana&iacute;na. Quem reza ter&ccedil;o se acostuma a algemar as m&atilde;os. Esquerda sentada na direita. Filhas perfeitas s&atilde;o as que morreram. Cidade pequena &eacute; assim: tudo termina cedo para come&ccedil;ar mais tarde. Jamela e Jana&iacute;na s&atilde;o t&atilde;o fortes que cresceram sem existir. S&oacute; Arlete as viu, preocupada em apagar os dois minutos de diferen&ccedil;a entre uma e outra. Da antologia &quot;Contos sobre tela&quot; (Edi&ccedil;&otilde;es Pinakotheke, 142 p&aacute;ginas), organiza&ccedil;&atilde;o Marcelo Moutinho, v&aacute;rios autores.
LEITE EMPEDRADOPintura &quot;L&eacute;a e Maura&quot;, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)Fabr&iacute;cio CarpinejarElas n&atilde;o eram g&ecirc;meas. Deus n&atilde;o repete a mesma letra. Deus se nega. Nega ter escrito alguma coisa. Deus &eacute; um autor in&eacute;dito. Jana&iacute;na e Jamela nasceram no mesmo ventre, dois minutos depois da outra. Parto normal, como se fosse normal o homem. A m&atilde;e Arlete trabalhava como faxineira de hotel. Apagava a mem&oacute;ria dos h&oacute;spedes, que encontravam o quarto ileso do primeiro dia. N&atilde;o prestou aten&ccedil;&atilde;o em quem veio primeiro. Jana&iacute;na ou Jamela? Dois minutos &eacute; pouco para uma vida, muito para uma morte. N&atilde;o pensou nos nomes. J&aacute; estavam prontos, com roupas e sapatos. Suas duas meninas santas criaturas haviam morrido antes e se chamavam Jamela e Jana&iacute;na. Morreram afogadas no a&ccedil;ude. N&atilde;o eram g&ecirc;meas. Nada no mundo &eacute; g&ecirc;meo: a alegria, a dor, a esperan&ccedil;a, o rancor da alegre dor. Se havia alguma coisa alegre no mundo era a dor, isso Arlete conhecia. Rezava o ter&ccedil;o gritando. Jana&iacute;na e Jamela nasceram no dia dos finados. Provoca&ccedil;&atilde;o? Acreditou que Jamela e Jana&iacute;na eram a Jamela e Jana&iacute;na afogadas. O leite empedrou como se fosse l&aacute;pide o mamilo rosado. Rosa cheirosa de l&aacute;pide, sem vala de p&eacute;tala para sair o cheiro, sem velas de abelhas para mudar de lugar. O seio preso &eacute; pior do que dor de dente. O seio preso &eacute; um dente sufocando a l&iacute;ngua. Cheiro trancado &eacute; fedor. A f&eacute; fede. Jana&iacute;na e Jamela fermentaram aos bocados, aos bordados, trancadas em casa. Idade n&atilde;o havia. A &uacute;nica certeza &eacute; que uma nasceu dois minutos depois da outra. Qual? Arlete n&atilde;o controlou, gritando de dor. O grito &eacute; uma forma de rir. Vestiam a mesma roupa. A roupa das irm&atilde;s g&ecirc;meas mortas. Jamela gostava de ser Jana&iacute;na e Jana&iacute;na gostava de ser Jamela, para enlouquecer a m&atilde;e. Mas Jamela se agravava em Jana&iacute;na pela cova abaixo da boca e Jana&iacute;na se fingia de Jamela emagrecendo. O pai Bo&eacute;cio andava de caminh&atilde;o pelas estradas. Nunca vinha para jantar. Nunca vinha para almo&ccedil;ar. A m&atilde;e chamava pela casa as quatro filhas, duas mortas e duas vivas, entre panelas fumegando e janelas cerradas. Qual das duas vivia no escuro? Deus n&atilde;o explica o que n&atilde;o escreveu. Festa de anivers&aacute;rio n&atilde;o havia. Jana&iacute;na e Jamela visitavam o cemit&eacute;rio. Ficavam o dia inteirinho diante da cruz das irm&atilde;s mortas. Seus nomes antecipados na pedra, falecidos antes de nascerem. A morte &eacute; bem mais dur&aacute;vel, n&atilde;o discorda, n&atilde;o quebra, n&atilde;o amolece. A m&atilde;e rezava um ter&ccedil;o de tr&aacute;s para diante, revezando as novenas com Jamela e Jana&iacute;na. Quem reza ter&ccedil;o se acostuma a algemar as m&atilde;os. Esquerda sentada na direita. Filhas perfeitas s&atilde;o as que morreram. Cidade pequena &eacute; assim: tudo termina cedo para come&ccedil;ar mais tarde. Jamela e Jana&iacute;na s&atilde;o t&atilde;o fortes que cresceram sem existir. S&oacute; Arlete as viu, preocupada em apagar os dois minutos de diferen&ccedil;a entre uma e outra. Da antologia &quot;Contos sobre tela&quot; (Edi&ccedil;&otilde;es Pinakotheke, 142 p&aacute;ginas), organiza&ccedil;&atilde;o Marcelo Moutinho, v&aacute;rios autores.]]&gt;
LEITE EMPEDRADOPintura &quot;L&eacute;a e Maura&quot;, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)Fabr&iacute;cio CarpinejarElas n&atilde;o eram g&ecirc;meas. Deus n&atilde;o repete a mesma letra. Deus se nega. Nega ter escrito alguma coisa. Deus &eacute; um autor in&eacute;dito. Jana&iacute;na e Jamela nasceram no mesmo ventre, dois minutos depois da outra. Parto normal, como se fosse normal o homem. A m&atilde;e Arlete trabalhava como faxineira de hotel. Apagava a mem&oacute;ria dos h&oacute;spedes, que encontravam o quarto ileso do primeiro dia. N&atilde;o prestou aten&ccedil;&atilde;o em quem veio primeiro. Jana&iacute;na ou Jamela? Dois minutos &eacute; pouco para uma vida, muito para uma morte. N&atilde;o pensou nos nomes. J&aacute; estavam prontos, com roupas e sapatos. Suas duas meninas santas criaturas haviam morrido antes e se chamavam Jamela e Jana&iacute;na. Morreram afogadas no a&ccedil;ude. N&atilde;o eram g&ecirc;meas. Nada no mundo &eacute; g&ecirc;meo: a alegria, a dor, a esperan&ccedil;a, o rancor da alegre dor. Se havia alguma coisa alegre no mundo era a dor, isso Arlete conhecia. Rezava o ter&ccedil;o gritando. Jana&iacute;na e Jamela nasceram no dia dos finados. Provoca&ccedil;&atilde;o? Acreditou que Jamela e Jana&iacute;na eram a Jamela e Jana&iacute;na afogadas. O leite empedrou como se fosse l&aacute;pide o mamilo rosado. Rosa cheirosa de l&aacute;pide, sem vala de p&eacute;tala para sair o cheiro, sem velas de abelhas para mudar de lugar. O seio preso &eacute; pior do que dor de dente. O seio preso &eacute; um dente sufocando a l&iacute;ngua. Cheiro trancado &eacute; fedor. A f&eacute; fede. Jana&iacute;na e Jamela fermentaram aos bocados, aos bordados, trancadas em casa. Idade n&atilde;o havia. A &uacute;nica certeza &eacute; que uma nasceu dois minutos depois da outra. Qual? Arlete n&atilde;o controlou, gritando de dor. O grito &eacute; uma forma de rir. Vestiam a mesma roupa. A roupa das irm&atilde;s g&ecirc;meas mortas. Jamela gostava de ser Jana&iacute;na e Jana&iacute;na gostava de ser Jamela, para enlouquecer a m&atilde;e. Mas Jamela se agravava em Jana&iacute;na pela cova abaixo da boca e Jana&iacute;na se fingia de Jamela emagrecendo. O pai Bo&eacute;cio andava de caminh&atilde;o pelas estradas. Nunca vinha para jantar. Nunca vinha para almo&ccedil;ar. A m&atilde;e chamava pela casa as quatro filhas, duas mortas e duas vivas, entre panelas fumegando e janelas cerradas. Qual das duas vivia no escuro? Deus n&atilde;o explica o que n&atilde;o escreveu. Festa de anivers&aacute;rio n&atilde;o havia. Jana&iacute;na e Jamela visitavam o cemit&eacute;rio. Ficavam o dia inteirinho diante da cruz das irm&atilde;s mortas. Seus nomes antecipados na pedra, falecidos antes de nascerem. A morte &eacute; bem mais dur&aacute;vel, n&atilde;o discorda, n&atilde;o quebra, n&atilde;o amolece. A m&atilde;e rezava um ter&ccedil;o de tr&aacute;s para diante, revezando as novenas com Jamela e Jana&iacute;na. Quem reza ter&ccedil;o se acostuma a algemar as m&atilde;os. Esquerda sentada na direita. Filhas perfeitas s&atilde;o as que morreram. Cidade pequena &eacute; assim: tudo termina cedo para come&ccedil;ar mais tarde. Jamela e Jana&iacute;na s&atilde;o t&atilde;o fortes que cresceram sem existir. S&oacute; Arlete as viu, preocupada em apagar os dois minutos de diferen&ccedil;a entre uma e outra. Da antologia &quot;Contos sobre tela&quot; (Edi&ccedil;&otilde;es Pinakotheke, 142 p&aacute;ginas), organiza&ccedil;&atilde;o Marcelo Moutinho, v&aacute;rios autores.]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39136487
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html
10/26/2006 07:50:43 PM



S&Uacute;BITA COMPREENS&Atilde;OPintura de GuayasaminFabr&iacute;cio CarpinejarS&oacute; quero que seja feliz. Ele usa todo o c&eacute;u da boca para a declara&ccedil;&atilde;o Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua sa&uacute;de, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu des&acirc;nimo, o estresse, a irrita&ccedil;&atilde;o excessiva. De onde partiu essa generosidade? Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. N&atilde;o &eacute; esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de coloc&aacute;-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrif&iacute;cio, renuncia o ego&iacute;smo para agrad&aacute;-la. Finalmente se p&otilde;e no lugar da mulher e vislumbra uma sa&iacute;da.  Com fala mansa e cordial, adverte que voc&ecirc; precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agrad&aacute;vel passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo ego&iacute;sta, que n&atilde;o percebeu seu cansa&ccedil;o antes e pede desculpa pela lentid&atilde;o de racioc&iacute;nio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado. Recomenda at&eacute; uma viagem de f&eacute;rias, para Macei&oacute;, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. &quot;Eu cuido da casa, fica tranq&uuml;ila&quot;, avisa. Promete que as plantinhas n&atilde;o ir&atilde;o morrer de sede, tem cabimento?A impress&atilde;o inicial &eacute; que teve um estalo, bateu a cabe&ccedil;a, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hiberna&ccedil;&atilde;o masculina. O que cheira mal &eacute; que a frase surge unicamente na crise e na tens&atilde;o. Na briga e na despedida. N&atilde;o ser&aacute; ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. N&atilde;o ser&aacute; ouvida no in&iacute;cio do relacionamento. Aparece nos cr&eacute;ditos finais do amor, quando o filme j&aacute; foi visto. A express&atilde;o &eacute; uma paulada, um gen&eacute;rico do &quot;quero continuar seu amigo&quot;. Triste escut&aacute;-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental. O que ele est&aacute; pedindo para que fa&ccedil;a quer fazer para si e n&atilde;o tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. &Eacute; um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: &quot;tem raz&atilde;o&quot;, para em seguida soltar os dem&ocirc;nios, aprontar, fazer a pose de v&iacute;tima e n&atilde;o se responsabilizar pela separa&ccedil;&atilde;o. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados. S&oacute; quero que seja feliz deve ser lido &quot;&eacute; melhor nos separarmos, que tenho outros projetos&quot;. S&oacute; quero que seja feliz deve ser interpretado &quot;quero minha felicidade, que n&atilde;o combina com a sua&quot;. S&oacute; quero que seja feliz &eacute; uma ordem de despejo entregue com educa&ccedil;&atilde;o. Nunca somos felizes pelos outros. 
S&Uacute;BITA COMPREENS&Atilde;OPintura de GuayasaminFabr&iacute;cio CarpinejarS&oacute; quero que seja feliz. Ele usa todo o c&eacute;u da boca para a declara&ccedil;&atilde;o Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua sa&uacute;de, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu des&acirc;nimo, o estresse, a irrita&ccedil;&atilde;o excessiva. De onde partiu essa generosidade? Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. N&atilde;o &eacute; esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de coloc&aacute;-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrif&iacute;cio, renuncia o ego&iacute;smo para agrad&aacute;-la. Finalmente se p&otilde;e no lugar da mulher e vislumbra uma sa&iacute;da.  Com fala mansa e cordial, adverte que voc&ecirc; precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agrad&aacute;vel passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo ego&iacute;sta, que n&atilde;o percebeu seu cansa&ccedil;o antes e pede desculpa pela lentid&atilde;o de racioc&iacute;nio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado. Recomenda at&eacute; uma viagem de f&eacute;rias, para Macei&oacute;, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. &quot;Eu cuido da casa, fica tranq&uuml;ila&quot;, avisa. Promete que as plantinhas n&atilde;o ir&atilde;o morrer de sede, tem cabimento?A impress&atilde;o inicial &eacute; que teve um estalo, bateu a cabe&ccedil;a, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hiberna&ccedil;&atilde;o masculina. O que cheira mal &eacute; que a frase surge unicamente na crise e na tens&atilde;o. Na briga e na despedida. N&atilde;o ser&aacute; ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. N&atilde;o ser&aacute; ouvida no in&iacute;cio do relacionamento. Aparece nos cr&eacute;ditos finais do amor, quando o filme j&aacute; foi visto. A express&atilde;o &eacute; uma paulada, um gen&eacute;rico do &quot;quero continuar seu amigo&quot;. Triste escut&aacute;-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental. O que ele est&aacute; pedindo para que fa&ccedil;a quer fazer para si e n&atilde;o tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. &Eacute; um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: &quot;tem raz&atilde;o&quot;, para em seguida soltar os dem&ocirc;nios, aprontar, fazer a pose de v&iacute;tima e n&atilde;o se responsabilizar pela separa&ccedil;&atilde;o. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados. S&oacute; quero que seja feliz deve ser lido &quot;&eacute; melhor nos separarmos, que tenho outros projetos&quot;. S&oacute; quero que seja feliz deve ser interpretado &quot;quero minha felicidade, que n&atilde;o combina com a sua&quot;. S&oacute; quero que seja feliz &eacute; uma ordem de despejo entregue com educa&ccedil;&atilde;o. Nunca somos felizes pelos outros. ]]&gt;
S&Uacute;BITA COMPREENS&Atilde;OPintura de GuayasaminFabr&iacute;cio CarpinejarS&oacute; quero que seja feliz. Ele usa todo o c&eacute;u da boca para a declara&ccedil;&atilde;o Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua sa&uacute;de, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu des&acirc;nimo, o estresse, a irrita&ccedil;&atilde;o excessiva. De onde partiu essa generosidade? Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. N&atilde;o &eacute; esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de coloc&aacute;-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrif&iacute;cio, renuncia o ego&iacute;smo para agrad&aacute;-la. Finalmente se p&otilde;e no lugar da mulher e vislumbra uma sa&iacute;da.  Com fala mansa e cordial, adverte que voc&ecirc; precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agrad&aacute;vel passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo ego&iacute;sta, que n&atilde;o percebeu seu cansa&ccedil;o antes e pede desculpa pela lentid&atilde;o de racioc&iacute;nio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado. Recomenda at&eacute; uma viagem de f&eacute;rias, para Macei&oacute;, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. &quot;Eu cuido da casa, fica tranq&uuml;ila&quot;, avisa. Promete que as plantinhas n&atilde;o ir&atilde;o morrer de sede, tem cabimento?A impress&atilde;o inicial &eacute; que teve um estalo, bateu a cabe&ccedil;a, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hiberna&ccedil;&atilde;o masculina. O que cheira mal &eacute; que a frase surge unicamente na crise e na tens&atilde;o. Na briga e na despedida. N&atilde;o ser&aacute; ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. N&atilde;o ser&aacute; ouvida no in&iacute;cio do relacionamento. Aparece nos cr&eacute;ditos finais do amor, quando o filme j&aacute; foi visto. A express&atilde;o &eacute; uma paulada, um gen&eacute;rico do &quot;quero continuar seu amigo&quot;. Triste escut&aacute;-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental. O que ele est&aacute; pedindo para que fa&ccedil;a quer fazer para si e n&atilde;o tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. &Eacute; um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: &quot;tem raz&atilde;o&quot;, para em seguida soltar os dem&ocirc;nios, aprontar, fazer a pose de v&iacute;tima e n&atilde;o se responsabilizar pela separa&ccedil;&atilde;o. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados. S&oacute; quero que seja feliz deve ser lido &quot;&eacute; melhor nos separarmos, que tenho outros projetos&quot;. S&oacute; quero que seja feliz deve ser interpretado &quot;quero minha felicidade, que n&atilde;o combina com a sua&quot;. S&oacute; quero que seja feliz &eacute; uma ordem de despejo entregue com educa&ccedil;&atilde;o. Nunca somos felizes pelos outros. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39132702
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html
10/25/2006 02:30:29 PM



REDIALPara Aninha, em nosso anivers&aacute;rioPintura de Marc ChagallFabr&iacute;cio CarpinejarEu ligo umas doze vezes por dia para minha mulher. Com ou sem assunto, nos problemas ou na absoluta normalidade. Pode surgir uma trag&eacute;dia ou uma bonan&ccedil;a que dar&aacute; no mesmo, vou ligar com entusiasmo num dia discreto e invis&iacute;vel. Sou o tipo classificado como chato, carrapato, grudento. Nenhuma mulher gostaria da minha companhia. Solid&atilde;o ao meu lado precisa me incluir. N&atilde;o permito minha esposa ter um amante em paz. Ela exibe uma generosidade incalcul&aacute;vel. Toma uma decis&atilde;o delicad&iacute;ssima numa reuni&atilde;o e l&aacute; vem seu marido interromper e perguntar de repente se est&aacute; tudo bem com &ecirc;nfase de profeta. Nenhum acontecimento extraordin&aacute;rio ocorreu desde a &uacute;ltima vez que conversamos, mas extraordin&aacute;rio &eacute; arrumar linguagem sem a a&ccedil;&atilde;o. A linguagem torna-se a&ccedil;&atilde;o. Pe&ccedil;o exclusividade para revelar coisa nenhuma e me ofendo se ela n&atilde;o me socorre na hora. Descrevo o que comi no almo&ccedil;o, fa&ccedil;o fofoca da fam&iacute;lia, aviso da &uacute;ltima contrata&ccedil;&atilde;o do Internacional. Ou seja, temas inadi&aacute;veis. Sou como uma m&atilde;e novata, que detalha os primeiros sons do beb&ecirc; com assombro. Ainda estou nascendo em mim. H&aacute; momentos insuport&aacute;veis, em que embei&ccedil;o um favor quando ela n&atilde;o pode se mexer com o excesso de tarefas. A pressa &eacute; autorit&aacute;ria: atropelo. Nem pergunto se ela pode atender: falo. Ela guarda muito amor para suportar o batuque do celular a cada meia hora. Torro sua paci&ecirc;ncia com relat&oacute;rios do nada. Herdei de minha m&atilde;e o dom aos assuntos secund&aacute;rios. Demoro a contar o que interessa, isso quando conto. Vou acumulando pormenores, detalhes inexpressivos, coment&aacute;rios fugazes para chegar ao motivo da liga&ccedil;&atilde;o. Ali&aacute;s, &eacute; raro um telefonema com motivo. Desligo antes de revelar. Ou esque&ccedil;o o que desejava. N&atilde;o ligo para passar recados e urg&ecirc;ncias. Ligo para estar junto. Uma das contradi&ccedil;&otilde;es &eacute; que uso a concis&atilde;o somente ao receber chamadas e me perco ao faz&ecirc;-las. N&atilde;o digo que pensei nela, telefono para demonstrar que penso nela. Observo uma vitrine, uma roupa que ela adoraria vestir, uma promo&ccedil;&atilde;o imperd&iacute;vel de sapatos e me assanho nas teclas a questionar se ela j&aacute; tinha visto. Manuseio o celular como um interfone, com a expectativa de que ela estar&aacute; em casa e me mandar&aacute; subir. Por mais que eu telefone para ela, sempre tem uma declara&ccedil;&atilde;o que escapa. Uma observa&ccedil;&atilde;o que esqueci e temo que seja enterrada. J&aacute; desliguei e sofro com a vontade de retornar. Sou um redial permanente.  Minha independ&ecirc;ncia &eacute; da boca para fora, n&atilde;o sei viver sem narrar e partilhar a ansiedade.  N&atilde;o &eacute; inseguran&ccedil;a, car&ecirc;ncia e couro do div&atilde;. As vozes dentro de mim n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o atraentes, inteligentes e interessantes quanto a voz dela.
REDIALPara Aninha, em nosso anivers&aacute;rioPintura de Marc ChagallFabr&iacute;cio CarpinejarEu ligo umas doze vezes por dia para minha mulher. Com ou sem assunto, nos problemas ou na absoluta normalidade. Pode surgir uma trag&eacute;dia ou uma bonan&ccedil;a que dar&aacute; no mesmo, vou ligar com entusiasmo num dia discreto e invis&iacute;vel. Sou o tipo classificado como chato, carrapato, grudento. Nenhuma mulher gostaria da minha companhia. Solid&atilde;o ao meu lado precisa me incluir. N&atilde;o permito minha esposa ter um amante em paz. Ela exibe uma generosidade incalcul&aacute;vel. Toma uma decis&atilde;o delicad&iacute;ssima numa reuni&atilde;o e l&aacute; vem seu marido interromper e perguntar de repente se est&aacute; tudo bem com &ecirc;nfase de profeta. Nenhum acontecimento extraordin&aacute;rio ocorreu desde a &uacute;ltima vez que conversamos, mas extraordin&aacute;rio &eacute; arrumar linguagem sem a a&ccedil;&atilde;o. A linguagem torna-se a&ccedil;&atilde;o. Pe&ccedil;o exclusividade para revelar coisa nenhuma e me ofendo se ela n&atilde;o me socorre na hora. Descrevo o que comi no almo&ccedil;o, fa&ccedil;o fofoca da fam&iacute;lia, aviso da &uacute;ltima contrata&ccedil;&atilde;o do Internacional. Ou seja, temas inadi&aacute;veis. Sou como uma m&atilde;e novata, que detalha os primeiros sons do beb&ecirc; com assombro. Ainda estou nascendo em mim. H&aacute; momentos insuport&aacute;veis, em que embei&ccedil;o um favor quando ela n&atilde;o pode se mexer com o excesso de tarefas. A pressa &eacute; autorit&aacute;ria: atropelo. Nem pergunto se ela pode atender: falo. Ela guarda muito amor para suportar o batuque do celular a cada meia hora. Torro sua paci&ecirc;ncia com relat&oacute;rios do nada. Herdei de minha m&atilde;e o dom aos assuntos secund&aacute;rios. Demoro a contar o que interessa, isso quando conto. Vou acumulando pormenores, detalhes inexpressivos, coment&aacute;rios fugazes para chegar ao motivo da liga&ccedil;&atilde;o. Ali&aacute;s, &eacute; raro um telefonema com motivo. Desligo antes de revelar. Ou esque&ccedil;o o que desejava. N&atilde;o ligo para passar recados e urg&ecirc;ncias. Ligo para estar junto. Uma das contradi&ccedil;&otilde;es &eacute; que uso a concis&atilde;o somente ao receber chamadas e me perco ao faz&ecirc;-las. N&atilde;o digo que pensei nela, telefono para demonstrar que penso nela. Observo uma vitrine, uma roupa que ela adoraria vestir, uma promo&ccedil;&atilde;o imperd&iacute;vel de sapatos e me assanho nas teclas a questionar se ela j&aacute; tinha visto. Manuseio o celular como um interfone, com a expectativa de que ela estar&aacute; em casa e me mandar&aacute; subir. Por mais que eu telefone para ela, sempre tem uma declara&ccedil;&atilde;o que escapa. Uma observa&ccedil;&atilde;o que esqueci e temo que seja enterrada. J&aacute; desliguei e sofro com a vontade de retornar. Sou um redial permanente.  Minha independ&ecirc;ncia &eacute; da boca para fora, n&atilde;o sei viver sem narrar e partilhar a ansiedade.  N&atilde;o &eacute; inseguran&ccedil;a, car&ecirc;ncia e couro do div&atilde;. As vozes dentro de mim n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o atraentes, inteligentes e interessantes quanto a voz dela.]]&gt;
REDIALPara Aninha, em nosso anivers&aacute;rioPintura de Marc ChagallFabr&iacute;cio CarpinejarEu ligo umas doze vezes por dia para minha mulher. Com ou sem assunto, nos problemas ou na absoluta normalidade. Pode surgir uma trag&eacute;dia ou uma bonan&ccedil;a que dar&aacute; no mesmo, vou ligar com entusiasmo num dia discreto e invis&iacute;vel. Sou o tipo classificado como chato, carrapato, grudento. Nenhuma mulher gostaria da minha companhia. Solid&atilde;o ao meu lado precisa me incluir. N&atilde;o permito minha esposa ter um amante em paz. Ela exibe uma generosidade incalcul&aacute;vel. Toma uma decis&atilde;o delicad&iacute;ssima numa reuni&atilde;o e l&aacute; vem seu marido interromper e perguntar de repente se est&aacute; tudo bem com &ecirc;nfase de profeta. Nenhum acontecimento extraordin&aacute;rio ocorreu desde a &uacute;ltima vez que conversamos, mas extraordin&aacute;rio &eacute; arrumar linguagem sem a a&ccedil;&atilde;o. A linguagem torna-se a&ccedil;&atilde;o. Pe&ccedil;o exclusividade para revelar coisa nenhuma e me ofendo se ela n&atilde;o me socorre na hora. Descrevo o que comi no almo&ccedil;o, fa&ccedil;o fofoca da fam&iacute;lia, aviso da &uacute;ltima contrata&ccedil;&atilde;o do Internacional. Ou seja, temas inadi&aacute;veis. Sou como uma m&atilde;e novata, que detalha os primeiros sons do beb&ecirc; com assombro. Ainda estou nascendo em mim. H&aacute; momentos insuport&aacute;veis, em que embei&ccedil;o um favor quando ela n&atilde;o pode se mexer com o excesso de tarefas. A pressa &eacute; autorit&aacute;ria: atropelo. Nem pergunto se ela pode atender: falo. Ela guarda muito amor para suportar o batuque do celular a cada meia hora. Torro sua paci&ecirc;ncia com relat&oacute;rios do nada. Herdei de minha m&atilde;e o dom aos assuntos secund&aacute;rios. Demoro a contar o que interessa, isso quando conto. Vou acumulando pormenores, detalhes inexpressivos, coment&aacute;rios fugazes para chegar ao motivo da liga&ccedil;&atilde;o. Ali&aacute;s, &eacute; raro um telefonema com motivo. Desligo antes de revelar. Ou esque&ccedil;o o que desejava. N&atilde;o ligo para passar recados e urg&ecirc;ncias. Ligo para estar junto. Uma das contradi&ccedil;&otilde;es &eacute; que uso a concis&atilde;o somente ao receber chamadas e me perco ao faz&ecirc;-las. N&atilde;o digo que pensei nela, telefono para demonstrar que penso nela. Observo uma vitrine, uma roupa que ela adoraria vestir, uma promo&ccedil;&atilde;o imperd&iacute;vel de sapatos e me assanho nas teclas a questionar se ela j&aacute; tinha visto. Manuseio o celular como um interfone, com a expectativa de que ela estar&aacute; em casa e me mandar&aacute; subir. Por mais que eu telefone para ela, sempre tem uma declara&ccedil;&atilde;o que escapa. Uma observa&ccedil;&atilde;o que esqueci e temo que seja enterrada. J&aacute; desliguei e sofro com a vontade de retornar. Sou um redial permanente.  Minha independ&ecirc;ncia &eacute; da boca para fora, n&atilde;o sei viver sem narrar e partilhar a ansiedade.  N&atilde;o &eacute; inseguran&ccedil;a, car&ecirc;ncia e couro do div&atilde;. As vozes dentro de mim n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o atraentes, inteligentes e interessantes quanto a voz dela.]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39129277
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10/24/2006 11:05:10 AM



DI&Aacute;RIO DO EX-FUMANTE - 50 DIAS* Estava devendo not&iacute;cias. Testei os meus limites nas &uacute;ltimas semanas alternando abstin&ecirc;ncia e ciclos de cigarros intermin&aacute;veis. Houve dias que n&atilde;o fumei nada; em outros, uma carteira at&eacute; enjoar. * Quem me viu em Bras&iacute;lia pitando, pode guardar a imagem para um antiqu&aacute;rio. * Desde ontem, n&atilde;o fumei mais nenhum cigarro. E foi uma data particularmente tensa, com homenagens e declara&ccedil;&otilde;es emocionadas. Em circunst&acirc;ncias semelhantes, teria fumado um ma&ccedil;o. * &Eacute; esquisito, agora acendi um cigarro como incenso. Deixei ele no cinzeiro queimando sozinho, m&atilde;o invis&iacute;vel de vidro.* Estou no segundo dia sem fumar, cumprindo minha promessa de anivers&aacute;rio. Mudei minha perspectiva de enxergar o v&iacute;cio: eu me trato como um n&atilde;o-fumante, que &eacute; melhor do que ex-fumante. &Eacute; uma cilada psicol&oacute;gica que criei para enfrentar o nervosismo e a ansiedade. Como botei na cabe&ccedil;a que nunca fumei, n&atilde;o sofro nenhuma perda. Na figura de ex-fumante, eu me sentia menor, em d&iacute;vida, perdendo tempo e prazer.* Um fumante cessa seu v&iacute;cio depois de v&aacute;rias tentativas frustradas. Ele assume um olhar minorit&aacute;rio. Como ningu&eacute;m mais acredita nele, de tanto que prometeu que iria desistir, ele passa a acreditar em si como provoca&ccedil;&atilde;o. Uma esperan&ccedil;a sem resist&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; esperan&ccedil;a. 
DI&Aacute;RIO DO EX-FUMANTE - 50 DIAS* Estava devendo not&iacute;cias. Testei os meus limites nas &uacute;ltimas semanas alternando abstin&ecirc;ncia e ciclos de cigarros intermin&aacute;veis. Houve dias que n&atilde;o fumei nada; em outros, uma carteira at&eacute; enjoar. * Quem me viu em Bras&iacute;lia pitando, pode guardar a imagem para um antiqu&aacute;rio. * Desde ontem, n&atilde;o fumei mais nenhum cigarro. E foi uma data particularmente tensa, com homenagens e declara&ccedil;&otilde;es emocionadas. Em circunst&acirc;ncias semelhantes, teria fumado um ma&ccedil;o. * &Eacute; esquisito, agora acendi um cigarro como incenso. Deixei ele no cinzeiro queimando sozinho, m&atilde;o invis&iacute;vel de vidro.* Estou no segundo dia sem fumar, cumprindo minha promessa de anivers&aacute;rio. Mudei minha perspectiva de enxergar o v&iacute;cio: eu me trato como um n&atilde;o-fumante, que &eacute; melhor do que ex-fumante. &Eacute; uma cilada psicol&oacute;gica que criei para enfrentar o nervosismo e a ansiedade. Como botei na cabe&ccedil;a que nunca fumei, n&atilde;o sofro nenhuma perda. Na figura de ex-fumante, eu me sentia menor, em d&iacute;vida, perdendo tempo e prazer.* Um fumante cessa seu v&iacute;cio depois de v&aacute;rias tentativas frustradas. Ele assume um olhar minorit&aacute;rio. Como ningu&eacute;m mais acredita nele, de tanto que prometeu que iria desistir, ele passa a acreditar em si como provoca&ccedil;&atilde;o. Uma esperan&ccedil;a sem resist&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; esperan&ccedil;a. ]]&gt;
DI&Aacute;RIO DO EX-FUMANTE - 50 DIAS* Estava devendo not&iacute;cias. Testei os meus limites nas &uacute;ltimas semanas alternando abstin&ecirc;ncia e ciclos de cigarros intermin&aacute;veis. Houve dias que n&atilde;o fumei nada; em outros, uma carteira at&eacute; enjoar. * Quem me viu em Bras&iacute;lia pitando, pode guardar a imagem para um antiqu&aacute;rio. * Desde ontem, n&atilde;o fumei mais nenhum cigarro. E foi uma data particularmente tensa, com homenagens e declara&ccedil;&otilde;es emocionadas. Em circunst&acirc;ncias semelhantes, teria fumado um ma&ccedil;o. * &Eacute; esquisito, agora acendi um cigarro como incenso. Deixei ele no cinzeiro queimando sozinho, m&atilde;o invis&iacute;vel de vidro.* Estou no segundo dia sem fumar, cumprindo minha promessa de anivers&aacute;rio. Mudei minha perspectiva de enxergar o v&iacute;cio: eu me trato como um n&atilde;o-fumante, que &eacute; melhor do que ex-fumante. &Eacute; uma cilada psicol&oacute;gica que criei para enfrentar o nervosismo e a ansiedade. Como botei na cabe&ccedil;a que nunca fumei, n&atilde;o sofro nenhuma perda. Na figura de ex-fumante, eu me sentia menor, em d&iacute;vida, perdendo tempo e prazer.* Um fumante cessa seu v&iacute;cio depois de v&aacute;rias tentativas frustradas. Ele assume um olhar minorit&aacute;rio. Como ningu&eacute;m mais acredita nele, de tanto que prometeu que iria desistir, ele passa a acreditar em si como provoca&ccedil;&atilde;o. Uma esperan&ccedil;a sem resist&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; esperan&ccedil;a. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39129245
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10/24/2006 10:54:03 AM



PROGRAMA&Ccedil;&Atilde;O25/10 (quarta), &agrave;s 20h - Ao lado da escritora Cl&aacute;udia Tajes e da jornalista Paola Deodoro, serei a v&iacute;tima do Papocabe&ccedil;a, debate quinzenal pop-filos&oacute;fico na Casa de Lou-lou (Mariante, 170), em Porto Alegre (RS). A media&ccedil;&atilde;o &eacute; de Carol Teixeira, com total apoio do p&uacute;blico, que faz perguntas sobre o tema da noite: A Vaidade. Ingresso: R$ 5. Chegue cedo para pegar mesa!    31/10 e 1&ordm;/11 (ter&ccedil;a e quarta) - F&oacute;rum das Letras de Ouro Preto (FLOP) -  Minas Gerais Na noite de ter&ccedil;a (1&deg;/11), sou o convidado da Via Sacra Po&eacute;tica, saraus e perfomances do evento. Farei assaltos po&eacute;ticos em bares e restaurantes da cidade. Informa&ccedil;&otilde;es Gerais:  (31) 3551-2120PARTICIPA&Ccedil;&Atilde;O NA 52&ordf; FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE28, 29 e 30/10 - s&aacute;bado, domingo e segunda - 18h30Sala Memorial do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223)OFICINA DE CR&Ocirc;NICAS, por Fabr&iacute;cio Carpinejar Primeiros passos no g&ecirc;nero: escolha de temas, estrutura da cr&ocirc;nica, observa&ccedil;&atilde;o do cotidiano.30/10 - segunda - 17h30Sala dos Jacarand&aacute;s - Memorial do RS (junto &agrave; Feira do Livro).Lan&ccedil;amento do CD &quot;Trinta em Transe&quot;, colet&acirc;nea endiabrada de poetas e prosadores do sul para voz e posteridade. Gravei a faixa &quot;O que uma mulher quer?&quot;, do livro &quot;O Amor Esquece de Come&ccedil;ar&quot;.  O disco j&aacute; est&aacute; dispon&iacute;vel em v&aacute;rias livrarias legais de Porto Alegre (Palavraria, Beco dos Livros, Botequim das Letras, Cultura, Ventura e l&aacute; vai corda). Pedidos: Marcelo Noah - marcelonoah@gmail.com02/11 - quinta -18hCentro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Biblioteca do PatronoFAHRENHEIT 451: Fabr&iacute;cio CarpinejarPatron&aacute;veis apresentam seus cl&aacute;ssicos preferidos. Interpreto &quot;Inven&ccedil;&atilde;o de Orfeu&quot;, de Jorge de Lima.  03/11- sexta - 19hCentro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - O RetratoA REFLEX&Atilde;O CR&Iacute;TICA EM POESIA(Bate-papo arejado e benfazejo)Fabr&iacute;cio Carpinejar, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto  03/11 - sexta - 20h30Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Audit&oacute;rio Barbosa LessaPOESIA EXPL&Iacute;CITA AO VIVO, (Espet&aacute;culo de Fabr&iacute;cio Carpinejar e Fernando Chu&iacute;)04/11 - s&aacute;bado - 19h30Pavilh&atilde;o de Aut&oacute;grafosSess&atilde;o de aut&oacute;grafos do livro &quot;O Amor Esquece de Come&ccedil;ar&quot; (Bertrand Brasil, 2006), ao lado de &quot;O Her&oacute;i Desvalido&quot;, de Maria Carpi5/11 - domingo - 18hCasa do Pensamento, &Aacute;rea Infantil e Juvenil - Armaz&eacute;m A do Cais do PortoA UMBIGOLATRIA NACIONAL(Considera&ccedil;&otilde;es sobre o individualismo dos brasileiros)Fabr&iacute;cio Carpinejar, Juremir Machado da Silva, Cirilo Augusto Thomas, &Ecirc;nio Meinen e Marco Antonio Boa Nova Val&eacute;rio11/11 - s&aacute;bado - 17h30Memorial do Rio Grande do Sul - Sala dos Jacarand&aacute;sVicente Franz Cecim apresentado por Fabr&iacute;cio Carpinejar e Ant&ocirc;nio Hohlfeldt(Escritor paraense conversa sobre sua obra, que re&uacute;ne poesia, ensaio, prosa e anota&ccedil;&otilde;es de viagem).
PROGRAMA&Ccedil;&Atilde;O25/10 (quarta), &agrave;s 20h - Ao lado da escritora Cl&aacute;udia Tajes e da jornalista Paola Deodoro, serei a v&iacute;tima do Papocabe&ccedil;a, debate quinzenal pop-filos&oacute;fico na Casa de Lou-lou (Mariante, 170), em Porto Alegre (RS). A media&ccedil;&atilde;o &eacute; de Carol Teixeira, com total apoio do p&uacute;blico, que faz perguntas sobre o tema da noite: A Vaidade. Ingresso: R$ 5. Chegue cedo para pegar mesa!    31/10 e 1&ordm;/11 (ter&ccedil;a e quarta) - F&oacute;rum das Letras de Ouro Preto (FLOP) -  Minas Gerais Na noite de ter&ccedil;a (1&deg;/11), sou o convidado da Via Sacra Po&eacute;tica, saraus e perfomances do evento. Farei assaltos po&eacute;ticos em bares e restaurantes da cidade. Informa&ccedil;&otilde;es Gerais:  (31) 3551-2120PARTICIPA&Ccedil;&Atilde;O NA 52&ordf; FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE28, 29 e 30/10 - s&aacute;bado, domingo e segunda - 18h30Sala Memorial do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223)OFICINA DE CR&Ocirc;NICAS, por Fabr&iacute;cio Carpinejar Primeiros passos no g&ecirc;nero: escolha de temas, estrutura da cr&ocirc;nica, observa&ccedil;&atilde;o do cotidiano.30/10 - segunda - 17h30Sala dos Jacarand&aacute;s - Memorial do RS (junto &agrave; Feira do Livro).Lan&ccedil;amento do CD &quot;Trinta em Transe&quot;, colet&acirc;nea endiabrada de poetas e prosadores do sul para voz e posteridade. Gravei a faixa &quot;O que uma mulher quer?&quot;, do livro &quot;O Amor Esquece de Come&ccedil;ar&quot;.  O disco j&aacute; est&aacute; dispon&iacute;vel em v&aacute;rias livrarias legais de Porto Alegre (Palavraria, Beco dos Livros, Botequim das Letras, Cultura, Ventura e l&aacute; vai corda). Pedidos: Marcelo Noah - marcelonoah@gmail.com02/11 - quinta -18hCentro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Biblioteca do PatronoFAHRENHEIT 451: Fabr&iacute;cio CarpinejarPatron&aacute;veis apresentam seus cl&aacute;ssicos preferidos. Interpreto &quot;Inven&ccedil;&atilde;o de Orfeu&quot;, de Jorge de Lima.  03/11- sexta - 19hCentro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - O RetratoA REFLEX&Atilde;O CR&Iacute;TICA EM POESIA(Bate-papo arejado e benfazejo)Fabr&iacute;cio Carpinejar, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto  03/11 - sexta - 20h30Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Audit&oacute;rio Barbosa LessaPOESIA EXPL&Iacute;CITA AO VIVO, (Espet&aacute;culo de Fabr&iacute;cio Carpinejar e Fernando Chu&iacute;)04/11 - s&aacute;bado - 19h30Pavilh&atilde;o de Aut&oacute;grafosSess&atilde;o de aut&oacute;grafos do livro &quot;O Amor Esquece de Come&ccedil;ar&quot; (Bertrand Brasil, 2006), ao lado de &quot;O Her&oacute;i Desvalido&quot;, de Maria Carpi5/11 - domingo - 18hCasa do Pensamento, &Aacute;rea Infantil e Juvenil - Armaz&eacute;m A do Cais do PortoA UMBIGOLATRIA NACIONAL(Considera&ccedil;&otilde;es sobre o individualismo dos brasileiros)Fabr&iacute;cio Carpinejar, Juremir Machado da Silva, Cirilo Augusto Thomas, &Ecirc;nio Meinen e Marco Antonio Boa Nova Val&eacute;rio11/11 - s&aacute;bado - 17h30Memorial do Rio Grande do Sul - Sala dos Jacarand&aacute;sVicente Franz Cecim apresentado por Fabr&iacute;cio Carpinejar e Ant&ocirc;nio Hohlfeldt(Escritor paraense conversa sobre sua obra, que re&uacute;ne poesia, ensaio, prosa e anota&ccedil;&otilde;es de viagem).]]&gt;
PROGRAMA&Ccedil;&Atilde;O25/10 (quarta), &agrave;s 20h - Ao lado da escritora Cl&aacute;udia Tajes e da jornalista Paola Deodoro, serei a v&iacute;tima do Papocabe&ccedil;a, debate quinzenal pop-filos&oacute;fico na Casa de Lou-lou (Mariante, 170), em Porto Alegre (RS). A media&ccedil;&atilde;o &eacute; de Carol Teixeira, com total apoio do p&uacute;blico, que faz perguntas sobre o tema da noite: A Vaidade. Ingresso: R$ 5. Chegue cedo para pegar mesa!    31/10 e 1&ordm;/11 (ter&ccedil;a e quarta) - F&oacute;rum das Letras de Ouro Preto (FLOP) -  Minas Gerais Na noite de ter&ccedil;a (1&deg;/11), sou o convidado da Via Sacra Po&eacute;tica, saraus e perfomances do evento. Farei assaltos po&eacute;ticos em bares e restaurantes da cidade. Informa&ccedil;&otilde;es Gerais:  (31) 3551-2120PARTICIPA&Ccedil;&Atilde;O NA 52&ordf; FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE28, 29 e 30/10 - s&aacute;bado, domingo e segunda - 18h30Sala Memorial do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223)OFICINA DE CR&Ocirc;NICAS, por Fabr&iacute;cio Carpinejar Primeiros passos no g&ecirc;nero: escolha de temas, estrutura da cr&ocirc;nica, observa&ccedil;&atilde;o do cotidiano.30/10 - segunda - 17h30Sala dos Jacarand&aacute;s - Memorial do RS (junto &agrave; Feira do Livro).Lan&ccedil;amento do CD &quot;Trinta em Transe&quot;, colet&acirc;nea endiabrada de poetas e prosadores do sul para voz e posteridade. Gravei a faixa &quot;O que uma mulher quer?&quot;, do livro &quot;O Amor Esquece de Come&ccedil;ar&quot;.  O disco j&aacute; est&aacute; dispon&iacute;vel em v&aacute;rias livrarias legais de Porto Alegre (Palavraria, Beco dos Livros, Botequim das Letras, Cultura, Ventura e l&aacute; vai corda). Pedidos: Marcelo Noah - marcelonoah@gmail.com02/11 - quinta -18hCentro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Biblioteca do PatronoFAHRENHEIT 451: Fabr&iacute;cio CarpinejarPatron&aacute;veis apresentam seus cl&aacute;ssicos preferidos. Interpreto &quot;Inven&ccedil;&atilde;o de Orfeu&quot;, de Jorge de Lima.  03/11- sexta - 19hCentro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - O RetratoA REFLEX&Atilde;O CR&Iacute;TICA EM POESIA(Bate-papo arejado e benfazejo)Fabr&iacute;cio Carpinejar, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto  03/11 - sexta - 20h30Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Audit&oacute;rio Barbosa LessaPOESIA EXPL&Iacute;CITA AO VIVO, (Espet&aacute;culo de Fabr&iacute;cio Carpinejar e Fernando Chu&iacute;)04/11 - s&aacute;bado - 19h30Pavilh&atilde;o de Aut&oacute;grafosSess&atilde;o de aut&oacute;grafos do livro &quot;O Amor Esquece de Come&ccedil;ar&quot; (Bertrand Brasil, 2006), ao lado de &quot;O Her&oacute;i Desvalido&quot;, de Maria Carpi5/11 - domingo - 18hCasa do Pensamento, &Aacute;rea Infantil e Juvenil - Armaz&eacute;m A do Cais do PortoA UMBIGOLATRIA NACIONAL(Considera&ccedil;&otilde;es sobre o individualismo dos brasileiros)Fabr&iacute;cio Carpinejar, Juremir Machado da Silva, Cirilo Augusto Thomas, &Ecirc;nio Meinen e Marco Antonio Boa Nova Val&eacute;rio11/11 - s&aacute;bado - 17h30Memorial do Rio Grande do Sul - Sala dos Jacarand&aacute;sVicente Franz Cecim apresentado por Fabr&iacute;cio Carpinejar e Ant&ocirc;nio Hohlfeldt(Escritor paraense conversa sobre sua obra, que re&uacute;ne poesia, ensaio, prosa e anota&ccedil;&otilde;es de viagem).]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39129123
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10/24/2006 09:46:56 AM



O MAPA Para SylviaFabr&iacute;cio CarpinejarO escrit&oacute;rio amarelo, os quadros alinhados e distribu&iacute;dos com equil&iacute;brio, as cores dos m&oacute;veis evocando o miolo dos girass&oacute;is. A luz da lamparina aquecia a madeira entre o r&uacute;stico e o preciso. Voc&ecirc; sabe a casa em que &eacute; mais f&aacute;cil encontrar um jogo de gam&atilde;o do que um tabuleiro de xadrez?  Pois &eacute; essa que estou falando. Era uma casa de bom gosto, se n&atilde;o fosse um mapa rodovi&aacute;rio grudado na parede com durex. Um mapa com a confus&atilde;o bab&eacute;lica das linhas vi&aacute;rias. N&atilde;o compreendia a utilidade de um mapa de botequim no apartamento de minha amiga de Bras&iacute;lia. Ela n&atilde;o viajava muito, n&atilde;o tinha nenhuma atividade geogr&aacute;fica em sua doc&ecirc;ncia na universidade. Muito menos constava possuir uma obsess&atilde;o por guias tur&iacute;sticos. Ou uma queda por arqueologia. O mapa combinaria com um posto da pol&iacute;cia rodovi&aacute;ria, para a finalidade da receber perdidos e atender acidentes, n&atilde;o naquele lugar temperado de livros e rel&iacute;quias pessoais. A cartografia das estradas mostrava marcas hesitantes de caneta vermelha, datas enredadas em iniciais, c&iacute;rculos afobados, movimentos migrat&oacute;rios das m&atilde;os. Tra&ccedil;ado infantil de adulto, que engana sua idade na letra, mas n&atilde;o nos desenhos.  Fiquei aguardando no sof&aacute; a amiga se arrumar para sairmos, at&eacute; que tocou o telefone. Ela veio meio descabelada para o escrit&oacute;rio e conseguiu atender no &uacute;ltimo toque. O &uacute;ltimo toque &eacute; sempre o que apanhamos com o f&ocirc;lego cortado. Come&ccedil;ou a conversar de frente ao mapa e de costas para mim, o que agravou a curiosidade. Segurando o telefone no ombro, tomou uma caneta hidrocor na gaveta e passou a riscar cidades, a sobrevoar dist&acirc;ncias com a press&atilde;o do indicador. Enfrentou dificuldades para dar conta dos movimentos simult&acirc;neos: assinalar o pouso do dedo, decifrar os nomes microsc&oacute;picos dos munic&iacute;pios e manter a liga&ccedil;&atilde;o em um estado civilizat&oacute;rio de pergunta-resposta.  Ela falava com seu namorado do Rio de Janeiro. Um ator. Marcelo. Que partiria em uma nova excurs&atilde;o. Neste momento, entendi, entendi entendi.Ela reproduzia as andan&ccedil;as de Marcelo no mapa. Acompanhava seus avan&ccedil;os e recuos, esperando que ele ficasse t&atilde;o pr&oacute;ximo que pudessem se surpreender e matar as saudades. Faz seu roteiro, sem que ele saiba. Ajuda as veias a encontrar a sa&iacute;da mais pr&oacute;xima.Quando ele falar o nome estranho de uma cidade visitada, ela j&aacute; ter&aacute; imaginado. Quando comentar que esteve em Manaus, j&aacute; lembrar&aacute; da esta&ccedil;&atilde;o. S&oacute; o amor &eacute; capaz de ser t&atilde;o pat&eacute;tico e assim soar sublime. T&atilde;o rid&iacute;culo e assim alcan&ccedil;ar a verdade. S&oacute; o amor &eacute; capaz de articular segredos sem denunciar a devo&ccedil;&atilde;o, sem depender das recompensas. Ela n&atilde;o colocou o mapa para esnobar o que est&aacute; sentindo ou provar alguma coisa. N&atilde;o me contou nada, descobri por acaso. O mapa &eacute; o rascunho do corpo dele. 
O MAPA Para SylviaFabr&iacute;cio CarpinejarO escrit&oacute;rio amarelo, os quadros alinhados e distribu&iacute;dos com equil&iacute;brio, as cores dos m&oacute;veis evocando o miolo dos girass&oacute;is. A luz da lamparina aquecia a madeira entre o r&uacute;stico e o preciso. Voc&ecirc; sabe a casa em que &eacute; mais f&aacute;cil encontrar um jogo de gam&atilde;o do que um tabuleiro de xadrez?  Pois &eacute; essa que estou falando. Era uma casa de bom gosto, se n&atilde;o fosse um mapa rodovi&aacute;rio grudado na parede com durex. Um mapa com a confus&atilde;o bab&eacute;lica das linhas vi&aacute;rias. N&atilde;o compreendia a utilidade de um mapa de botequim no apartamento de minha amiga de Bras&iacute;lia. Ela n&atilde;o viajava muito, n&atilde;o tinha nenhuma atividade geogr&aacute;fica em sua doc&ecirc;ncia na universidade. Muito menos constava possuir uma obsess&atilde;o por guias tur&iacute;sticos. Ou uma queda por arqueologia. O mapa combinaria com um posto da pol&iacute;cia rodovi&aacute;ria, para a finalidade da receber perdidos e atender acidentes, n&atilde;o naquele lugar temperado de livros e rel&iacute;quias pessoais. A cartografia das estradas mostrava marcas hesitantes de caneta vermelha, datas enredadas em iniciais, c&iacute;rculos afobados, movimentos migrat&oacute;rios das m&atilde;os. Tra&ccedil;ado infantil de adulto, que engana sua idade na letra, mas n&atilde;o nos desenhos.  Fiquei aguardando no sof&aacute; a amiga se arrumar para sairmos, at&eacute; que tocou o telefone. Ela veio meio descabelada para o escrit&oacute;rio e conseguiu atender no &uacute;ltimo toque. O &uacute;ltimo toque &eacute; sempre o que apanhamos com o f&ocirc;lego cortado. Come&ccedil;ou a conversar de frente ao mapa e de costas para mim, o que agravou a curiosidade. Segurando o telefone no ombro, tomou uma caneta hidrocor na gaveta e passou a riscar cidades, a sobrevoar dist&acirc;ncias com a press&atilde;o do indicador. Enfrentou dificuldades para dar conta dos movimentos simult&acirc;neos: assinalar o pouso do dedo, decifrar os nomes microsc&oacute;picos dos munic&iacute;pios e manter a liga&ccedil;&atilde;o em um estado civilizat&oacute;rio de pergunta-resposta.  Ela falava com seu namorado do Rio de Janeiro. Um ator. Marcelo. Que partiria em uma nova excurs&atilde;o. Neste momento, entendi, entendi entendi.Ela reproduzia as andan&ccedil;as de Marcelo no mapa. Acompanhava seus avan&ccedil;os e recuos, esperando que ele ficasse t&atilde;o pr&oacute;ximo que pudessem se surpreender e matar as saudades. Faz seu roteiro, sem que ele saiba. Ajuda as veias a encontrar a sa&iacute;da mais pr&oacute;xima.Quando ele falar o nome estranho de uma cidade visitada, ela j&aacute; ter&aacute; imaginado. Quando comentar que esteve em Manaus, j&aacute; lembrar&aacute; da esta&ccedil;&atilde;o. S&oacute; o amor &eacute; capaz de ser t&atilde;o pat&eacute;tico e assim soar sublime. T&atilde;o rid&iacute;culo e assim alcan&ccedil;ar a verdade. S&oacute; o amor &eacute; capaz de articular segredos sem denunciar a devo&ccedil;&atilde;o, sem depender das recompensas. Ela n&atilde;o colocou o mapa para esnobar o que est&aacute; sentindo ou provar alguma coisa. N&atilde;o me contou nada, descobri por acaso. O mapa &eacute; o rascunho do corpo dele. ]]&gt;
O MAPA Para SylviaFabr&iacute;cio CarpinejarO escrit&oacute;rio amarelo, os quadros alinhados e distribu&iacute;dos com equil&iacute;brio, as cores dos m&oacute;veis evocando o miolo dos girass&oacute;is. A luz da lamparina aquecia a madeira entre o r&uacute;stico e o preciso. Voc&ecirc; sabe a casa em que &eacute; mais f&aacute;cil encontrar um jogo de gam&atilde;o do que um tabuleiro de xadrez?  Pois &eacute; essa que estou falando. Era uma casa de bom gosto, se n&atilde;o fosse um mapa rodovi&aacute;rio grudado na parede com durex. Um mapa com a confus&atilde;o bab&eacute;lica das linhas vi&aacute;rias. N&atilde;o compreendia a utilidade de um mapa de botequim no apartamento de minha amiga de Bras&iacute;lia. Ela n&atilde;o viajava muito, n&atilde;o tinha nenhuma atividade geogr&aacute;fica em sua doc&ecirc;ncia na universidade. Muito menos constava possuir uma obsess&atilde;o por guias tur&iacute;sticos. Ou uma queda por arqueologia. O mapa combinaria com um posto da pol&iacute;cia rodovi&aacute;ria, para a finalidade da receber perdidos e atender acidentes, n&atilde;o naquele lugar temperado de livros e rel&iacute;quias pessoais. A cartografia das estradas mostrava marcas hesitantes de caneta vermelha, datas enredadas em iniciais, c&iacute;rculos afobados, movimentos migrat&oacute;rios das m&atilde;os. Tra&ccedil;ado infantil de adulto, que engana sua idade na letra, mas n&atilde;o nos desenhos.  Fiquei aguardando no sof&aacute; a amiga se arrumar para sairmos, at&eacute; que tocou o telefone. Ela veio meio descabelada para o escrit&oacute;rio e conseguiu atender no &uacute;ltimo toque. O &uacute;ltimo toque &eacute; sempre o que apanhamos com o f&ocirc;lego cortado. Come&ccedil;ou a conversar de frente ao mapa e de costas para mim, o que agravou a curiosidade. Segurando o telefone no ombro, tomou uma caneta hidrocor na gaveta e passou a riscar cidades, a sobrevoar dist&acirc;ncias com a press&atilde;o do indicador. Enfrentou dificuldades para dar conta dos movimentos simult&acirc;neos: assinalar o pouso do dedo, decifrar os nomes microsc&oacute;picos dos munic&iacute;pios e manter a liga&ccedil;&atilde;o em um estado civilizat&oacute;rio de pergunta-resposta.  Ela falava com seu namorado do Rio de Janeiro. Um ator. Marcelo. Que partiria em uma nova excurs&atilde;o. Neste momento, entendi, entendi entendi.Ela reproduzia as andan&ccedil;as de Marcelo no mapa. Acompanhava seus avan&ccedil;os e recuos, esperando que ele ficasse t&atilde;o pr&oacute;ximo que pudessem se surpreender e matar as saudades. Faz seu roteiro, sem que ele saiba. Ajuda as veias a encontrar a sa&iacute;da mais pr&oacute;xima.Quando ele falar o nome estranho de uma cidade visitada, ela j&aacute; ter&aacute; imaginado. Quando comentar que esteve em Manaus, j&aacute; lembrar&aacute; da esta&ccedil;&atilde;o. S&oacute; o amor &eacute; capaz de ser t&atilde;o pat&eacute;tico e assim soar sublime. T&atilde;o rid&iacute;culo e assim alcan&ccedil;ar a verdade. S&oacute; o amor &eacute; capaz de articular segredos sem denunciar a devo&ccedil;&atilde;o, sem depender das recompensas. Ela n&atilde;o colocou o mapa para esnobar o que est&aacute; sentindo ou provar alguma coisa. N&atilde;o me contou nada, descobri por acaso. O mapa &eacute; o rascunho do corpo dele. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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10/22/2006 04:25:28 PM



CARPINEJAR SEM CENSURAMinha filha Mariana, 12 anos, inventou de fazer um blog contando os bastidores do pai dela. Sobrou para mim. O nome &eacute; &quot;Carpinejar Revela&ccedil;&atilde;o&quot;. N&atilde;o tenho nem id&eacute;ia do que vir&aacute;. Como &eacute; surpresa, conhecerei os textos ao mesmo tempo que voc&ecirc;. Confira. 
CARPINEJAR SEM CENSURAMinha filha Mariana, 12 anos, inventou de fazer um blog contando os bastidores do pai dela. Sobrou para mim. O nome &eacute; &quot;Carpinejar Revela&ccedil;&atilde;o&quot;. N&atilde;o tenho nem id&eacute;ia do que vir&aacute;. Como &eacute; surpresa, conhecerei os textos ao mesmo tempo que voc&ecirc;. Confira. ]]&gt;
CARPINEJAR SEM CENSURAMinha filha Mariana, 12 anos, inventou de fazer um blog contando os bastidores do pai dela. Sobrou para mim. O nome &eacute; &quot;Carpinejar Revela&ccedil;&atilde;o&quot;. N&atilde;o tenho nem id&eacute;ia do que vir&aacute;. Como &eacute; surpresa, conhecerei os textos ao mesmo tempo que voc&ecirc;. Confira. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
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10/21/2006 08:31:31 AM



CAMISA AZUL-GREN&Aacute;Arte de Arthur Bispo do Ros&aacute;rioFabr&iacute;cio CarpinejarMinha av&oacute; usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de anivers&aacute;rio, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impress&atilde;o &eacute; de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um &uacute;nico dia. Seus olhos formavam leques, com as abas internas &agrave; mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E n&atilde;o a boca. Piscava muito, a abafar as diferen&ccedil;as entre os familiares. Disfar&ccedil;ava as brigas dos filhos e tios, j&aacute; que n&atilde;o havia como evit&aacute;-las. Sua camisa azul-gren&aacute; foi a minha grande tenta&ccedil;&atilde;o. Os bot&otilde;es perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa. Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irm&atilde;os e os vizinhos... Suport&aacute;vamos bot&otilde;es furados, quadrados, excessivamente redondos, que n&atilde;o voavam como pretend&iacute;amos para as redes. De repente, a camisa azul-gren&aacute; oferecia dez bot&otilde;es fabulosos. Desenrolando os fr&aacute;geis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas m&atilde;os, para a inveja dos advers&aacute;rios. Minha av&oacute; morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os bot&otilde;es quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O suti&atilde; n&atilde;o me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda. Esperei sua sa&iacute;da na fruteira, de manh&atilde;zinha, para furtar a pe&ccedil;a. Entrei manso em seu quarto. Imposs&iacute;vel entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o bot&atilde;o da manga, julgando ser o mais f&aacute;cil de cair e soar como queda involunt&aacute;ria. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para n&atilde;o ser flagrado. A culpa n&atilde;o combinava com os figos maduros e avermelhados do p&aacute;tio. Repetia o ritual a cada ver&atilde;o. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha av&oacute;, sempre cuidadosa com as roupas, n&atilde;o ia repondo os bot&otilde;es. Vivia pedalando a m&aacute;quina de costura e n&atilde;o deixava uma &uacute;nica pe&ccedil;a desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-gren&aacute; favorita permanecia desdentada.  O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que n&atilde;o me denunciava e abria o jogo? Eu j&aacute; roubava esperando ser pego. J&aacute; roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido. Quando minha av&oacute; morreu, vestia a mesma camisa azul-gren&aacute;. Vestia &eacute; modo de dizer. Restavam somente tr&ecirc;s bot&otilde;es do meio. Deixei para Deus abri-los. Eu a despi. O mist&eacute;rio &eacute; ela ter concordado com isso. (Clube da Calcinha, outubro/2006)
CAMISA AZUL-GREN&Aacute;Arte de Arthur Bispo do Ros&aacute;rioFabr&iacute;cio CarpinejarMinha av&oacute; usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de anivers&aacute;rio, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impress&atilde;o &eacute; de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um &uacute;nico dia. Seus olhos formavam leques, com as abas internas &agrave; mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E n&atilde;o a boca. Piscava muito, a abafar as diferen&ccedil;as entre os familiares. Disfar&ccedil;ava as brigas dos filhos e tios, j&aacute; que n&atilde;o havia como evit&aacute;-las. Sua camisa azul-gren&aacute; foi a minha grande tenta&ccedil;&atilde;o. Os bot&otilde;es perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa. Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irm&atilde;os e os vizinhos... Suport&aacute;vamos bot&otilde;es furados, quadrados, excessivamente redondos, que n&atilde;o voavam como pretend&iacute;amos para as redes. De repente, a camisa azul-gren&aacute; oferecia dez bot&otilde;es fabulosos. Desenrolando os fr&aacute;geis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas m&atilde;os, para a inveja dos advers&aacute;rios. Minha av&oacute; morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os bot&otilde;es quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O suti&atilde; n&atilde;o me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda. Esperei sua sa&iacute;da na fruteira, de manh&atilde;zinha, para furtar a pe&ccedil;a. Entrei manso em seu quarto. Imposs&iacute;vel entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o bot&atilde;o da manga, julgando ser o mais f&aacute;cil de cair e soar como queda involunt&aacute;ria. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para n&atilde;o ser flagrado. A culpa n&atilde;o combinava com os figos maduros e avermelhados do p&aacute;tio. Repetia o ritual a cada ver&atilde;o. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha av&oacute;, sempre cuidadosa com as roupas, n&atilde;o ia repondo os bot&otilde;es. Vivia pedalando a m&aacute;quina de costura e n&atilde;o deixava uma &uacute;nica pe&ccedil;a desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-gren&aacute; favorita permanecia desdentada.  O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que n&atilde;o me denunciava e abria o jogo? Eu j&aacute; roubava esperando ser pego. J&aacute; roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido. Quando minha av&oacute; morreu, vestia a mesma camisa azul-gren&aacute;. Vestia &eacute; modo de dizer. Restavam somente tr&ecirc;s bot&otilde;es do meio. Deixei para Deus abri-los. Eu a despi. O mist&eacute;rio &eacute; ela ter concordado com isso. (Clube da Calcinha, outubro/2006)]]&gt;
CAMISA AZUL-GREN&Aacute;Arte de Arthur Bispo do Ros&aacute;rioFabr&iacute;cio CarpinejarMinha av&oacute; usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de anivers&aacute;rio, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impress&atilde;o &eacute; de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um &uacute;nico dia. Seus olhos formavam leques, com as abas internas &agrave; mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E n&atilde;o a boca. Piscava muito, a abafar as diferen&ccedil;as entre os familiares. Disfar&ccedil;ava as brigas dos filhos e tios, j&aacute; que n&atilde;o havia como evit&aacute;-las. Sua camisa azul-gren&aacute; foi a minha grande tenta&ccedil;&atilde;o. Os bot&otilde;es perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa. Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irm&atilde;os e os vizinhos... Suport&aacute;vamos bot&otilde;es furados, quadrados, excessivamente redondos, que n&atilde;o voavam como pretend&iacute;amos para as redes. De repente, a camisa azul-gren&aacute; oferecia dez bot&otilde;es fabulosos. Desenrolando os fr&aacute;geis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas m&atilde;os, para a inveja dos advers&aacute;rios. Minha av&oacute; morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os bot&otilde;es quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O suti&atilde; n&atilde;o me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda. Esperei sua sa&iacute;da na fruteira, de manh&atilde;zinha, para furtar a pe&ccedil;a. Entrei manso em seu quarto. Imposs&iacute;vel entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o bot&atilde;o da manga, julgando ser o mais f&aacute;cil de cair e soar como queda involunt&aacute;ria. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para n&atilde;o ser flagrado. A culpa n&atilde;o combinava com os figos maduros e avermelhados do p&aacute;tio. Repetia o ritual a cada ver&atilde;o. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha av&oacute;, sempre cuidadosa com as roupas, n&atilde;o ia repondo os bot&otilde;es. Vivia pedalando a m&aacute;quina de costura e n&atilde;o deixava uma &uacute;nica pe&ccedil;a desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-gren&aacute; favorita permanecia desdentada.  O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que n&atilde;o me denunciava e abria o jogo? Eu j&aacute; roubava esperando ser pego. J&aacute; roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido. Quando minha av&oacute; morreu, vestia a mesma camisa azul-gren&aacute;. Vestia &eacute; modo de dizer. Restavam somente tr&ecirc;s bot&otilde;es do meio. Deixei para Deus abri-los. Eu a despi. O mist&eacute;rio &eacute; ela ter concordado com isso. (Clube da Calcinha, outubro/2006)]]&gt;
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10/18/2006 10:27:13 AM



T&Aacute; ACABANDO!Arte de Peter BlakeFabr&iacute;cio Carpinejar No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma cal&ccedil;a a outra. As moedas n&atilde;o se desvalorizavam com as mudan&ccedil;as hist&eacute;ricas dos planos econ&ocirc;micos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telef&ocirc;nicas, numa &eacute;poca distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de fam&iacute;lia. Na d&eacute;cada de 80, eu n&atilde;o chegava em casa sem contar os telefones p&uacute;blicos no caminho. Por uma quest&atilde;o de urg&ecirc;ncia e preven&ccedil;&atilde;o, se o primeiro n&atilde;o funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelh&atilde;o tinha a import&acirc;ncia de parada de &ocirc;nibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.Filas se formavam diante do telefone, em qualquer hor&aacute;rio e chuva. Igual a com&iacute;cio-rel&acirc;mpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que ca&iacute;a produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necess&aacute;rio. Quantas declara&ccedil;&otilde;es amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos n&atilde;o foram interrompidos com &quot;fala r&aacute;pido, n&atilde;o tenho mais ficha&quot;?  Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perd&atilde;o, a liga&ccedil;&atilde;o silenciava. O &quot;al&ocirc; al&ocirc;&quot; desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria. O aparelho engolia a seco as aspirinas met&aacute;licas. O orelh&atilde;o hipocondr&iacute;aco tomava umas cem por dia e n&atilde;o morria. Ag&uuml;entava a overdose de um dia inteiro at&eacute; chegar o para-m&eacute;dico da companhia telef&ocirc;nica, que realizava a lavagem estomacal.Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e cal&ccedil;asse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfar&ccedil;ar a pressa. Deixava a menina relatar min&uacute;cias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos. Abafava os solu&ccedil;os do telefone quando consumia os cr&eacute;ditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha trope&ccedil;ando para dentro. Escondia o barulho de est&ocirc;mago falando repentinamente mais alto. Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atr&aacute;s de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelh&atilde;o era feito para dar recado, mas ningu&eacute;m obedecia &agrave; regra de etiqueta. Imposs&iacute;vel n&atilde;o contrari&aacute;-lo. De bom tom n&atilde;o olhar para tr&aacute;s, sen&atilde;o batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usu&aacute;rios. Colava, portanto, o rosto no disco e virava est&aacute;tua. Havia a paci&ecirc;ncia de ouvir as conversas alheias. N&atilde;o foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha id&eacute;ia e marcava um novo encontro. O orelh&atilde;o me botava a pensar antes de dizer. Sem ele, minha vida tem sido perigosamente precipitada. 
T&Aacute; ACABANDO!Arte de Peter BlakeFabr&iacute;cio Carpinejar No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma cal&ccedil;a a outra. As moedas n&atilde;o se desvalorizavam com as mudan&ccedil;as hist&eacute;ricas dos planos econ&ocirc;micos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telef&ocirc;nicas, numa &eacute;poca distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de fam&iacute;lia. Na d&eacute;cada de 80, eu n&atilde;o chegava em casa sem contar os telefones p&uacute;blicos no caminho. Por uma quest&atilde;o de urg&ecirc;ncia e preven&ccedil;&atilde;o, se o primeiro n&atilde;o funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelh&atilde;o tinha a import&acirc;ncia de parada de &ocirc;nibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.Filas se formavam diante do telefone, em qualquer hor&aacute;rio e chuva. Igual a com&iacute;cio-rel&acirc;mpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que ca&iacute;a produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necess&aacute;rio. Quantas declara&ccedil;&otilde;es amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos n&atilde;o foram interrompidos com &quot;fala r&aacute;pido, n&atilde;o tenho mais ficha&quot;?  Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perd&atilde;o, a liga&ccedil;&atilde;o silenciava. O &quot;al&ocirc; al&ocirc;&quot; desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria. O aparelho engolia a seco as aspirinas met&aacute;licas. O orelh&atilde;o hipocondr&iacute;aco tomava umas cem por dia e n&atilde;o morria. Ag&uuml;entava a overdose de um dia inteiro at&eacute; chegar o para-m&eacute;dico da companhia telef&ocirc;nica, que realizava a lavagem estomacal.Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e cal&ccedil;asse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfar&ccedil;ar a pressa. Deixava a menina relatar min&uacute;cias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos. Abafava os solu&ccedil;os do telefone quando consumia os cr&eacute;ditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha trope&ccedil;ando para dentro. Escondia o barulho de est&ocirc;mago falando repentinamente mais alto. Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atr&aacute;s de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelh&atilde;o era feito para dar recado, mas ningu&eacute;m obedecia &agrave; regra de etiqueta. Imposs&iacute;vel n&atilde;o contrari&aacute;-lo. De bom tom n&atilde;o olhar para tr&aacute;s, sen&atilde;o batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usu&aacute;rios. Colava, portanto, o rosto no disco e virava est&aacute;tua. Havia a paci&ecirc;ncia de ouvir as conversas alheias. N&atilde;o foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha id&eacute;ia e marcava um novo encontro. O orelh&atilde;o me botava a pensar antes de dizer. Sem ele, minha vida tem sido perigosamente precipitada. ]]&gt;
T&Aacute; ACABANDO!Arte de Peter BlakeFabr&iacute;cio Carpinejar No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma cal&ccedil;a a outra. As moedas n&atilde;o se desvalorizavam com as mudan&ccedil;as hist&eacute;ricas dos planos econ&ocirc;micos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telef&ocirc;nicas, numa &eacute;poca distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de fam&iacute;lia. Na d&eacute;cada de 80, eu n&atilde;o chegava em casa sem contar os telefones p&uacute;blicos no caminho. Por uma quest&atilde;o de urg&ecirc;ncia e preven&ccedil;&atilde;o, se o primeiro n&atilde;o funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelh&atilde;o tinha a import&acirc;ncia de parada de &ocirc;nibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.Filas se formavam diante do telefone, em qualquer hor&aacute;rio e chuva. Igual a com&iacute;cio-rel&acirc;mpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que ca&iacute;a produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necess&aacute;rio. Quantas declara&ccedil;&otilde;es amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos n&atilde;o foram interrompidos com &quot;fala r&aacute;pido, n&atilde;o tenho mais ficha&quot;?  Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perd&atilde;o, a liga&ccedil;&atilde;o silenciava. O &quot;al&ocirc; al&ocirc;&quot; desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria. O aparelho engolia a seco as aspirinas met&aacute;licas. O orelh&atilde;o hipocondr&iacute;aco tomava umas cem por dia e n&atilde;o morria. Ag&uuml;entava a overdose de um dia inteiro at&eacute; chegar o para-m&eacute;dico da companhia telef&ocirc;nica, que realizava a lavagem estomacal.Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e cal&ccedil;asse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfar&ccedil;ar a pressa. Deixava a menina relatar min&uacute;cias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos. Abafava os solu&ccedil;os do telefone quando consumia os cr&eacute;ditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha trope&ccedil;ando para dentro. Escondia o barulho de est&ocirc;mago falando repentinamente mais alto. Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atr&aacute;s de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelh&atilde;o era feito para dar recado, mas ningu&eacute;m obedecia &agrave; regra de etiqueta. Imposs&iacute;vel n&atilde;o contrari&aacute;-lo. De bom tom n&atilde;o olhar para tr&aacute;s, sen&atilde;o batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usu&aacute;rios. Colava, portanto, o rosto no disco e virava est&aacute;tua. Havia a paci&ecirc;ncia de ouvir as conversas alheias. N&atilde;o foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha id&eacute;ia e marcava um novo encontro. O orelh&atilde;o me botava a pensar antes de dizer. Sem ele, minha vida tem sido perigosamente precipitada. ]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39096351
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html
10/12/2006 12:50:06 PM



PROGRAMA&Ccedil;&Atilde;O13/10 (sexta-feira) - Sarau do Horror: Sexta-feira 13 com Fabr&iacute;cio CarpinejarBate-papo com escritor e esquete teatral com o grupo Ardearte Alcova de Sangue Biblioteca P&uacute;blica Olavo Bilac, Feira do Livro de S&atilde;o Leopoldo, 18h.18/10 (quarta) - FESTIVAL CENAS PO&Eacute;TICAS DE BRAS&Iacute;LIA14h - Leitura Dram&aacute;tica: Fazendo cena com CarpinejarConcep&ccedil;&atilde;o: Grupo Representa&ccedil;&atilde;o e cr&iacute;tica da poesia contempor&acirc;neaCoordena&ccedil;&atilde;o: Prof. Dra. Sylvia Cyntr&atilde;oDire&ccedil;&atilde;o: Julliany MucuryLocal: Audit&oacute;rio Dois Candangos 16h - Oficina com Fabr&iacute;cio CarpinejarPoesia n&atilde;o &eacute; elogio: desaforando a Vida19/10 - Palestra em Frederico Westphalen (RS), 10h, URI (Universidade Regional Integrada)Rua Assis Brasil, 70921/10 (s&aacute;bado) - Feira do Livro de Caxias do Sul (RS)Bate-Papo: &quot;Blogs de escritores-jornalistas&quot;, com Fabr&iacute;cio Carpinejar e Paulo RibeiroCaf&eacute; Cultural, na Pra&ccedil;a Dante Aligheri, 17h  23/10 (segunda) - Entrega do Pr&ecirc;mio Liter&aacute;rio Erico Verissimo, pela C&acirc;mara Municipal de Porto Alegre (RS). Sarau especial sobre poesia e cr&ocirc;nicas de Fabr&iacute;cio Carpinejar. CEEE Erico Verissimo, 20h. Rua dos Andradas, 1223 Fones: 51 3226-7974 e 3226-5342
PROGRAMA&Ccedil;&Atilde;O13/10 (sexta-feira) - Sarau do Horror: Sexta-feira 13 com Fabr&iacute;cio CarpinejarBate-papo com escritor e esquete teatral com o grupo Ardearte Alcova de Sangue Biblioteca P&uacute;blica Olavo Bilac, Feira do Livro de S&atilde;o Leopoldo, 18h.18/10 (quarta) - FESTIVAL CENAS PO&Eacute;TICAS DE BRAS&Iacute;LIA14h - Leitura Dram&aacute;tica: Fazendo cena com CarpinejarConcep&ccedil;&atilde;o: Grupo Representa&ccedil;&atilde;o e cr&iacute;tica da poesia contempor&acirc;neaCoordena&ccedil;&atilde;o: Prof. Dra. Sylvia Cyntr&atilde;oDire&ccedil;&atilde;o: Julliany MucuryLocal: Audit&oacute;rio Dois Candangos 16h - Oficina com Fabr&iacute;cio CarpinejarPoesia n&atilde;o &eacute; elogio: desaforando a Vida19/10 - Palestra em Frederico Westphalen (RS), 10h, URI (Universidade Regional Integrada)Rua Assis Brasil, 70921/10 (s&aacute;bado) - Feira do Livro de Caxias do Sul (RS)Bate-Papo: &quot;Blogs de escritores-jornalistas&quot;, com Fabr&iacute;cio Carpinejar e Paulo RibeiroCaf&eacute; Cultural, na Pra&ccedil;a Dante Aligheri, 17h  23/10 (segunda) - Entrega do Pr&ecirc;mio Liter&aacute;rio Erico Verissimo, pela C&acirc;mara Municipal de Porto Alegre (RS). Sarau especial sobre poesia e cr&ocirc;nicas de Fabr&iacute;cio Carpinejar. CEEE Erico Verissimo, 20h. Rua dos Andradas, 1223 Fones: 51 3226-7974 e 3226-5342]]&gt;
PROGRAMA&Ccedil;&Atilde;O13/10 (sexta-feira) - Sarau do Horror: Sexta-feira 13 com Fabr&iacute;cio CarpinejarBate-papo com escritor e esquete teatral com o grupo Ardearte Alcova de Sangue Biblioteca P&uacute;blica Olavo Bilac, Feira do Livro de S&atilde;o Leopoldo, 18h.18/10 (quarta) - FESTIVAL CENAS PO&Eacute;TICAS DE BRAS&Iacute;LIA14h - Leitura Dram&aacute;tica: Fazendo cena com CarpinejarConcep&ccedil;&atilde;o: Grupo Representa&ccedil;&atilde;o e cr&iacute;tica da poesia contempor&acirc;neaCoordena&ccedil;&atilde;o: Prof. Dra. Sylvia Cyntr&atilde;oDire&ccedil;&atilde;o: Julliany MucuryLocal: Audit&oacute;rio Dois Candangos 16h - Oficina com Fabr&iacute;cio CarpinejarPoesia n&atilde;o &eacute; elogio: desaforando a Vida19/10 - Palestra em Frederico Westphalen (RS), 10h, URI (Universidade Regional Integrada)Rua Assis Brasil, 70921/10 (s&aacute;bado) - Feira do Livro de Caxias do Sul (RS)Bate-Papo: &quot;Blogs de escritores-jornalistas&quot;, com Fabr&iacute;cio Carpinejar e Paulo RibeiroCaf&eacute; Cultural, na Pra&ccedil;a Dante Aligheri, 17h  23/10 (segunda) - Entrega do Pr&ecirc;mio Liter&aacute;rio Erico Verissimo, pela C&acirc;mara Municipal de Porto Alegre (RS). Sarau especial sobre poesia e cr&ocirc;nicas de Fabr&iacute;cio Carpinejar. CEEE Erico Verissimo, 20h. Rua dos Andradas, 1223 Fones: 51 3226-7974 e 3226-5342]]&gt;
carpinejar@terra.com.br (Fabro)
http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39096204
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10/12/2006 12:03:32 PM



ENROLA&Ccedil;&Atilde;ODo Consult&oacute;rio Po&eacute;tico Confira outras consultas no site da SuperinteressanteFabr&iacute;cio Carpinejar&quot;Oi, Fabr&iacute;cioAcompanho suas poesias e admiro muito suas met&aacute;foras. Eu tamb&eacute;m escrevo, e depois que li teus poemas, mudei totalmente minha forma de escrever. Mas a quest&atilde;o hoje &eacute; sobre o consult&oacute;rio sentimental.Voc&ecirc; sempre d&aacute; conselhos para mulheres. Agora d&aacute; um conselho pra um homem.Terminei meu relacionamento de um ano e dois meses com minha namorada. Tudo por causa das d&uacute;vidas dela em rela&ccedil;&atilde;o a mim, se queixando de n&atilde;o saber se de fato quer continuar namorando. J&aacute; que &eacute; assim, preferi cair a ficar em cima da corda bamba. Ela quer que eu esteja por perto, mas sem ficarmos juntos. &Eacute; complicado porque gosto muito dela. Como vou olh&aacute;-la e n&atilde;o poder beij&aacute;-la? Como ficar ali, ao lado, servindo de amigo?N&atilde;o d&aacute; cara... T&ocirc; arrasado. N&atilde;o durmo faz uma semana. J&aacute; liguei pedindo pra voltar, mas ela rejeita a possibilidade. Diz que se eu quiser ir visit&aacute;-la tudo bem. S&oacute; visitar, nada mais! Eu me conformei, estou tentando esquec&ecirc;-la.Ser&aacute; que o mais sensato &eacute; fazer isso ou tentar reconquist&aacute;-la custe o que custar?Me responde, cara, ajuda este f&atilde; dos teus poemas a achar uma solu&ccedil;&atilde;o.&quot;Ol&aacute;, AndersonVai cair de todas as formas: ficando no muro, pulando ou acenando para os carros. Eu alteraria a postura. &Eacute; confort&aacute;vel que permane&ccedil;a ao lado dela. Assim n&atilde;o some e, ao mesmo tempo, n&atilde;o encontra ningu&eacute;m.Ela pretende manter o dom&iacute;nio e n&atilde;o se responsabilizar pelas a&ccedil;&otilde;es futuras. Como ela j&aacute; disse que n&atilde;o deseja namorar, est&aacute; livre para outro relacionamento. Como ela disse que aceita s&oacute; visita, j&aacute; o col